As dificuldades de ser mãe solteira

Mães relatam como criaram sozinhas seus filhos em um país onde 20 milhões de mulheres não contam com o apoio do pai

  • Por: Kamylla Lemos Pereira | Foto: Kamylla Lemos Pereira | 29/08/2016 | 0
Paula espera sua filha chegar da escola enquanto observa um dos primeiros presentes que comprou para ela
Paula espera sua filha chegar da escola enquanto observa um dos primeiros presentes que comprou para ela

Desde o início da gestação, Paula Thier se sentiu sozinha. Não recebia apoio e nem ajuda do namorado, pai do bebê, que pareceu não se importar quando soube da notícia. No momento em que o bebê chutou pela primeira vez, Paula colocou a mão do pai em sua barriga. Ele retirou e disse: “Que nojo”. Com seis meses de gravidez, o namorado revelou que estava apaixonado por outra e queria terminar o relacionamento. Nesse momento, Paula percebeu que cuidaria da sua filha sozinha.

O relacionamento já era conturbado antes da gravidez. Recém formada em técnica de moda, Paula passava por um período de depressão. Ele aproveitava sua fragilidade. Em um ano e meio, ela foi agredida três vezes. “Eu tinha que aceitar, ficar quieta e dar graças a deus que tinha um homem ao meu lado”, relembra, reproduzindo um pensamento fruto da sua criação, onde o papel da mulher é de submissão.

Após terminar o relacionamento, Paula saiu de Pelotas e foi para a casa da mãe, em Rio Grande, interior do Rio Grande do Sul. Quando chegou lá, os pais decidiram que a internariam. Paula não contrariou e chegou a implorar para o médico interná-la. Mas isso não aconteceu. Acompanhamento psicológico e medicação foram suficientes. Foram as consultas com a psicóloga que a ajudaram. Porque em casa ouvia que não conseguia “segurar homem”. Foi nesse contexto que ela teve a Baixinha, apelido carinhoso que deu para sua filha. “Ela foi o meu maior presente, foi a virada na minha vida. Foi quem me puxou de volta para a realidade”.

Apesar de não ter a companhia do pai, Paula não está sozinha. Ao menos não nas estatísticas. Pesquisa divulgada no ano passado pelo Instituto Data Popular mostra que o Brasil tem 67 milhões de mães e, dessas, 20 milhões são mães solteiras. Além disso, dados do Conselho Nacional de Justiça, mostram que existem no país 5,5 milhões de crianças sem o nome do pai na certidão de nascimento.

O pai chegou a registrar a menina, mas a visitou pouquíssimas vezes nos primeiros meses. Na época, Paula estava desempregada, mas seus amigos não deixaram que nada faltasse para o bebê. Ela lembra que ficava triste por não ter dinheiro para comprar presentes para a sua filha.

Quando Baixinha completou cinco meses, Paula saiu para procurar emprego. Mesmo com o diploma de técnica em moda, foi trabalhar em uma cafeteria limpando banheiros. Com o seu primeiro salário, lembra ter comprado um boneco da Disney. “Foi o maior prazer da minha vida”, fala.
Em 2009, decidiu se mudar para Porto Alegre após perceber que não conseguiria emprego em sua área. Deixou a filha, na época com 3 anos, com os avós com a promessa de buscá-la quando se estabelecesse. Durante essa época longe da filha, o pai apareceu para visitá-la.

“Sabe, mãe, eu não gosto do meu pai”, disse a menina quando contou para a mãe sobre a visita do pai. Ela tinha 5 anos quando ele apareceu, em um final de semana do dia dos pais. Quando Paula soube, ficou desesperada. Ligou para a irmã e deu instruções para que o pai não saísse sozinho com a filha. Alguns meses antes da visita, ele havia ameaçado tirar a filha dela. O final de semana ocorreu tranquilo e ele não a visitou mais.

Em Porto Alegre, foi se especializando e fazendo contatos. Uma das maiores dificuldades de criar a filha sozinha era a parte financeira. O primeiro salário na capital não pagava o que prometia, e o que era para durar três meses, acabou durando três anos. Em 2011, Paula trouxe Baixinha para a capital. “Consegui fazer tudo sozinha. Sustentar uma casa, alimentar minha filha, dar uma boa vida para ela”, diz com orgulho.

Recentemente, o pai procurou Paula. Enviou uma mensagem pedindo que ela mandasse notícias e fotos da Baixinha. A mensagem a deixou irritada. “Ele não participa, não dá um centavo. São todos aqueles clichês, sabe? Se ela ralou o joelho, passar remedinho. Abraçar quando a criança chorar de noite. Ele não acordou nenhuma vez de madrugada, não trocou uma fralda, não limpou uma baba. Não fez nada. Ele não foi pai. Ele não significa nada para ela”, desabafa.

A função paterna
Uma de suas maiores preocupações é que a Baixinha passe por tudo o que ela passou. Por isso, mantém uma conversa honesta com a menina de apenas 9 anos. Em uma das conversas, Paula disse que quando a garota crescesse, tivesse sua casa e profissão, caso ela encontrasse alguém que a cuidasse, respeitasse, ela poderia permitir que essa pessoa entrasse em sua vida. A Baixinha, nesse mesmo momento, respondeu: “Mãe, eu gosto quando tu falas essas coisas. Porque quando eu crescer, já vou saber”. Mesmo inconscientemente, Paula, ao conversar com a filha, estava fazendo papel de mãe e de pai.

A psicóloga Maria Luiza Pradella Ramos, especialista em terapia familiar, explica que uma figura paterna não é necessária, mas a função, sim. “Sabemos que o primeiro vínculo da criança é com a mãe, que desempenha a função de nutrir, acolher, amparar, amar e satisfazer as necessidades da criança, o que estimula o princípio do prazer, que é, segundo Freud, inerente à condição humana”, afirma. Para a psicóloga, a função paterna teria a ver com outro princípio, o da realidade. Esse princípio está relacionado às pequenas frustrações que a criança precisa experimentar para aprender que suas necessidades e demandas nem sempre serão atendidas. “A vida em sociedade exige que tenhamos este equilíbrio entre o princípio do prazer e o princípio da realidade”, explica Maria Luiza.

“Pai de selfie”
Está na Declaração Universal dos Direitos Humanos: a família é o elemento natural e fundamental da sociedade e tem direito à proteção desta e do Estado. Atualmente, as estruturas familiares estão em constante transformação, cada vez mais diversificadas e nem sempre as famílias serão compostas por um pai e uma mãe.

Para a psicóloga Maria Luiza, devemos pensar nas funções independentemente das questões de gênero. “Uma criança precisa se sentir amada, sentir-se pertencente à família, acolhida, protegida, independentemente de quem cuida”. Segundo ela, os responsáveis precisam saber a importância de suas funções, não propriamente de pai e mãe, mas de estabelecer um ambiente favorável à criança.

Mas às vezes esse ambiente favorável é apenas virtual. Uma página no Facebook chamada Menos Pai se dedica mostrar exemplos do chamado “pai de selfie”, aquele que demonstra todo o seu amor pelos filhos nas redes sociais, mas que, na vida real, não é tudo isso. Através de textos humorados, a página mostra um pai que é mais preocupado em renovar seu estoque de selfies com o filho, do que com as responsabilidades. Quando isso acontece, cabe à mãe assumir o papel de fornecer os princípios de prazer e de realidade aos filhos.

Um dos textos da página ironiza o cuidado paterno e a noção de função de pai e mãe reproduzida por alguns homens: “Eu cuido pra caramba do filho! Só não troco fralda, morro de nojo. Também não dou banho, sei lá, tenho medo. Também não troco de roupa se ele se suja, nem agasalho se esfria o tempo. Na verdade, nem sei onde ficam essas coisas todas. (…) Mas eu cuido muito, viu, gente?” Outra postagem brinca com a exposição virtual: “Encho meu face com fotos do filhão… Como não tenho fotos que eu mesmo tirei, roubo do face da mãe dele!”

Presença virtual, ausência real
Mas se a página parece uma sátira exagerada, mães solteiras mostram que esse tipo de comportamento é bastante recorrente. Como o caso de Nina*. Entrevistada pela internet, a moradora de Colatina, no Espirito Santo, conheceu o marido em 2011, na igreja. Ela cantava no coral há algum tempo. Ele havia recém saído de uma internação por dependência química.

Decidiram morar na mesma casa junto com os filhos de outro relacionamento dele. Na época, a relação não estava boa. “Ele é dependente químico e não conseguia emprego. Além disso, não parava em casa”, conta Nina. Quando descobriu a gravidez, pensou que a situação melhoraria, mas isso não aconteceu. Ela saiu da casa em que moravam e foi para a casa da tia. Nesse período, o homem perseguia Nina, pedindo que ela voltasse, alegando que a amava.

Após o nascimento de sua filha, Nina decidiu dar uma segunda chance para ele, para que sua filha não ficasse sem uma presença paterna. “A gota d’água foi quando ele veio me agredir na frente dela, quando ela tinha 2 anos”, relembra. Depois disso, Nina resolveu que criaria sua filha sozinha. Desde a gravidez, parou de sair. Quando está trabalhando, a menina fica na escola ou com a babá. Separados há seis meses, ela conta que nem um pacote de fraldas recebeu dele. “Sinceramente, não preciso. Trabalho e ganho o suficiente para criá-la muito bem”.

Quando acha necessário, ele aparece. Traz um ursinho de pelúcia para a filha e tira fotos para postar no Facebook. Isso quando não utiliza um perfil falso para roubar as fotos do perfil de Nina e postar no seu próprio. Na ida para a escola, a filha, de apenas 3 anos, pergunta sobre ele quando vê alguma criança com o pai. “Eu não permito que ela saia com ele, porque tenho medo que aconteça alguma coisa, já que ele usa drogas”, diz.

Nina salienta que uma das maiores dificuldades, além da parte financeira, é o preconceito por ser uma mãe solteira. A sociedade ainda é bastante preconceituosa. É difícil encontrar emprego ou estabelecer novos relacionamentos. “A igreja te recrimina, os homens pensam que você é disponível, as empresas acham que filhos atrapalham o rendimento. É muito complicado”, afirma.

* Nome fictício. A identidade verdadeira de Nina foi preservada. 

Os textos, imagens, áudios e outros materiais oferecidos pela Agência J são distribuídos sob uma licença Creative Commons – Atribuição-SemDerivados 3.0 Não Adaptada. O material pode ser usado para qualquer fim jornalístico, desde que seja publicado na íntegra, sem modificações, e seja atribuído ao(s) autor(es) conforme o seguinte modelo: Nome do Autor ou autores (Famecos/PUCRS).