“O que me deixava mais segura era estar em um lugar rodeado por fogo, facas e tesouras para me defender”

Como o assédio sexual tem tornado desafiador o dia a dia de mulheres e jovens estudantes dentro das cozinhas

  • Por: Rafaella Câmara e Daniela Chacón | Foto: Nicolas Chidem | 17/04/2018 | 0

“Ele era muito grudento, me deixava sufocada, me beijava o tempo inteiro no rosto, tinha uma necessidade grande de ficar tocando em mim”. O desabafo é de Luiza Giordani, 28 anos, estudante de gastronomia de uma universidade de Porto Alegre. Luiza conta que começou o estágio em um hotel disposta a aprender o máximo que pudesse. Sempre se colocava à disposição para trabalhar. Em geral, os estágios obrigatórios são feitos em locais conveniados – o que parece trazer algum tipo de segurança para os alunos.

Ao chegar lá, descobriu uma cozinha grande e complexa, repleta de homens. Um colega em especial, que trabalhava há mais ou menos um ano ali, no setor das carnes. Por tradição, a função dos cortes de carnes é feita por homens e considerada, hierarquicamente, uma posição importante. Luiza perguntou se poderia ajudar nos cortes. Foi aceita, surpreendentemente. O que aconteceu a seguir foi a construção de uma atmosfera de confiança e interesse sexual que só existia na cabeça do cozinheiro. Muitas vezes, ela precisou fazer comentários sobre o marido para reforçar o fato de que é casada e não tinha nenhum interesse. Não adiantou. Ele passou a fazer piadas mais invasivas, elogios à aparência de Luiza e convites para sair. A situação relatada por Luiza Giordani não é incomum dentro deste ambiente de trabalho.

Conforme o código penal brasileiro, artigo 216, assédio sexual no ambiente de trabalho “é o ato de constranger alguém com o intuito de obter vantagem ou favorecimento sexual, prevalecendo-se o agente da sua condição de superior hierárquico ou ascendência inerentes ao exercício de emprego, cargo ou função”. A atitude de Luiza diante da situação foi relatar os acontecimentos à supervisora de estágio. Ouviu a recomendação de que não fizesse nada. Caso ficasse muito desconfortável na presença do cozinheiro, que mudasse de turno. E foi o que Luiza fez. Mudou de turno para evitar ao máximo o contato com ele. “Esse tipo de coisa me fez pensar se eu realmente quero seguir trabalhando na cozinha. Se eu não vou acabar passando por isso em todos os lugares onde irei trabalhar”.

“Ele era muito grudento, me deixava sufocada, me beijava o tempo inteiro no rosto, tinha uma necessidade grande de ficar tocando em mim”

O clima de insegurança dentro das cozinhas faz com que mulheres repensem suas carreiras. A organização dentro de um espaço que contém geladeiras, fogões, facas e bancadas (e que nada se assemelha à casa das pessoas) parece fazer com que alguns se sintam mais importantes que outros. Com frequência, mulheres e jovens estudantes deparam com uma situação de violação do corpo e da sexualidade. Em caso de assédio sexual no trabalho, a advogada Luana Almeida indica que a vítima busque a Delegacia da Mulher. “Deve ser registrada uma ocorrência, uma vez que o assédio sexual é crime”, sugere. Além disso, se for um caso recorrente e possuir alguma dimensão coletiva, pode ser feito uma denúncia anônima no Ministério Público do Trabalho. Por fim, a vítima também pode entrar com uma ação trabalhista, com pedido de indenização por danos morais em razão do assédio sexual e dos prejuízos morais e mentais que possam ter sido causados.

A tecnóloga em gastronomia Luiza Beck, que também estagiou no mesmo hotel que Luiza Giordani, descreve o clima dentro da cozinha. “Eu, com apenas 18 anos, era a única mulher. Talvez eu e mais uma cozinheira. O clima era péssimo. Muito hostil. Todo tipo de piada e conversas inadequadas”. O relato revela a naturalidade de quem parece ser obrigada a conviver com o constrangimento diariamente. “Nada de muito sério aconteceu comigo, só aquele assédio usual de sempre”.

No primeiro ano de faculdade, Luísa Schetinger procurava um estágio extracurricular. Quando chegou a um outro hotel em Porto Alegre, conheceu um cozinheiro que se mostrou muito atencioso e disposto a ensiná-la. Para Luísa, só existia uma relação de trabalho. Para o cozinheiro, não. Com o passar do tempo, ele começou a elogiá-la. Dizia que o manuseio do forno poderia “machucar o rostinho”, entre outras abordagens que ela julgava inadequadas. Aos poucos, o assédio verbal deu lugar a beijos no rosto e abraços exagerados. Luísa nunca conseguia reagir. “Era assédio, não era? Na época, eu fiz essa pergunta a mim mesma. Mas o que fiz foi me afastar daquele lugar”. O cozinheiro jamais foi questionado pela supervisão do hotel.

Uma pesquisa realizada em 2015 pela ONG Énois Inteligência Jovem, em parceria com os Institutos Vladimir Herzog e Patrícia Galvão, 77% das mulheres dizem já ter sofrido algum tipo de assédio sexual. Nas cozinhas, essa situação também ocorre dentro dos mais renomados restaurantes das cidades. A tecnóloga em gastronomia Cláudia (o nome está preservado a pedido da fonte)  também diz ter tido uma relação conturbada com o chefe. Em um ambiente com oito homens, ela era a única mulher na cozinha. Um dia, o sous chef (subchefe) chegou alcoolizado ao restaurante. Ao final da noite, ele se aproximou de Cláudia pelas costas. Começou a alisá-la no ombro e perguntou se ela era solteira. “Desci correndo para o banheiro. Eu me senti muito violada. Depois subi e ele veio me abraçar de novo”, relata. A forma mais segura que encontrou para se proteger foi conversar com outros colegas. Pediu que não a deixassem só na cozinha.

Mas o problema não era apenas o sub-chefe. Havia também um outro colega. O clima de insegurança em relação a este funcionário era tão grande que ela já havia planejado o que faria caso fosse atacada numa tentativa de estupro. “Eu tinha muito medo do olhar dele. O que me deixava um pouco mais segura era estar em um ambiente rodeado por fogo, facas e tesouras para me defender”.

Os casos não ocorrem somente com estudantes. Em dezembro passado, uma semana antes do Natal, Laura (o nome está preservado a pedido da fonte) foi convidada para a confraternização de final de ano dos colegas de restaurante, após o expediente. Era noite de amigo secreto.

O clima era de descontração. Todos bebiam, riam e se divertiam. Laura acabou bebendo demais e, no final da noite, não estava em condições de ir embora sozinha. O chef, então, ofereceu carona para alguns colegas, já que ele não tinha bebido. Por um momento, Laura se sentiu mais segura. Durante o caminho, ela diz não se lembrar de muita coisa, só percebeu quando estava perto de casa. Foi quando o chef encostou o carro numa vaga. “Ele me beijou à força. Eu me debati e falei para ele parar. Ele ficou irritado e ligou o carro de novo”.

“um dos meus supervisores era um cozinheiro que aparentemente era super disponível pra ajudar, mas invadia meu espaço sem ser autorizado”

A partir daquela noite, em vez de se sentir vítima, passou a sentir culpa, como se ela fosse responsável pelo ocorrido. Confusão, tristeza e irritação foram palavras citadas por ela para descrever a sensação. “No dia seguinte, tive que ir trabalhar como se nada tivesse acontecido porque, com certeza, eu seria apontada como culpada pela situação”. Ela nunca comentou o caso com o dono do estabelecimento, nem com outros colegas.

As histórias de Luiza Giordani, Luiza Beck e Luísa Schetinger são relatos de assédio que ocorrem nas cozinhas, longe dos olhos da maioria. Os casos invisíveis quase sempre ficam guardados lá mesmo, entre fogões, panelas e prateleiras. Enquanto você termina de ler este texto, é possível que em alguma cozinha da cidade o assédio esteja constrangendo Márcias, Cláudias, Danielas, Anas, Sílvias, Marcelas, Sofias…

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