A fila mais demorada

Mais de 8 milhões de pretos e pardos estão desempregados no Brasil, representando mais da metade da estatística

  • Por: Hebert Garcia | Foto: Nícolas Chidem | 18/06/2018 | 0

O peso no ambiente da sede do SINE, sigla para Site Nacional do Emprego, era alimentado pelas caras fechadas e ansiosas de quem esperava pela sua senha ser a próxima a ser chamada. A sede deste serviço, localizado na Avenida Sepúlveda, s/nº, centro de Porto Alegre, atrai centenas de pessoas todos os dias, interessadas em acabar com o flagelo do desemprego. Desde 2014, o Brasil tem vivido sob a sombra de uma recessão econômica severa e viu o número de desempregados passar de 6,7 milhões para 13,2 milhões em um período de quatro anos.

Na longa fila de anônimos, quatro personagens. Cidadãos de situações de vida totalmente diferentes, que estão atrás de qualquer serviço, o que aparecer. Essas pessoas que serão retratadas nessa reportagem têm pelo menos duas coisas em comum: a cor da pele e a discriminação sentida graças a isso.

Ana Lúcia Souza, de 57 anos, está há dois anos desempregada e vive de bicos como faxineira. Ela é a única com quem falei que não mora em Porto Alegre. Foi para Eldorado do Sul, na Região Metropolitana, por necessidade, quando ficou difícil de pagar o aluguel na capital. Ela afirma que hoje é sustentada pela filha mais nova, de 15 anos. “É uma pensãozinha da minha guria que eu não posso usar, né? Não tem como viver”.

A senhora tem os olhos lacrimejantes e fala com a voz trêmula. Lamenta que os filhos mais velhos não a ajudam nas despesas. Ela passa por dificuldades financeiras. Conta que já passou diversas vezes por situações constrangedoras na hora de entrevistas em busca de uma vaga no mercado de trabalho. “Já vi pessoas que dizem que vão ligar depois da entrevista. Aí, quando a gente vira as costas, rasgam o currículo É isso que acontece”.

Além de ser negra, ela também pensa que o fato de ser mais velha dificulta na hora de ser contratada. “Sempre querem pessoas novas e claras. A gente precisa trabalhar também, não são só os novos. Quando a pessoa vem procurar emprego, não deveria importar a idade dela, mas se ela quer trabalhar ou não”.

Ubirajara Rosa, de 44 anos, morador do Bairro Hípica, em Porto Alegre, havia voltado para a capital uma semana antes, vindo de Torres, no litoral Norte gaúcho. Entre as belas praias da cidade, que atraem turistas durante todo o verão, ele trabalhou como garçom em um restaurante, sem carteira assinada. Também teve de recorrer ao trabalho informal.

“Eu trabalhava quase todos os dias, mas numa condição de freelancer. Como eles não têm uma clientela estável, não assinam carteira de ninguém. Faz um ano e meio que eu não trabalho com carteira assinada”, afirma Ubirajara.

Quando perguntado se sofre discriminação na hora de procurar emprego, ele responde que muitas pessoas talentosas são deixadas para trás por serem negras, mesmo quando se tem a mesma qualificação que o candidato branco. “Você sempre vai ser trocado pelo cara que é mais bonitinho. É visível. É uma coisa empírica. Todo mundo sabe disso. Se alguém tem alguma dúvida, não sabe encarar a realidade como ela é”.

Com o ensino médio completo, ele conta que tem o sonho de trabalhar na área da comunicação, como jornalista. Mas, assim como é a realidade da maioria da população negra no Brasil, o acesso ao ensino superior é um sonho distante. “Eu vou prestar o vestibular este ano. Entrar na faculdade é um objetivo pessoal. Como eu estou desempregado, vou procurar algum pré-vestibular gratuito”.

Mas nem todos os negros estão à margem do ensino superior. Há quem desfie essa realidade. É o caso de Dionathan Soares, de 20 anos, estudante de Psicologia. Como ainda está no primeiro semestre do curso, não pode estagiar na área. Há cerca de seis meses, Soares trabalhava como aprendiz em uma empresa. Contribuía nas despesas da casa, como água e luz, e também na mensalidade da faculdade. Agora, o futuro psicólogo procura uma nova vaga. “Eu ajudava bastante, era uma renda a mais que entrava”, conta o estudante, morador do Bairro Nonoai, na zona sul de Porto Alegre.

No seu ponto de vista, a cor da sua pele influencia bastante na hora de escolher quem vai ser empregado. “Vai um rapaz negro ou uma moça negra procurar emprego, se tiver também um branco, ele vai ser escolhido. A gente sempre tem que fazer a mais do que o branco”. Ele diz que nunca sofreu isso explicitamente em uma entrevista de emprego, mas que pode sentir. “Tem aquela diferença, a pessoa já olha com uma cara diferente. Eu fico triste com isso”.

“A desigualdade racial está em tudo que a gente faz. É no serviço, na sociedade, caminhando na rua. Agora mesmo eu fui comprar um salgadinho, e o segurança da loja ficou me olhando como se eu fosse roubar alguma coisa”, lamenta Deivison Rodrigues Silveira, de 35 anos. Desempregado desde dezembro do ano passado, ele passa por grandes dificuldades financeiras. Já teve que vender os poucos utensílios domésticos que possui para ter o que comer.

“Está periclitante. Semana passada eu tive que vender meu micro-ondas para ter uma semana tranquila de almoço, para ter passagem (de ônibus) para vir ao centro. Com esse valor que está a passagem fica impossível. Se tem uma entrevista na zona sul, gasto 20 reais de passagem”, afirma Deivison, que mora no bairro Sarandi, na zona norte da cidade.

Durante parte do ano passado, Deivison chegou a ser morador de rua. Ele também conta que já recusou ofertas de traficantes da região onde mora para se juntar a eles. Afirma ainda que isso é uma rotina para quem vive na periferia. “Isso é toda hora, todo dia. Eles veem que você está mal, tentam te aliciar, te oferecendo um dinheiro fácil, mas você sabe que logo mais vai acabar preso ou morto. Perdi muito amigo assim”.

Ele diz que já percebeu um certo racismo quando ele e uma pessoa branca disputam a mesma vaga. “Eles pegam o currículo, ficam de entrar em contato. Mas o contato nunca vem. O negro que espere mais um pouco. Eu acho que às vezes é por causa do meu tom de pele”.

No dia em que Deivison atendeu a reportagem, contou que aquele era um dia calmo no SINE, mesmo esperando duas horas por atendimento. Nos dias de maior pico, chega a aguardar quatro horas pela sua vez. Ele sai todos os dias para procurar serviço. Para economizar o dinheiro da passagem, muitas vezes percorre a pé os 11 quilômetros que separam o bairro Sarandi do Centro Histórico de Porto Alegre. Quando eu pergunto a ele o que o move nesse caminho, ele cita sem titubear: os dois filhos. “É isso que não me fez desistir”.

 

Negros têm baixa presença em quadros executivos de grandes empresas

Todas as pessoas entrevistadas para essa reportagem têm seus objetivos pessoais, seus sonhos. O trabalho com carteira assinada, a estabilidade que um emprego fixo com salário mensal oferece, é a ponte para isso. No entanto, os pardos e pretos, apesar de representar a maioria da população brasileira e da população economicamente ativa, é a maior parcela da população desocupada no país.

De acordo com a Pesquisa de Emprego e Desemprego na Região Metropolitana de Porto Alegre (PED-RMPA), a desigualdade na taxa de desemprego entre negros e não negros manteve-se praticamente estável entre 2004 e 2014. A razão da taxa de desemprego entre esses dois grupos populacionais inicia e termina a série com o mesmo valor (1,55), o que significa que a taxa de desemprego entre os negros se manteve 55% mais elevada do que entre os não negros. Destaca-se que os negros eram 16,6% dos desempregados em 2004, parcela que cresceu para 19,1% em 2014.

E a tendência é de que esses dados tenham piorado de 2014 para cá, com a crise econômica que o país tem passado e da qual ainda tenta se recuperar. O desemprego aumentou exponencialmente no período. De 2014 a 2017, a população desocupada cresceu em 6,5 milhões de pessoas, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), divulgada pelo IBGE.

Também de acordo com a PNAD Contínua, pretos e pardos representavam 63,7% dos desocupados no Brasil no terceiro trimestre de 2017. Significa que dos 13 milhões de desocupados no período, 8,3 milhões eram pretos e pardos.

O Instituto Ethos é uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público que ajuda empresas a gerenciar seus negócios de forma socialmente responsável.

Em 2016, o Instituto Ethos realizou o estudo Perfil Social, Racial e de Gênero das 500 maiores empresas do Brasil e suas ações afirmativas. O perfil constatou que os negros, de ambos os sexos, representam apenas 34,4% de todo o quadro de pessoal entre as empresas analisadas.

“O negro precisa ter discernimento para se defender, em qualquer lugar, porque quando não se tem, as coisas realmente se tornam difíceis. Você é colocado na subdivisão das empresas e geralmente acaba não tendo ascensão”. O comentário de Ubirajara Rosa faz todo o sentido. O estudo do Instituto Ethos também mostra que, enquanto os negros têm uma presença expressiva entre os aprendizes (57,5% nesse nível), há um afunilamento hierárquico entre os níveis mais elevados do quadro das empresas: a diferença, entre brancos e negros, é de 94,2% no quadro executivo e 94,8%, no conselho de administração.

Isso significa uma grande sub-representação, já que a população negra, formada por pretos e pardos, é maioria entre a população brasileira (54,9%), de acordo com dados da PNAD Contínua divulgados no fim de 2017. Eles também representam 52,8% da População Economicamente Ativa e 51,9% da população ocupada.

“O Perfil mostra dados extremamente preocupantes. Ele deixa claro a dificuldade de acesso e de ascensão dos negros nas grandes empresas”, afirma a coordenadora de práticas empresariais e políticas públicas do Instituto Ethos, Sheila de Carvalho. Ela acrescenta que o problema não é a falta de capacitação. Há muitos negros qualificados, mas o mercado de trabalho não os absorve. “No ritmo atual das políticas públicas, só vamos alcançar uma igualdade minimamente compatível em 80 anos. Temos um grande desafio para a diminuição da desigualdade. Nós queremos uma redução dela na prática”.

Sheila ainda afirma que, apesar de ter grande representatividade nos cargos mais baixos, a presença de negros nas altas cúpulas diminui drasticamente. A porcentagem é muito pequena nesses quadros, e muitas vezes as companhias não entendem isso como um problema. Porém, a missão do instituto é sensibilizar as empresas a adotar práticas voltadas a reduzir essa desigualdade, além de incentivar e fomentar essas políticas.

“Existem muitas empresas que começaram a adotar medidas para aumentar a integração. Elas precisam assumir um compromisso social de combate às desigualdades. Elas não podem se esquivar disso”.

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