Declaração Universal completa 70 anos

Perto de completar sete décadas desde a sua criação, Jair Krischke estabelece um panorama atual da Declaração Universal dos Direitos Humanos

  • Por: Leonardo Radaelli | Foto: Giulia Cassol | 14/11/2017 | 0
Jair Krischke, presidente do MJDH, fala sobre as questões de Direitos Humanos no Brasil
Jair Krischke, presidente do MJDH, fala sobre as questões de Direitos Humanos no Brasil

Em outubro de 2017, Paul McCartney veio ao Brasil para uma série de shows. Em meio ao repertório de sucesso, referindo-se a um momento ideológico instável do país, o ex-beatle citou que escreveu a canção Blackbird, sucesso da banda de Liverpool, inspirado na busca por direitos iguais em uma sociedade. Dedicou a música para quem continua nesta luta. A obra, composta em 1968, coloca em questão um fator corriqueiro do mundo moderno em meio a tanta disputa ideológica: os direitos humanos.

Lançada em um período pós-guerra, no dia 10 de dezembro de 1948, a Declaração Universal dos Direitos Humanos foi elaborada pela Organização das Nações Unidas (ONU) para tentar unificar um mundo dividido, tendo em vista humanizar uma sociedade destruída pelo pós-guerra. Dividida em 30 artigos, tem como intuito criar um cenário condicional de livre-arbítrio para os cidadãos.

Em dezembro de 2018 a Declaração irá completar 70 anos, mas a busca por um ambiente igualitário está constantemente em discussão. Pessoas questionam as teses relacionadas aos Direitos Humanos. Entre essas, políticos, jornalistas e pensadores. Para Jair Krischke, o país está regredindo. “Está havendo um retrocesso naquilo que em dezembro de 1948 na Assembléia da ONU foi aprovado. Vivemos no mundo um retrocesso. No Brasil, duplo ou triplo retrocesso. É incrível”. Krischke é presidente e fundador do Movimento de Justiça e Direitos Humanos (MJDH). No tema, ele é um dos maiores especialistas do país.

Dedicou a vida por um mundo mais igualitário e social. Em 2011, com a alcunha de “O homem que salvou duas mil vidas” – por dar respaldo e proteção aos foragidos dos regimes militares da América do Sul – foi contemplado com Comenda de Direitos Humanos Dom Hélder Câmara, no Senado. Para ele, alguns períodos da história brasileira foram determinantes para a caracterização do assunto. “No Brasil, a questão dos Direitos Humanos em um grande período ficou veiculado à ditadura, combate à ditadura e às violências produzidas pela ditadura. Só nisso fiz muitos inimigos poderosos. Alguns têm influência pesadíssima nos meios de comunicação, os tais formadores de opinião, que relegam os direitos humanos para a quinta categoria”, critica.

Conforme o presidente do MJDH, a rotina da sociedade está ligada às questões humanas. “Os direitos humanos nos acompanham 24 horas por dia, até quando estamos dormindo. Todo ser humano tem direito ao descanso reparador, que é quando eu estou dormindo, me reabastecendo para a próxima jornada. Então, até quando a gente dorme, nossos direitos são passíveis de violação”. De acordo com suas concepções, o conhecimento pleno da Declaração desenvolveria uma intelectualidade comunitária, ajudando a desmistificar o tema, contribuindo para atingir um debate socialmente construtivo. “O grave problema é: para ter vigência plena, os Direitos Humanos têm que ser conhecidos. A pessoa tem que conhecer. Além de conhecer, tem que aceitar. Os Direitos Humanos só se realizam no coletivo, só se dá em sociedade”.

Krischke enxerga que o cenário não é propício para quem mais precisa da Declaração elaborada pela ONU. “A declaração é redigida numa linguagem sofisticada, bonita, e muito difícil das pessoas mais humildes entenderem. É uma linguagem difícil para os que geralmente têm seus direitos violados. E esse não conseguem entender bem o que está escrito ali. É preciso que todos entendam, conheçam. Os direitos precisam ser aceitos por todos porque é regra de convívio social”.

Krischke acredita que algumas convicções humanistas são centro da crítica atual pelo momento de insegurança que o Brasil vive. Em um ambiente vulnerável, as pessoas não querem estar na mira do perigo e, com esse receio, desenvolvem um pensamento frágil de proteção de que “quem me ameaça que morra”, trazendo alguns discursos de ódio como “bandido bom é bandido morto”. Krischke reprova. “Em um país que tem uma distribuição de renda que é uma vergonha internacional e que tem uma enorme população indigente, os pobres, que são muito mais honestos que a classe poderosa, é vista como inimiga. Aí, claro, nós temos que entrar em campo para dizer: Não”, afirma, referindo-se à violência policial contra pobres e negros, especialmente. “A polícia não pode mais matar o número de pessoas que mata hoje. É a polícia que mais mata no mundo. E, majoritariamente, mata jovens negros. O que ta acontecendo com esse país? Está mal. Assim, temos que denunciar. Denunciamos. Por isso, muitas vezes os Direitos Humanos são apresentados como inimigo da sociedade, o que é absolutamente um equivoco”, relata.

Olhando para a sociedade brasileira moderna, Jair Krischke analisa que os valores sociais têm sido substituídos pelo interesse pessoal e político. A população é um espelho de tudo que acontece no país. “O grande violador dos direitos humanos no Brasil é o Estado brasileiro. Quando eu digo Estado brasileiro, eu digo a União, os Estados e municípios. O Estado brasileiro sonega educação, sonega saúde, desampara as crianças e os velhos. É o grande violador”.  Para ele, o Brasil não precisaria de uma declaração própria. “Não precisa ser uma declaração, mas como são regras de convivência social. Basta colocar em prática o Artigo 5 da Declaração Universal, que já está pronto”. Diz o Artigo 5: Ninguém será submetido à tortura nem a penas ou tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes. “Precisamos é que isso tenha vida”, conclui Krischke.

 

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