Sem idade para mudar

Porque pais e mães decidiram adotar crianças “mais velhas” e o que isso mudou em suas vidas

  • Por: Luan Sousa | Foto: Felippe Morais | 01/11/2018 | 0

Tays e Lúcia casaram-se há pouco tempo, apesar de já estarem juntas desde 2014. As duas tinham um desejo comum para recém-casadas: ter um filho. A possibilidade de adotar uma criança não havia sido cogitada, pois pensavam principalmente em métodos como a fertilização in vitro, para os quais Lúcia já fazia exames. Como as duas não pretendiam engravidar logo após o casório, outros métodos de adicionar um novo membro à família foram buscados, entre eles o apadrinhamento afetivo.

No apadrinhamento afetivo é permitido visitar crianças que estão em abrigos ou casas de acolhimento, fazer passeios e participar ativamente da rotina delas. Esse modelo não prevê vínculo jurídico como na adoção. O primeiro contato que Tays e Lúcia tiveram com o apadrinhamento foi pela Fundação de Proteção Especial do Rio Grande do Sul (FPE). O órgão havia anunciado um curso de apadrinhamento, e as duas entraram em contato por e-mail. Cinco meses depois, a FPE entrou em contato para avisar que uma turma de apadrinhamento havia sido aberta. Quem desejasse participar deveria enviar uma série de documentos, assim como um portfólio de fotos dos pretendentes.

Lúcia conta que acabaram por escolher adicionar no portfólio principalmente fotos do casamento, para que o futuro afilhado já soubesse da união matrimonial. Deu certo. As duas foram escolhidas para ingressarem na turma. Um encontro com o afilhado e uma psicóloga foi imediatamente agendado.

Foi assim que as duas conheceram Samuel, que, na época, tinha oito anos e estava prestes a realizar duas pequenas cirurgias: uma para a retirada de amígdalas e a outra para corrigir desvio de septo nasal. Nesse momento, o laço afetivo entre as dindas e o afilhado começava a se tornar mais forte. “Logo que a gente apadrinhou, nossa ideia era ver a criança de 15 em 15 dias e nos fins de semana”, relembra Lúcia. Os planos, entretanto, mudaram. Por conta das cirurgias, as duas passaram a fazer visitas constantes ao menino. “Os primeiros quinze dias com ele foram intensos. Ele foi operado, e a gente não conseguiu mais ficar longe. Quando vínhamos para casa, sentíamos falta. Quando nos demos conta, estávamos ‘morando’ no abrigo”, brinca Lúcia.

Foi neste período, de convivência praticamente diária com o afilhado, Tays e Lúcia entraram com o pedido de guarda, que foi concedido após quatro meses, quando Samuel passou a morar com as duas. O garoto tinha dois irmãos mais velhos no abrigo, Ana e David, com 10 e 12 anos, respectivamente. As mães haviam estabelecido que mesmo que não fossem adotar mais filhos, não queriam que Samuel perdesse o contato com os irmãos biológicos. “Quando conseguimos a guarda do Samuel, nós pegávamos os irmãos para passear. Assim, as pessoas que nos conheciam acabavam conhecendo as crianças também”. Alguns amigos, que já tinham a intenção de ter filhos, se encantaram pelos irmãos de Samuel e os adotaram. Ana foi adotada por um casal, e David por um pai solteiro.

Hoje, dois anos após Samuel ter conhecido sua nova família, a relação entre os irmãos ainda é bem próxima. Na medida do possível, convivem ocasionalmente, seja em festas de aniversário ou mesmo em visitas para matar a saudade. Com as duas mães, o garoto se sente totalmente integrado. “A única coisa que ele demorou foi a nos chamar de mães, já que nos conheceu como dindas”, recordam Lúcia e Tays. Além disso, elas descrevem a relação com Samuel como um aprendizado recíproco e constante. Tays também comenta as semelhanças que vê entre o filho e as mães. “Fisicamente, ele é muito parecido com a Lúcia, mas tem muito da minha personalidade. Ele se espelha muito em mim”. Se a opção inicial não era adotar, o apadrinhamento de Samuel mudou tudo. “Descobri que queria ser mãe, mas não queria engravidar. Samuel completou esse desejo”, emociona-se Lúcia.

Sobre sonhos e aspirações

Domício, psicoterapeuta, em seu escritório

Dados oficiais mostram que há muitos pretendentes para poucas crianças na fila da adoção. Em agosto de 2018, por exemplo, a Coordenadoria Estadual da Infância e da Juventude do Rio Grande do Sul contabilizava 620 crianças aptas para adoção e 6,2 mil pretendentes habilitados. O número, que parece positivo, acaba mostrando uma realidade bem diferente. De acordo com a CEIJ, enquanto 88% dos meninos e meninas aptos para a adoção têm entre 11 e 17 anos, 90% dos pretendentes desejam crianças de até seis anos, no máximo.

Em meio a tantos pretendentes que acabam preferindo crianças mais novas, há também quem deseje adotar um jovem mais velho. Esse é o caso de Domício Brasiliense, psicoterapeuta. Ele conta que sempre gostou da ideia da adoção: “Sempre, desde piá, eu achei bacana a adoção. Tanto que pedi para os meus pais adotarem um irmão para mim”. Anos após o nascimento do filho biológico, Domício já não pensava em adotar, porém, descobriu o apadrinhamento afetivo. Desde que cogitou apadrinhar, o psicoterapeuta  pensou em um adolescente, tanto por achar que poderia ser um bom orientador quanto porque seria o padrinho de alguém mais independente.

O primeiro encontro de Domício e Anderson aconteceu no próprio abrigo onde o jovem de 16 anos morava. Na medida em que as visitas iam acontecendo, a empatia entre eles crescia. Aos poucos, claro, foram se aproximando. Até que Anderson recebeu autorização para visitar a casa de Domício para conhecer a família do padrinho. “O Anderson se integrou. Foi uma integração. Uma entrega de ambas as partes. Ocorreu uma empatia muito grande”, lembra.

As visitas quinzenais pareciam não ser mais suficientes. Então, Domício decidiu dar entrada no processo de guarda. Assim como no caso de Tays e Lúcia, Anderson também tinha um irmão, Andrei, de 15 anos, que Domício já conhecia porque havia levado os dois para passeios. Foi na audiência pela guarda de Anderson que surgiu a ideia de apadrinhar o irmão mais novo.

Enquanto Anderson tinha agora um guardião, Andrei também ganhava um padrinho. Após alguns meses de convivência, Domício chegou à conclusão que faria um pedido pela guarda de Andrei também, o qual foi aprovado em janeiro de 2018. Hoje, Anderson tem 18 anos. Andrei, 17. Ambos estão totalmente inseridos na família. Anderson, inclusive, começou uma carreira como barbeiro e costuma cortar o cabelo dos colegas que ainda vivem no abrigo. Domício conta que o garoto sempre gostou muito de mexer no próprio cabelo, mas por normas no abrigo não era possível. “Ele queria descolorir o cabelo. Óbvio que eu deixei. A vida não tem graça se não for para resgatar sonhos”.

O termo adoção tardia vem do fato de que, como mostram os dados, após os seis anos de idade, o índice de pretendentes para adoção caí bastante. Muitas vezes são consideradas velhas demais e, por já terem passado por muita coisa, os pretendentes acabaram preferindo recém-nascidos ou bebês.  Muitas dessas crianças vivem os medos de nunca serem adotados e não terem um lugar para ir após completarem a maioridade. Entretanto, como Domício fala, apesar de ser referido como adoção tardia, “nunca é tarde para adotar”.

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