Crise econômica impacta nas doações à AACD

Sus paga apenas um terço do custo do atendimento a pacientes

  • Por: Marcelo Garcia | Foto: Marcelo Garcia | 27/05/2016 | 0
Dr. Valéria auxilia Lucas na AACD Porto Alegre
Dr. Valéria auxilia Lucas na recuperação do reequilíbrio para caminhar

Pela falta de centros credenciados que oferecessem um trabalho multidisciplinar, o Sistema Único de Saúde procurou a AACD (Associação de Assistência à Criança com Deficiência) para a realização de um convênio. Desde 2006, uma parte do valor dos atendimentos feitos pela rede pública é revertido à instituição. “Mas há uma tabela defasada, desde que a gente tem esse convênio a gente recebe a mesma coisa, são R$ 21,69 por atendimento, tanto médico quanto terapêutico. E o nosso custo por atendimento é de R$ 65, pois tem o trabalho de toda uma equipe de profissionais qualificados por trás”, explica Gacrielle Balsan, supervisora administrativa da unidade de Porto Alegre. Por mais que se tenha um convênio com a rede pública, a AACD sempre vai precisar da ajuda de parceiros para manter a gratuidade dos seus atendimentos aos pacientes, sua principal filosofia. E esse é o maior desafio para quem trabalha nos bastidores da instituição.

O Estado, como figura responsável na gestão de uma sociedade, tem por obrigação oferecer condições e acesso à saúde para os seus cidadãos. No Brasil, a saúde privada é cara e a pública, deficitária. É diante desse cenário que surgem as associações filantrópicas, que carregam consigo a filosofia de ajudar quem precisa sem ter fins lucrativos e, na maioria das vezes, gratuitamente.

Fundada em 1950 na cidade de São Paulo, pelo médico ortopedista Renato da Costa Bonfim, a AACD tem por objetivo o tratamento e a reabilitação de crianças, adolescentes e adultos portadores de deficiência física. Em 2000, com recursos adquiridos pelo Teleton, da edição do ano anterior, foi criada a unidade de Porto Alegre, a segunda a ser construída em um total de treze espalhadas pelo país.

Teleton é uma marca internacional criada pelo comediante Jerry Lewis que, ao tratar seu filho deficiente físico, sensibilizou-se com o fato de que nem todo mundo tinha condições financeiras para bancar um tratamento. No Brasil, a primeira edição ocorreu em 1998 no SBT, um pedido de Hebe Camargo à Silvio Santos, sendo assim considera a madrinha do evento. A AACD é a única instituição brasileira licenciada a arrecadar fundos pelo programa Teleton. Até hoje, anualmente, o SBT dedica, de maneira gratuita, um dia inteiro de sua programação ao evento.

Já são 16 anos em que a unidade de Porto Alegre acolhe pacientes de todos os cantos do Estado. Em seu início, eram atendias somente crianças e o sustento vinha das doações do Teleton, empresas privadas e pessoas físicas. Para Gracielle, todos os anos é uma luta manter as contas em dia. “Mas esse ano em especial, devido à crise econômica do país, está muito mais difícil”, afirma. É uma reação em cadeia. A doação por parte das empresas é deduzida do valor do imposto de renda. Com a crise, há baixo faturamento dessas empresas, logo, diminui o valor de arrecadação da AACD. E esse cenário atinge também as doações de pessoas físicas. “Tem muita gente perdendo o emprego, ou que precisa reajustar o orçamento familiar. As compras no supermercado estão mais caras, então as pessoas param de doar aqueles R$ 10 mensais para nós”.

Com a crise econômica afetando as contas e também por uma forte demanda que não podia ser atendida devido ao foco da AACD, que foi sempre voltado aos pacientes de baixa renda e conveniados do SUS, abriu-se um novo meio de arrecadação, conforme exalta Gracielle. “Desde o final do ano passado a gente também vem oferecendo nossa estrutura e nosso expertise para as pessoas que têm poder aquisitivo. Nós abrimos a opção para pessoas particulares”. O atendimento é o mesmo. O médico avalia as necessidades do paciente e indica o melhor tratamento. Por não ter fins lucrativos, o valor dos atendimentos é somente para manter as operações. O que se gasta, é o que se cobra: R$ 65 para qualquer terapia.

Ambas as alternativas, tanto SUS quanto particular, não atendem a todas as necessidades financeiras da AACD. Por isso, há uma variedade de opções para a captação de recursos. Como toda instituição filantrópica, a AACD também sobrevive de doações. Além dos valores espontâneos que qualquer pessoa pode doar diretamente para a conta da instituição, há também a possibilidade de se tornar um mantenedor. “O mantenedor é aquela pessoa que a gente pode contar todo mês. A gente manda um boleto que ele seleciona o valor que desejar, e a gente pede o mínimo de dez reais. É uma quantia importante que a gente valoriza todo mês pra ajudar a manter a instituição”, afirma Gracielle. Em uma parceria nacional com o Hipercard, por exemplo, o contribuinte pode optar por doar R$ 2, R$ 5 ou R$ 10 da sua fatura do mês. O dinheiro também é repassado pelo Teleton.

A fisioterapia aquática é uma das opções que a AACD Porto Alegre dispõe aos seus pacientes
A fisioterapia aquática é uma das opções que a AACD dispõe aos seus pacientes

As dificuldades que todas as sedes têm de se manterem ativas refletem na impossibilidade que o Teleton tem de construir novas unidades pelo país. Gracielle afirma que no planejamento estratégico a AACD já deveria estar sustentável, coisa que ainda não é possível no momento. “Quase R$ 2 milhões ainda vem do Teleton para manter somente Porto Alegre. Então o programa existe basicamente para suprir as unidades que não se sustentam sozinhas”, completa.

No repasse anual das doações recebidas pelo Teleton, não há uma divisão de importância ou tamanho entre as unidades. Cada uma tem o seu orçamento, e como não é possível suprir os déficits sozinhas, elas recebem conforme suas necessidades. “Muitas vezes as pessoas dizem que a AACD ganhou R$ 30 milhões em doação, então é rica. Somos treze unidades no Brasil. Divide esse valor pelas treze. Não dá quase nada para nenhuma unidade”, explica Gracielle.

Também há unidades há pouco tempo criadas e que ainda não possuem uma boa relação com o poder público e empresas privadas, então precisam, para a sua operação, quase que 100% dos recursos providos por São Paulo, onde fica a sede principal. “Nós precisamos de quase dois milhões (ao ano), Recife também”, continua.

Manter-se significa não apenas continuar com a gratuidade, mas também suprir a demanda de setecentos pacientes atendidos, capacidade atual da unidade. A falta de recursos é o principal impedimento para que esse número se torne maior. Financeiramente não é possível contratar mais profissionais, muito menos sobrecarregar os que já trabalham na AACD diariamente. Ao todo, são 115 funcionários e 108 voluntários. Por isso há uma grande fila de espera. Devido a políticas institucionais, o número de pacientes que aguardam tratamento não é divulgado. “Não há uma previsão para os pacientes terem alta. Cada um tem um plano de terapia a ser seguido e o tempo que ele fica, e isso depende muito da reação dele. Tem pacientes que ficam cinco, seis anos, outros que ficam um ano. Então a gente não trabalha por mês e não tem como afirmar com precisão o tempo de espera para quem está na fila”, afirma Gacrielle.

O bom relacionamento com a mídia ajuda a driblar a falta de recursos para investir em propagandas institucionais. Para a AACD, o desafio é conseguir, gratuitamente, uma agência para gravar, outra para criar e uma produtora para realizar o projeto. Para Gacrielle, isso ajuda muito, pois não faz parte do orçamento anual da instituição o pagamento de peças publicitárias. “Tudo é na base da doação. Nós conseguimos outdoors, backbus, tudo isso são empresas que são sensíveis com a nossa causa, conhecem o nosso trabalho e nos doam aquele espaço que eles não conseguem comercializar, ou nos apoiam mesmo e oferecem o espaço”.

O mesmo ocorre com as emissoras. Atualmente, a AACD está trabalhando na divulgação de sua oficina ortopédica. A campanha é vinculada, de maneira gratuita, pela Bandeirantes e RBS. O intuito é fazer com que as pessoas conheçam mais a AACD, a oficina ortopédica e principalmente que o público do sistema particular consuma os produtos. “Hoje uma prótese de alta performance que uma pessoa compra no shopping, ela também pode comprar aqui com a gente. Mesmo que a gente repasse o custo a esse consumidor, vai ser muito mais barato do que em locais convencionais, e as pessoas não sabem disso”, explica Gracielle.

Qualquer pessoa pode adquirir os equipamentos fabricados pela AACD, não é necessário ser um paciente ou estar na fila de espera. Basta marcar uma consulta particular com o fisiatra responsável para a análise do melhor produto, e em seguida o projeto segue para a oficina ortopédica. Dentre uma variedade de equipamentos, são produzidas órteses, próteses, coletes, adaptações para cadeiras, sapatos ortopédicos, palmilhas, conjuntos de peças específicas, entre outros. A prescrição médica e o rigor com a qualidade são seguidos à risca.

Além de doações, a instituição também está sempre aberta a quem deseja se tornar um voluntário. Conforme afirma Gracielle, “os 108 voluntários são peças-chave, pois sem eles seria preciso a contratação de mais profissionais, e não temos como fazer isso”. A ajuda ocorre em todas as áreas, mas sem lidar diretamente com o paciente, pois não há a capacitação necessária para isso. Muitos dos voluntários também auxiliam na oficina ortopédica.

A oficina ortopédica também oferece órteses sob encomenda para quem não é paciente da AACD
A oficina ortopédica também oferece órteses sob encomenda para quem não é paciente da AACD

Gracielle destaca o aprendizado diário que é trabalhar na AACD. “Além de a gente se sentir muito bem em poder ajudar, ela é uma escola de vida. Hoje, por exemplo, com a mudança de temperatura a gente está reclamando do frio. E aí a gente vê nossos pacientes com frio, chuva, pegando ônibus, fazendo o que for para conseguir, dia após dia, vir fazer o mínimo de movimento para daqui há um ano conseguir utilizar uma cadeira de rodas, ou uma muleta”. Esse é o caso de Lucas Vresniski Lima, de 12 anos.

Segundo nascimento

Aconteceu no dia 17 de janeiro de 2015, ao dar entrada no Hospital Santa Casa. “O Lucas, do nada, teve uma encefalite. Ele perdeu todos os movimentos do corpo”, conta Marinês Vresniski, mãe do menino. No dia seguinte, Lucas já estava em coma. “Era como se de um dia para o outro estivessem sugando a vida dele. Daí perguntei aos médicos se tinha como ele piorar, e os médicos disseram que sim, tinha como ele piorar. Meu filho podia vir a óbito”, completa. Nenhum médico soube explicar de onde surgiu a infecção.

Após quase um mês em coma, Lucas despertou na noite de 2 de fevereiro. Para a mãe, foi o segundo nascimento do filho. “O doutor me perguntou como eu estava, eu disse que era o primeiro dia da nossa melhora”. Após a realização de exames, foi constatado que o cérebro de Lucas não havia sido afetado. No começo, ao despertar, sua comunicação era somente com os olhos. “Quando ele acordou ele tinha muita pergunta, né, chorava bastante. Pedimos calma a ele, quando tirássemos a sonda ele poderia falar”, explica Marinês. Em um primeiro prognóstico, os médicos afirmaram que a fala poderia ficar comprometida, coisa que não aconteceu.

Os movimentos foram sendo recuperados dia após dia, rapidamente. “Me disseram que essa doença leva, pra ver os resultados, dois anos. Não é o caso do Lucas”, afirma a mãe. Para casos como encefalite não há medicação, apenas trabalhos baseados na fisioterapia. O tratamento começou já no hospital, quatro vezes ao dia. “Se ele fazia dez sessões, ele queria vinte”, diz Marinês, orgulhosa do empenho do filho. Com a melhora gradativa, ao ter alta do hospital, as fisioterapias foram feitas por conta própria no pátio do condomínio e dentro de casa. Lucas chegou à AACD ainda dependente de cadeira de rodas para se locomover. Sua recuperação era somente do corpo para cima, faltavam as pernas.

Mãe e filho pegam um ônibus para se locomoverem entre a Lomba do Pinheiro e a AACD, na rua Prof. Cristiano Fischer. Faça chuva ou faça sol, os exercícios são seguidos à risca, tamanho é a importância para o desenvolvimento do paciente. Com o apoio da fisioterapia, feita três vezes por semana, a recuperação foi rápida. “Disseram pra nós que esse tipo de doença tu recupera um pouquinho todo dia, mas é tão invisível que tu não vai sentir. Com o passar de dois anos tu vai começar a ver. Não é o caso dele, a gente via no dia a dia”, afirma Marinês. O tempo está diretamente ligado à dedicação de Lucas em melhorar. A vontade de voltar a correr e jogar bola é maior do que qualquer obstáculo. Da saída do hospital até hoje, por somente um dia o menino chorou. Em todos os outros o que se via era alegria e a confiança de que a melhora estava logo adiante. Seu espírito é tão forte e positivo que a mãe brinca que antes da infecção era preciso encontrar um botão para desligar um pouco o filho.

Lucas teve o apoio incondicional dos quatro irmãos mais velhos. Foi por isso que, com o início da melhora, o menino demonstrou toda a sua perseverança: estipulou como meta passar de ano no colégio e livrar-se da cadeira de rodas. Conquistou ambos os desafios com sucesso. O trabalho desenvolvido pela AACD não pertence somente ao paciente com deficiência, conforme explica Gracielle. “Não adianta apenas trabalhar o motor deles (pacientes) quando o psicológico da mãe não está legal”. Para ela, a parte do aconselhamento e a troca de experiências são muito importantes para que a família esteja consciente e esperançosa no trabalho.

Hoje, Lucas usa muletas apenas como um auxílio. Seus passos ainda não são perfeitos, mas a evolução é inegável. Sua fisioterapeuta, Valéria Rampelotto, exalta o trabalho feito pelo paciente. “Foi bem rápido, o Lucas chegou de cadeira, não tinha nem equilíbrio para ficar em pé. Mas ele é super esforçado, e isso conta bastante. Foi uma evolução dentro do esperado, mas temos muito o que conquistar ainda”, reforça.

Ao longo dos seus 16 anos de atividade, a unidade de Porto Alegre da AACD já tratou de mais de oito mil pacientes com variadas patologias e necessidades. Devido ao nome da instituição levar os dizeres “criança e adolescente”, é importante ressaltar que as portas estão abertas para todas as faixas etárias. Além disso, a AACD também ajuda na recuperação de acidentados ou em casos como o de Lucas, onde uma vida saudável é interrompida e faz-se necessário o tratamento fisioterápico.

É para seguir prestando esse serviço solidário para famílias de baixa renda que a AACD precisa de apoio e doação. Jerry Lewis realmente estava certo: nem todo mundo pode pagar por um tratamento médico especializado para o cuidado e recuperação de um parente com deficiência. Pelo menos a AACD de Porto Alegre, ao que tudo indica, pode ganhar um reforço importante no futuro. “A fisioterapia foi muito importante pra nós, mas mais pra ele, porque ele já decidiu o que ele quer ser. Fisioterapeuta”, finaliza Marinês.

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