Casas de apoio acolhem acompanhantes de pessoas em tratamento hospitalar

Residências são uma solução solidária para quem vem do interior acompanhar parentes em tratamento pelo SUS em Porto Alegre

  • Por: Larissa Schwade e Guilherme Lima | Foto: Ana Carolina Lisboa e Larissa Schwade | 21/09/2016 | 0
Fachada da casa de apoio Apascentar, localizada no bairro Passo D'Areia, em Porto Alegre. Foto: Larissa Schwade
Fachada da casa de apoio Apascentar, localizada no bairro Passo D’Areia, em Porto Alegre. Foto: Larissa Schwade

Porto Alegre é destino para muitas pessoas que precisam realizar exames de saúde e tratar doenças. Vans de diversas cidades do Estado levam diariamente pacientes para a realização de atendimentos pelo SUS na capital.

Um levantamento de 2015, feito pela Secretaria Municipal de Saúde de Porto Alegre, mostrou que, em algumas especialidades – como cardiologia e oncologia -, 61% dos pacientes atendidos vêm do Interior. Na neurologia são 56%.

Na maioria dos casos, estes pacientes vêm acompanhados de seus familiares. Porém, quando há necessidade de internação, os acompanhantes não conseguem retornar para casa e, por conta disso, dormem no próprio hospital, em cadeiras e bancos ou camas improvisadas pelos corredores. Algumas destas pessoas chegam ao hospital com nada além da roupa do corpo e pequena quantia de dinheiro que, por não ser suficiente para pagar hospedagem e alimentação, fazem do hospital sua moradia.

Para driblar essa situação, hospitais contam com assistentes sociais, profissionais que irão considerar o aspecto emocional e social do paciente e de seu familiar como fatores determinantes no tratamento. Os assistentes sociais irão mediar solicitações decorridas da hospitalização. Pensando nisso, casas de apoio em Porto Alegre estão de portas abertas para familiares de enfermos.

Desde que abriu, há três anos a Apascentar já acolheu mais de duas mil pessoas
Desde que abriu, há três anos a Apascentar já acolheu mais de duas mil pessoas. Foto: Ana Carolina Lisboa

Um sonho acolhedor
“A casa começou como um sonho nos corações de duas pessoas, distantes uma da outra”. É desta forma que Sueli Amaral, atual coordenadora da Casa de Acolhimento Apascentar, resume o trabalho da residência que funciona há três anos e já acolheu mais de duas mil pessoas. A relação de Sueli com o voluntariado é antiga. Durante muitos anos, atuou como capelã infantil no Hospital Conceição, pertencente ao Grupo Hospitalar Conceição, em Porto Alegre.

A vivência dentro do hospital contribuiu com a identificação de uma outra oportunidade de ação social. Sueli percebeu um número significativo de mães oriundas do interior do Estado que vinham à capital em busca de tratamento médico para os filhos. Notou também que nos casos de tratamentos mais complexos, que exigiam internação do paciente, estas mães (em situação de vulnerabilidade social) não tinham recursos para hospedagem durante o tratamento das crianças e, por conta disso, passavam dias, semanas ou até meses dormindo nas cadeiras e nos bancos espalhados pelos corredores do hospital. “Elas não tinham onde dormir e nem o que comer direito”, relembra.

E foi ao deparar com esta nova realidade que nasceu a vontade de fazer um trabalho dedicado para acolher estas mães. “O desejo era ajudar as mães”, afirma Sueli. Anos mais tarde, depois de muitos contatos, conversas e divulgação de sua ideia, a então voluntária conheceu o pastor da Igreja Batista Brasileira Brasa Zona Norte, Ricardo Glavam, que, através do Projeto Amor, desenvolvia trabalho voluntário em hospitais. Em 2014, Sueli e Glavam inauguraram a Casa de Acolhimento Apascentar. Hoje, Sueli é coordenadora da casa, e Ricardo, o presidente.

O imóvel, na Rua Antônio Joaquim Mesquita, bairro Passo D’Areia, Zona Norte de Porto Alegre, serve exclusivamente como estadia transitória para pessoas em situação de vulnerabilidade social. O foco inicial do projeto era atender somente mães. Mas perceberam a necessidade de ampliar o atendimento e acolher também outras mulheres e homens.

A casa funcionou até março de 2016 somente à base de doações. Foto: Ana Carolina Lisboa
A casa funcionou até março de 2016 somente à base de doações. Foto: Ana Carolina Lisboa

A casa tem capacidade para 20 pernoites, divididos entre as alas feminina e masculina, e exige o cumprimento de alguns requisitos para receber os acolhidos. Primeiro, ocorre a triagem realizada pela assistente social diretamente no hospital. Para garantir acesso à casa, é preciso estar em situação de vulnerabilidade social, ou seja, não ter condições de pagar por hospedagem e alimentação com recursos próprios; o local de domicílio ser no mínimo de 50 quilômetros de distância de Porto Alegre; e a condição de não estar realizando tratamento médico no momento.

Fundada em abril de 2014, a casa funcionou até março de 2016 somente à base de doações e atividades voluntárias não remuneradas de seus colaboradores. Em março de 2016, após a promulgação do Projeto RS Acolhedor, o local passou a receber auxílio financeiro do governo do Estado para pagar as despesas com a folha de pagamento da equipe técnica, que agora conta com psicólogas, assistente social, auxiliares administrativas, cozinheiras e pessoas responsáveis pelos serviços gerais da casa.

“A gente vive a realidade com eles, fazemos as refeições juntos, sentimos tudo de perto. Somos o apoio, queremos ajudá-los”, relata a assistente social Adriana Schoenardie. Na Apascentar, além da cama, o acolhido também recebe, gratuitamente, quatro refeições diárias.

Para Sueli, a ideia é que a casa seja um ambiente familiar, não um lugar frio. Um espaço com interação. Nas refeições, todos sentam juntos à mesa, com a mesma comida. “Tentamos fazer com que o ambiente amenize a dor”, enfatiza a coordenadora. “A acolhida foi muito boa. A casa é aconchegante. Eu não consigo imaginar ficar em outro lugar quando venho para cá”, afirma Patrícia de Almeida, acolhida em agosto deste ano na Apascentar.

Lar Luterano
O mesmo sentimento de solidariedade motivou Elbert Jagnow, assistente espiritual hospitalar e pastor da Igreja Evangélica Luterana, que neste ano conseguiu abrir a Casa de Passagem, que é um apartamento alugado, onde pagam também condomínio, contam com uma equipe de coordenação, dois pastores envolvidos diretamente com os familiares e uma coordenadora geral. A casa pede um valor simbólico de R$ 15 por dia para ajudar nas despesas.

O apartamento é localizado na Rua Francisco, Zona Norte da capital, e conta com 10 camas disponíveis. “Vi a necessidade de acolher os familiares de pessoas que vêm de fora”, revela Elbert. Assim, o lar virou realidade por doações e é mantido por doações.

Casa de Apoio Madre Ana
No dia 10 de maio de 2016, foi inaugurada a Casa de Apoio Madre Ana sob coordenação do Complexo Hospitalar Santa Casa, um prédio de quatro andares que fica na esquina das ruas Vigário José Inácio e Jerônimo Coelho. O imóvel tem 60 quartos, metade já está pronto para receber os hóspedes. Para ser acolhido, serão analisados critérios que priorizam o atendimento às famílias mais necessitadas, definidos pelo Serviço Social da Santa Casa, responsável pela gestão administrativa e operacional da Casa de Apoio Madre Ana.

Uma casa de acolhimento é muito mais do que uma cama e uma refeição. Este ambiente se torna um lar para aqueles que enfrentam situações delicadas e precisam de amparo. “Eles cuidam dos familiares no hospital, e nós cuidamos deles aqui. É cuidando de quem cuida”, diz Sueli.

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