A vida de fé e luta de imigrantes em Porto Alegre

As emoções, as dificuldades e a crença dos refugiados senegaleses e muçulmanos em Porto Alegre

  • Por: Vinícius Spengler | Foto: Vinícius Spengler | 20/06/2017 | 0

Uma bebê protegida pelo colo da mãe, mas na confusão da cidade. Está inquieta, incomodada com o barulho dos carros e do movimento. A sua frente, e para distração, os carregadores, fones, shorts, cadarços que o pai e a mãe vendem. Se o choro aparece, é logo contido pelo carinho da mãe e um cadarço colorido como divertimento.

“Nossa! Que fofura”, diz uma senhora que interrompe sua caminhada para admirar a pequena Anita, que demonstra a ternura de seus nove meses com um simpático sorriso. Ela atrai olhares no meio de uma das avenidas mais movimentadas de Porto Alegre. Em dez minutos ao lado da família, a filha de Sering Fall e Anta Ndiaye recebe, pelo menos, 15 elogios. Até a ideia de fazer um book fotográfico da menina é levantada. Sering, receoso, me pergunta instantaneamente quando aquele conglomerado de admiradores de filha vai embora: “O que é esse book?”

Sering Fall e Anta Ndiaye vendendo suas mercadorias acompanhados da filha Anita
Sering Fall e Anta Ndiaye vendendo suas mercadorias acompanhados da filha Anita

É a comunicação a principal dificuldade da família muçulmana e senegalesa em Porto Alegre. Como 90% da população do Senegal, Sering e Anta seguem o Alcorão e os ensinamentos de Maomé, como a maior parte dos imigrantes que vieram do país africano nos últimos tempos. O homem de quase 2 metros de altura, sorriso fácil e brincalhão chegou ao Brasil de avião, em agosto de 2013. Depois trouxe a mulher, Anta. No seu primeiro emprego, setor de limpeza em uma empresa de Farroupilha, não tinha liberação para cumprir as seis orações obrigatórias (Fajr, Nascer, Dhuhur, Assr, Maghrib e a Isha), cada uma em horário específico.

A saída para conciliar trabalho e fé era fazer todas as rezas atrasadas ao final do expediente. É quase um contrato direto com Allah. “Eles (as pessoas da Mesquita) não sabem que faço isso. Não poderia fazer, mas Allah sabe que não é por falta de fé”, confessa Sering. Contudo, Mohammad Abuback, um dos líderes da mesquita porto-alegrense explica que “o que vale é a intenção em respeitar as leis de Allah. Ele vai saber se você quis cumprir suas obrigações ou se é descrente”.

Sexta é dia de Rhutba (momento especial na semana, é equivalente ao sermão ou pregação para Católicos) com o Sheikh. Às 13 horas começam a chegar os muçulmanos. A mesquita está no centro de Porto Alegre, na rua Doutor Flores. O lugar é estratégico para quem chega de trem ou ônibus. Assim, aproxima os trabalhadores muçulmanos dos arredores e facilita o acolhimento de quem chega. Está no décimo andar de um prédio comercial a sala que comporta fiéis de várias cidades da Região Metropolitana. O espaço se torna apertado pela quantidade de pessoas que buscam o lugar para culto. Pendurados na parede, três panos com seus ensinamentos. Sheikh Jamal, moçambicano e o líder da mesquita, explica os seus respectivos significados: “No primeiro está dizendo ‘Não há outra divindade que merece ser honrada como Allah’. No outro, os 99 atributos de Deus e, no último, os três capítulos revelados para Maomé”.

Oração dos homens na Rhutba
Oração dos homens na Rhutba

O que chama a atenção ao entrar no local é um biombo de madeira ao fundo da sala. Este é o local tomado pelas mulheres no seu horário de oração. Na porta da cozinha, um cartaz diz: “Caros Irmãos: Quando da presença das mulheres na cozinha, evitem entrar no local”. Por ser muçulmano, o local é cheio de regras, isso reflete as características de seu povo e o estilo de vida levado.

Seguindo os ensinamento e as leis, Sering Mouahmed, vendedor ambulante no centro da capital gaúcha, recolhe sua mercadoria às 12h59min. Coloca tudo dentro de uma bolsa grande, usada para transportar todos os dias os produtos que assegura os cerca de R$ 460 que sustentam ele. Sering Mouahmed está preocupado com o horário para a Rhutba. Tem que chegar e ainda realizar os rituais de preparação. A correria começa.

São 13h07min quando chega à mesquita, tira os sapatos e acomoda-os no lugar apropriado, a sapateira logo na entrada da casa religiosa. Em dois minutos, começa a oração. Sering precisa preparar-se para estar diante de Allah. São três as vezes em que o braço recebe a água, mais três para a nuca e o rosto. Os pés também são alvo da Hoduh, purificação necessária para a oração coletiva, uma espécie de lavagem apenas com água.

Inicia-se com o Azan, o chamamento dos fiéis. “Damos a oportunidade de um homem importante e sábio, que pode guiar os outros a uma concentração exemplar”, explica o Sheikh, líder da mesquita. A Rutba é toda em árabe, mas traduzida para que todos entendam. Começa no horário independente do número de presentes. Aos poucos, o espaço vai se tornando pequeno. Os homens se ajeitam cada vez mais próximos um dos outros. Tudo em silêncio. Todos virados para Meca. O Sheikh fica em um púlpito, fala alto e o idioma favorece a concentração. Ao final, todos se cumprimentam.

A saída é acompanhada de piadas e brincadeiras entre aqueles homens que falam francês, português, espanhol e árabe, tudo em um mesmo ambiente. Agora é colocar os sapatos, pegar a sacola e voltar para a rua vender o máximo possível. Todo o processo novamente: estende o pano no chão, retira item por item da sacola.

Há um ano e seis meses no Brasil, Sering Mouahmed não teve dificuldades de adaptação. “Tudo bem parecido com o Senegal. Mesmas comidas, clima, tudo igual”, conta. As condições para continuar muçulmano no Brasil existem. “Aqui temos a mesquita e podemos fazer tudo o que fazíamos lá, é tranquilo”, compara. Acostumados com grandes mesquitas, os senegaleses tiveram que se adaptar com a humildade do local disponível aqui.

Porém, Ndiaga Mbaye, conta que foram bem recebidos pelos “irmãos brasileiros”. Ele, também vendedor de rua, mora com mais cinco senegaleses e divide crenças, histórias e saudade com os companheiros. Mesmo com um oceano de distância, suas crenças são cultivadas e adaptadas ao Brasil. “Dia 19, na casa da Mari vamos fazer a Grande Festa de Touba”, comenta Ndiaga Mbaye. Cheikh Ahmadou Bamba é o principal nome do Islã em Senegal, e Touba é considerada a “Meca de Senegal”, explica Sering Fall, pai da menina Anita, que participa da conversa. Bamba é a referência da religião no país africano. Todos os anos, a comunidade senegalesa, em qualquer parte do mundo, nesta data passa o dia lendo o Alcorão, cantando e confraternizando em grupo. “Vai ter até churrasco”, brinca Fall, já saindo em função de um cliente que se aproxima querendo um fone de ouvido.

Com a união da comunidade do Senegal em Porto Alegre ficou tudo mais fácil para quem chega do continente africano. A distância de casa, da família, é atenuada pelo convívio com os compatriotas. E eles já estão se sentindo um pouco brasileiros. Em 1991 a comunidade muçulmana aqui era de 27.299. No censo de 2010, eram 35.167 praticantes do islamismo, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Esse crescimento e desenvolvimento ajudou na adaptação dos imigrantes que chegaram ao Brasil no último período.

A relação humana com respeito e obediência é parte da cultura islâmica. Isto é ressaltado pelo ex-secretário de Direito Humanos de Porto Alegre, Luciano Marcantônio. “O interessante é que nenhum desses que veio pra cá se envolveu em roubos, situação de droga ou moram na rua. E acho que muito pelo sua religião e pelos ensinamentos dela”, diz o atual vereador. Um dos pilares da religião islâmica é a obediência impecável aos ensinamentos de Maomé.

A conversa segue em meio a uma venda e outra, um elogio e um aperto na bochecha que recebe Anita. A dificuldade de conseguir emprego formal, que afeta os brasileiros, igualmente faz parte das preocupações e reflexões de Sering Fall e Anta Ndiaye. “Quando tivermos condições, vamos voltar”, diz o homem. Preocupada com a filha pequena, a costureira Anta Ndiaye está procurando trabalho. “Está bem difícil de achar e o pior é que ela não fala muito bem o português”, explica Sering Fall.

São senegaleses e senegalesas que vieram para o Brasil atrás da promessa de uma vida melhor, de emprego, estabilidade, talvez riqueza. A maior parte desses objetivos ficou pelo caminho. Se dissiparam, quem sabe, no Atlântico. A distância é de mais de 6 mil quilômetros. A solidão chega forte, e a vida é difícil. Já deixaram muita coisa para trás, família, pobreza extrema, laços afetivos, até a saudade já nem bate com aquela força do início. Contudo, hoje já pensam principalmente em juntar dinheiro e voltar para próximo da família e amigos. “Na primeira oportunidade, eu vou. Quando tiver dinheiro volto”, desabafa, emocionado, Sering Mouahmed. Ele, que consegue ganhar R$ 460 por mês, gasta com aluguel (que é dividido com mais 5 pessoas), comida e manda o restante para a família lá em Senegal.

A moeda do Senegal é o franco CFA, que vale 186,47096 em comparação a R$ 1. Portanto, valem muito a pena todos os reais que entram para as famílias de quem trabalha por aqui. Marcantônio salienta que no período “antes da crise que afetou o Brasil todos que vinham tinham emprego tranquilamente, as empresas preferiam os estrangeiros”. Aqui, encontraram ao menos uma possibilidade de continuar uma vida próxima a que tinham em seu país. Usufruem da liberdade religiosa necessária, conseguiram formar grupos de amigos, encontraram com facilidade uma culinária parecida com a do Senegal. Já vivem e agem como brasileiros, ao menos quando o assunto é o comércio.

-Quanto tá o fone vermelho?  —  pergunta um senhor para Ndiaga Mbaye.
-R$ 15  —  responde rapidamente Mbaye, interrompendo nossa conversa para os negócios.
-E não tem como fazer por R$ 10?  —  pechincha o cliente.
-Sem chance, mas o senhor pode levar 2 por 25  —  diz Ndiaga Mbaye.

O homem leva os dois fones. Ndiaga Mbaye fica faceiro com mais uma venda. “Já sou um pouco brasileiro”, brinca com a situação. Mas o ambiente de respeito por vezes é ignorado, e os imigrantes sofrem com o preconceito. “Tem muita gente boa aqui, mas já aconteceu de sermos xingados pelo trabalho que fazemos”, relembra Sering Mouahmed.

Os muçulmanos viraram assunto para o mundo todo. Eles detêm a atenção de potências mundiais por suas diferenças culturais e religiosas e pela posição geográfica onde mais se concentram. Praticantes da maior religião do planeta, com 1,6 bilhão de adeptos em 2010, segundo o documento O futuro das religiões no mundo: projeções 2010–2050 do Pew Research Center, encontraram em Porto Alegre um alento para sua vida.

No sonho era tudo perfeito. A realidade se mostrou bem diferente, mesmo assim vivem com felicidade aqui. Com tranquilidade, levam uma vida próxima da que tinham. Fazem planos e planejam voltar melhores do que saíram do Senegal. “Voltarei com dinheiro suficiente para começar uma vida nova lá. Se Allah quiser e permitir”, diz Sering Fall.

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