As marcas da dor

Dados estatísticos mostram aumento nos índices de violência entre casais

  • Por: Mariana Gomes Puchalski | Foto: Taimá Walther | 13/05/2019 | 0

O dia 3 de novembro é lembrado todo ano com muita tristeza por Maria. Violência psicológica, patrimonial e até sexual fizeram parte do seu relacionamento por 20 anos. Mas nunca, até aquela quinta-feira de 2016, havia sido agredida fisicamente pelo marido. Maria, que estava prestes a completar 40 anos, discutiu com o companheiro sobre o pedido de divórcio feito por ela. O resultado foi violento: cinco horas de espancamento. “Das 17h até as 22h, ele me bateu com o carro em movimento. Como o carro tinha vidros com película escura, ninguém de fora podia ver. Dirigindo, me obrigou a colocar o cinto de segurança. Ele dirigia e me batia. No meu estômago, no braço. Além de xingamentos e palavras horríveis”, recorda.

 

Em seguida, o marido a levou para um sítio em que estavam construindo. O local era mais afastado da cidade e não havia ninguém por perto. Desembarcaram do carro. Descontrolado, caminhando em direção à casa, o homem disse que se mataria caso ela mantivesse a decisão de se separar. Entraram no chalé antigo, e o marido tomou o rumo do andar de cima. Assustada, Maria decidiu que não iria ficar ali. Nesse momento, conseguiu voltar para o carro e fugiu. No caminho, o marido ligou. Pedia que ela voltasse para buscá-lo. Maria não voltou. Mais tarde, o filho mais velho do casal buscou o pai.

 

Quando Maria chegou em casa, pediu socorro para as outras duas filhas. Contudo, o marido e o filho chegaram quase ao mesmo tempo. “Ele fez de conta que nada tinha acontecido.” Mas os filhos desconfiaram. Perceberam que estava machucada, que não estava bem. Do pai, não ouviram quase nada. Segundo Maria, a única coisa que o agressor teria dito foi: “A mãe de vocês não presta. Amanhã a gente vai conversar sobre isso”.

 

Casualmente, na mesma noite da agressão, era aniversário da sogra dela. “Tive que fazer de conta que estava tudo bem.” No dia seguinte, comunicou novamente ao marido que gostaria de se divorciar. Na tentativa de evitar a separação, ele mentiu que estava com câncer e que, por isso, ela não poderia deixá-lo sozinho. “Disse que tinha pouco tempo de vida. Inclusive, falou isso para os nossos filhos”.

 

Após o homem contar para toda a família que estava doente, tiveram de passar o final de semana inteiro como se tudo fosse normal. Na segunda-feira, Maria insistiu em procurar um advogado para encaminhar o divórcio. A reação do marido foi um surto de raiva. À força, obrigou Maria a ir a uma delegacia, afirmando que ela teria um amante. A farsa do marido durou pouco. Quando a escrivã de polícia pediu os documentos dele, recebeu como resposta que a ocorrência seria feita no nome da esposa. Maria reagiu, perguntando se ele queria que ela mentisse para a polícia. “Não está havendo nenhuma ameaça. Eu não tenho amante”, disse Maria, diante da policial. Irritado, o marido pegou Maria pelo braço, na tentativa de levá-la embora. O gesto foi a senha para a escrivã perceber o que realmente estava acontecendo.

 

A policial olhou para Maria, que estava machucada das agressões. Perguntou se ela gostaria de registrar uma ocorrência. Ela respondeu que sim. “Quando eu disse sim, ele ficou muito assustado. E a policial mandou ele se afastar.” A agente, então, conversou apenas com ela. Maria relatou que havia sofrido violência física e que estava prisioneira em casa desde o ocorrido. Dez minutos depois do diálogo entre as duas, o marido foi preso em flagrante. Foi autuado por violência doméstica. Mesmo protegida pela Lei Maria da Penha (que cria mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher), a polícia orientou Maria a sair de casa. Pegou meia dúzia de mudas de roupas, os filhos e foi para a casa de amigos. Solto depois de três horas por conta do pagamento de fiança feito pela mãe, o marido saiu da delegacia revoltado. “Ele percebeu que havia me perdido. E que eu não ia mais voltar.”

 

Mesmo com a Medida Protetiva, Maria precisou ir dez vezes à delegacia para fazer boletins de ocorrência contra o ex-marido. “Eu sofri perseguição no trânsito, ameaça. Ele não respeitava. Ele só se acalmou quando a juíza ameaçou prendê-lo novamente.” Atualmente, não mantém qualquer contato com o agressor. Nem pretende voltar a fazê-lo. “Só converso com ele em audiência. Sempre que vem buscar a minha filha mais nova, tem alguém que vai intermediar”, conta.

 

Maria recomeçou a vida do zero, trabalhando como empregada doméstica e morando em uma casa humilde. Precisou sustentar os filhos sozinha. A situação só melhorou quando a juíza decretou que o ex-marido deveria pagar pensão. Hoje, vive uma relação saudável. Reencontrou um ex-namorado de adolescência. “Eu percebo o quão diferente é. Porque ele se preocupa comigo. Ao invés de estar me controlando, querendo saber onde eu estou. É muito diferente. A minha autoestima também mudou. É uma pessoa que me valoriza, que me faz acreditar que eu sou capaz.”

 

Violência doméstica contra homens

 

Apesar de as mulheres serem as principais vítimas de violência doméstica, isso também ocorre com homens. Segundo a doutora em Psicologia Denise Falcke, a violência contra homens acaba sendo subnotificada porque não há espaços de escuta que sejam adequados a esse tipo de denúncia. “A Lei Maria da Penha é feita para mulheres vítimas de violência. Os homens vítimas de violência têm que recorrer a uma delegacia comum. E vivemos em uma sociedade machista. Pelo estereótipo da masculinidade, eles não se sentem à vontade para fazer essa revelação”, acredita Denise.

 

No Facebook, um grupo chamado Relações Perigosas reúne homens e mulheres que desabafam sobre relacionamentos abusivos e relações em geral. João, 51 anos, é integrante do grupo, que conta com mais de 3 mil membros. Ali existe uma aba indicando Mentorias, na qual membros podem obter ou fornecer apoio. João é um dos mentores, cuja função é ajudar pessoas que passaram por abusos nas relações. “Conseguimos ajudar, passar uma palavra amiga. Indicar um caminho, porque as pessoas sofrem a ponto de querer tirar a própria vida”, explica.

 

João conheceu sua ex-namorada ainda jovem, da infância para adolescência. Contudo, os dois perderam o contato. Ele se casou e teve duas filhas. Mas o casamento não deu certo. Depois de um tempo, colocou uma fotografia no Facebook e sua ex-namorada o provocou com um comentário. Depois disso, os dois se encontraram algumas vezes e começaram a namorar. No início, de acordo com João, era tudo tranquilo. Após um ano, a ex-namorada começou a apresentar comportamentos estranhos. “Ela sumia de vez quando, e eu comecei a ficar desconfiado. Procurei, até que encontrei. Estava me traindo com outro cara. Quando ela soube que eu havia descoberto, mudou totalmente. E se tornou uma mulher violenta. Ela surtava e me batia. Arranhava, mordia, dava soco, pontapé. Chegou até a quebrar o meu maxilar com um chute”, detalha.

 

Além da violência física, a namorada também abusava psicologicamente do companheiro. Aos amigos do casal, invertia os papéis e dizia que era vítima de agressões e traições de João. “Ela espalhava que era eu quem traía, agredia. Que mentia, roubava.”

 

Durante os cinco anos de relacionamento, João se separou e voltou três vezes. A primeira vez foi aos dois anos e meio de namoro, na época em que sofria as agressões. Ficou separado seis meses. Contrariando amigos e familiares, resolveu dar mais uma chance e voltar. “Ficamos juntos mais um ano, porém escondidos de todo mundo. No começo estava tudo bem. Ela me escutava”. Mas João descobriu que ela o estava traindo novamente. Pela segunda vez, João foi embora. Ficou separado mais um ano.

 

Depois desse tempo, a namorada se reaproximou e ficaram juntos novamente por mais 60 dias, até fevereiro de 2019. “Durante esses dois meses, eu vi que ela estava mentindo muito. Inventando histórias. Então, pensei: não dá mais pra mim. Chega.” E João se separou pela terceira e última vez. Os dois nunca mais tiveram contato.

 

A doutora em Psicologia Denise explica que, apesar de o relacionamento conjugal ser associado ao amor romântico, podem existir faces ocultas, mantidas em segredo pelo tabu em relação à violência. Segundo a doutora em Psicologia, muitos casais desde sempre conviveram com a existência de violência em seus relacionamentos. Denise destaca que, em termos de dados estatísticos, a agressão entre casais tem aumentado. Ela acredita que existem vários fatores que levam à ocorrência de violência em diferentes níveis, como experiências de hostilidade com as famílias de origem, características pessoais e fatores de relacionamento, como ciúme e ameaça de infidelidade.

 

Segundo dados do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMFDH), a Central de Atendimento à Mulher em Situação de Violência – Ligue 180 recebeu, nos primeiros dois meses do ano, 17.836 registros de denúncias, 36,85% número superior ao constatado em 2018.

 

O canal registra casos de cárcere privado, feminicídio, trabalho escravo, tráfico de mulheres e violências física, moral, obstétrica e sexual. Os Estados que registraram maior incidência de ocorrências foram Rio de Janeiro (3.543), São Paulo (3.263), Minas Gerais (2.122), Bahia (1.232) e Rio Grande do Sul (1.033).

 

No Brasil, não existem estatísticas oficiais de violência contra os homens,deficiência que relega o problema à invisibilidade. De acordo com Denise, o que existem são artigos científicos e revisão de literatura.

 

A advogada de Direito Criminal e Direito de Família Sara Caroline Leles Próton da Rocha realizou um estudo intitulado O constrangedor silêncio social e jurídico na violência contra os homens nas relações íntimas de afeto. A pesquisa foi publicada na revista eletrônica Âmbito Jurídico. Sara elaborou um questionário no Google Forms e disponibilizou-o em redes sociais (páginas e grupos do Facebook), para o público masculino responder. O questionário contou com a participação de 833 homens e foi realizado entre os dias 14 e 24 de abril de 2018.

 

Logo na primeira pergunta, a pesquisa revelou que os homens não sabiam identificar a violência afetiva. Na questão de abertura do levantamento, 63,6% (521) responderam que não sofriam a violência. Ao final, o número se elevou-para 75,3% (615). Isso porque, de acordo com o estudo, os homens naturalizam invasão de privacidade, posse, tapas, afastamento do contato com a família, amigos e lazer como “comportamento feminino”. Também foi identificado que a grande maioria dos homens sofre violência psicológica e verbal e não retribui as agressões.

 

Os casos de Maria e João mostram que a realidade da violência é um fenômeno complexo e está longe de ter uma solução. Cada um a seu modo, os dois sofreram por bastante tempo, porém puderam se recuperar e recomeçar. A marca deixada pela violência, porém, fica para a vida toda. É uma marca que dói.

 

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