Caiu na rede é bolsa

Mulheres da colônia Z-3, em Pelotas, transformam tédio em brincos, chapéus, colares e bolsas a partir de redes de pesca de camarão e escamas de peixe reutilizados

  • Por: Amanda Zarth, Isabella Mércio e Júlia Krentkoski | Foto: Amanda Zarth e Isabella Mércio | 03/10/2017 | 0
Bolsa Lagoa dos Patos: o carro chefe das artesãs
Bolsa Lagoa dos Patos: o carro chefe das artesãs

Pescaria lembra peixe. Lembra pescadores, redes e varas de pescar. Faz lembrar barcos, anzóis, iscas, lagoas e rios. Mas quem diria que pescaria poderia lembrar brincos? Colares? Bolsas? Echarpes, chapéus, carteiras, almofadas…? Esses são os produtos feitos pelas redeiras, grupo de artesãs da Colônia Z-3 de Pelotas, com restos de materiais da pesca local.

Cada rede de pescar camarão é usada pelo pescador por mais ou menos cinco safras, período no qual ela fica na água e no sol por várias horas, sofrendo desgaste e danos. Quando chegam em um estado que não vale mais a pena serem consertadas, Jair Soares, 48 anos, e outros pescadores da região jogam as redes nos fundos da casa, na rua ou até mesmo na beira da praia. Assim, por muitos anos, ao passear pela Colônia, era possível encontrar elas enroscadas, lonas descartadas pelo caminho e couro e escamas dos peixes jogados no lixo. Mas o cenário mudou quando sua esposa, Karine Soares, 43 anos, junto com outras mulheres da Colônia resolveram recolher esses restos.

Início da produção de uma bolsa com rede de pesca
Início da produção de uma bolsa com rede de pesca

A partir da iniciativa delas, depois de coletadas e limpas, as redes se transformam em bolsas charmosas, carteiras e necessaires, tecidas no tear. O couro dos peixes da região, como corvina, tainha, cascuda e linguado, vira tecido para bolsas criativas, chaveiros e detalhes de outros acessórios e as escamas de peixe se tornam delicadas biojóias: Colares, pulseiras e brincos que misturam escamas e prata, aliando criatividade à elegância. A produção não é fácil. Para poderem utilizar o material, Karine e suas colegas primeiro precisam limpá-lo. “Às vezes leva mais de um mês pra deixar a rede limpa”, explicam.

As últimas safras de pesca de camarão foram ruins por causa da chuva, e o descarte de redes diminuiu. Assim, surgiu uma escassez de material que levou as redeiras a buscarem uma parceria com o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Elas pediram para utilizar em seu artesanato as redes que foram apreendidas e iriam ser queimadas. Além das artesãs receberem material para produção de seus acessórios, esse acordo foi uma oportunidade do instituto reutilizar as redes recolhidas pelo país em uma ação que ajuda o meio ambiente.

Redes de pesca utilizadas na confecção de artesanatos
Redes de pesca utilizadas na confecção de artesanatos

O apoio do Ibama foi imediato, tanto que já doaram para as artesãs várias peças que não seriam mais usadas. Em 2015, foram mais de oito quilômetros de redes reaproveitadas. Hoje, o Ibama é o principal fornecedor dos materiais que as redeiras usam em seus produtos. Após acordo de que elas não iriam deixar esses materiais velhos voltarem a ser utilizados para pesca, ganharam apoio e incentivo para irem mais longe. A demanda pelos produtos aumentou, assim como o trabalho das nove mulheres da comunidade.

Entretanto, o primeiro ano sem a safra de camarão chegou. Em seguida, o segundo. O terceiro. O trabalho delas começou a ser o responsável por pagar as contas, e esse é o cenário em 2016. O que começou como um hobby se transformou em um grande negócio. O que era resto e material poluente hoje significa renda e trabalho. O que era lixo se transformou em moda sustentável. O que era passatempo se tornou a principal renda de nove famílias da Z-3. Vizinhas, amigas e primas se tornaram as redeiras de Pelotas.

 

Elas mudaram a fonte de renda

Em meio às vielas da Colônia Z-3, está uma casa amarela onde vive Mariângela Motta Lima, mais conhecida como Zuca (58), que cede o espaço para o encontro com as outras oito redeiras. A unha da mão laranja denuncia o uso de produto para inflamação, certamente aplicado para curar algum acidente de trabalho. As demais unhas, do pé e da mão, são pintadas e bem cuidadas. Assim se comporta a maioria das artesãs do grupo. Mulheres de pescadores que dependiam da safra de camarão e da pesca para sobreviver. Ajudavam os maridos no que podiam, mas acabavam sentindo falta de uma atividade.

Zuca coordena os encontros e a produção do grupo
Zuca coordena os encontros e a produção do grupo

Após notar esse comportamento, a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Rio Grande do Sul (Emater-RS) iniciou uma oficina de artesanato na colônia. A oficina mudou a vida daquelas mulheres. Quem não sabia como segurar uma agulha, acabou costurando. Quem já tinha alguma afinidade, apaixonou-se. Assim se deu o início da associação Pescando Arte que mais tarde se transformou no que são hoje as redeiras. O grupo iniciou o trabalho utilizando escamas e couro de peixe, mas logo começaram a criar os produtos com o material que as deixariam conhecidas pelo Brasil inteiro, a rede de pesca.

“A gente já passou por tanta coisa na vida. Achamos que ia ser mais uma canoa furada”, desabafa Zuca. No início do projeto poucos acreditavam que poderia dar certo. Nem os moradores da Colônia, nem a família das artesãs e, principalmente, elas mesmas. Começaram vendendo em feiras de artesanato em 2010 e tinham vergonha de dizer o preço dos produtos, pois achavam muito caro.

Hoje, o trabalho das redeiras se tornou essencial para a renda familiar, ganhando muitas vezes mais do que os maridos arrecadam com a pesca. A atividade deles depende de ciclos, diferentemente das artesãs, que, apesar de dependerem dos subprodutos, recolhem o material e armazenam em estoque para manter constante a produção. “Agora é comum, mas antes era bem difícil ouvir os elogios. A gente não acreditava, ficava sem jeito. Quando perguntamos sobre como as pessoas viam as redeiras antes? Não viam. Ninguém acreditava”, conta Karine Santos, a porta voz do grupo.

Além das redes de pesca de camarão, as redeiras utilizam escamas de peixe como obra prima para fazer brincos, colares e pulseiras para venda
Além das redes de pesca de camarão, as redeiras utilizam escamas de peixe como obra prima para fazer brincos, colares e pulseiras para venda

Mas Zuca e Karine não estavam sozinhas. Diva Francisca da Rosa (60), Vilma Palins de Souza (75), Adriana Xavier Sabino (42), Eliani Ayres Ferreira (59), Viviane Ramos (40), Flávia Silveira Pinto (42) e Ana Elizabeth Pedrozo Portela (64) contaram com a ajuda de Rosani Schiller, Nica. A consultora do Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) foi a grande incentivadora do trabalho e, mesmo após o rompimento do contrato da empresa com o grupo, seguiu auxiliando voluntariamente.

Diva é a dona da agulha. Dali, as redes, após passarem pelo processo e finalmente estarem prontas para serem trabalhadas, se transformam em echarpes. Flávia e Karine são as principais responsáveis pelo tear. Todas acabam fazendo um pouco de tudo, mas há aquela clássica preferência. Karine, por exemplo, não gosta de costurar. Zuca fica com as escamas. Cada artesã parece criar uma relação íntima e única com o seu produto de trabalho. É sensível o toque, a maneira como falam e manuseiam. Muito porque participam de todo o processo. As famílias ajudam. Tias, primas, sobrinhas e, inclusive, os maridos.

Margem da Lagoa dos Patos é local de acúmulo de lixo e redes de pesca
Margem da Lagoa dos Patos é local de acúmulo de lixo e redes de pesca

Como fazem acontecer

Após as oficinas oferecidas pela Emater, em 2008, Karine Faccin, consultora de design e artesanato brasileiro pelo Sebrae, chegou à Z-3. Depois de passar um dia na região em busca de matérias-primas e em contato com as técnicas do grupo, percebeu que havia uma “montanha de redes” ao lado das casas dos pescadores e perguntou: “O que se faz com isso?”. A partir daí, o material que não era muito utilizado pelas artesãs, virou o maior diferencial das redeiras.

Hoje, quem pensa os produtos são elas próprias. As mesmas que antes pouco acreditavam no potencial de seu trabalho. Agora criam, arriscam e erram até acertar. Idealizam cada peça baseando-se em seus gostos. Por saberem que nem tudo o que consideram bonito agrada ao público, fazem da loja Artesanato da Costa Doce, no Mercado Central de Pelotas, um “termômetro”. Se o produto vende, elas seguem produzindo. “Mas, se não vende, partimos para outra”, revelam.

Com tanto esforço, as vendas já cruzam fronteiras e estão em lojas de São Paulo, Pará, do Nordeste, entre outros Estados. Em 2017, a produção aumentou tanto que as redeiras precisaram terceirizar o trabalho de lavagem e recorte das redes. A clientela mais fiel são os lojistas que acreditam no trabalho e levam os produtos para várias cidades do país. O reconhecimento também é internacional, por dois anos, as redeiras mandaram produtos para a França. “Foram mais ou menos 11 remessas, com 200 produtos em cada”, contam orgulhosas.

Em um ambiente cheio de tagarelices, o silêncio surge quando questionadas sobre a moda no seu trabalho. “Moda é estilo”, responde Karine. E Zuca continua: “é um jeito de ser, cada um tem o seu”. Para Karine Faccin, as redeiras fazem moda contemporânea. “Algumas peças têm seis anos, mas continuam atuais”, afirma.

Tendência ou não, cada acessório é único e costuma maravilhar todos aqueles que conhecem a marca. Zuca, remexendo as escamas nas mãos, se diverte contando que, quando elas dizem do que o produto é feito, “a primeira coisa que a cliente faz é cheirar”. Depois disso, vem a percepção da qualidade e da dedicação depositada em cada acessório. Todo esse processo de conquista da forma àquilo que mais orgulha cada uma das nove artesãs, a identidade das redeiras.

Onde comprar

Espaço Sebrae

Mercado Público – QD1 Lojas 2, 4 e 144

Centro Histórico

Porto Alegre, RS

Telefone: 051 3286-1623

Horário de funcionamento: Segunda a sábado, das 10h às 19h

Domingos das 14h às 19h

 

Histórias na Garagem

Rua Félix da Cunha, 1.167

Moinhos de Vento

Porto Alegre, RS

Telefone: 051 3237-2353

Horário de funcionamento: Segunda a sexta, das 7h30 às 19h30

Sábados das 7h30 às 18h30

 

Artesanato da Costa Doce

Mercado Central

Praça Coronel Pedro Osório – Banca 43

Centro

Pelotas, RS

Telefone: 053 8121-5596

Horário de funcionamento: Segunda a sábado, das 9h às 19h

Não abre aos domingos

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