Dupla de psiquiatras coordena grupo de terapia há 28 anos na Santa Casa

Aposentados, Nelio Tombini e Vera Stringhini se dedicam à saúde emocional dos pacientes de forma voluntária

  • Por: Aline Ely | 26/09/2016 | 0
Participantes do grupo de terapia reúnem-se todas as segundas-feiras no hospital São José, dentro do complexo da Santa Casa
Participantes do grupo de terapia reúnem-se todas as segundas-feiras no hospital São José, dentro do complexo da Santa Casa

Observando o grupo de terapia, como estudante de jornalismo, fui apresentada pela médica Vera Stringhini. Assim, tomo meu lugar para começar minhas anotações. Então uma senhora muito curiosa senta ao meu lado. Como havia visitado o local antes, já sabia que se tratava de uma paciente especial. Ela se destaca com suas sábias opiniões, sempre tentando ajudar os demais integrantes. Sua generosidade não seria diferente comigo. Sabendo que eu precisaria de algumas entrevistas ao término da sessão, sentou ao meu lado para antecipar a sua. Em poucos instantes me contou a história de sua filha falecida, portadora de Síndrome de Down. Nesse momento, Stringhini nos aborda dizendo que as entrevistas seriam dadas depois. Antes de voltar ao seu lugar, a senhora coloca em minhas mãos uma carta que estava segurando, pedindo para eu ler. Era um texto psicografado, de algum centro espírita. Começando a ler, vi que se tratava de uma mensagem que ela acredita ser de sua filha para ela, ao terminar de ler a carta, ela me diz: “Não é a coisa mais amada, o que ela me escreveu?”. Apenas balancei a cabeça para não chorar. Ao final do encontro, fui conversar com a psicóloga do grupo para elogiar a senhora que havia conversado comigo. Ela me fala que a paciente é realmente muito participativa e que estaria com câncer.

Dentro do Complexo da Santa Casa, acontece uma reunião no Hospital São José. Lá,  pacientes que já sofreram internações psiquiátricas participam de uma terapia de grupo. Um trabalho voluntário, formado por dois psiquiatras e uma psicóloga, Nelio Tombini, Vera Stringhini e Marinês Jannone. A equipe atende todas as segundas das 9h às 10h há mais de 18 anos. Seus criadores, os dois psiquiatras, já estão aposentados e simplesmente não conseguem se afastar da atividade pela importância que representa para ambas as partes. Em uma frase de Stringhini podemos entender: “quando há boa vontade de ambos os lados, as coisas dão certo”. Claramente a boa vontade cerca aquela sala em todos os espaços e é um estímulo para a permanência do trabalho. “Eu criei esse grupo, aprendo muito lá, eu me realizo, aprendo muito e me faz bem, essa atividade me dá muita satisfação”, diz Tombini. Eles atendem diversos tipos de paciente, menos dependentes químicos e esquizofrênicos. Para estes existem grupos especiais.

Caderno de presenças. O grupo de terapia existe há 28 anos
Caderno de presenças. O grupo de terapia existe há 28 anos

Tombini explica que 28 anos atrás começou um grupo de portadores de doenças afetivas, um ambulatório onde atendiam pessoas com transtorno de humor. A demanda no ambulatório era muito grande. Os médicos e psicólogos não conseguiam dar conta do atendimento individual, não tinham gente suficiente. Então, a ideia do grupo foi uma estratégia de saúde pública. Agora, quando as pessoas chegam no ambulatório, são avaliadas e, depois de serem atendidas três ou quatro vezes, e com a medicação controlada, são encaminhadas para o grupo. Tombini explica: “O grupo consegue atender 40 pacientes em uma hora! Você consegue transformar uma hora em 40 atendimentos”. O número de pessoas que frequentam as reuniões varia. Eles não fazem consulta, apenas renovam as receitas, 95% dos pacientes ficam no grupo. A maioria dos pacientes já passou por internações no ambulatório da Santa Casa. Encaminhadas para o grupo, obtiveram bons resultados e não precisaram passar por internações, começaram a tomar menos medicações.

Claramente pude ver o sofrimento de cada um deles. Ao mesmo tempo perceber o carinho e respeito que eles têm um pelo outro. Entre um desabafo e outro, ouço histórias como de uma outra paciente que participa dos encontros há anos, quase o mesmo tempo que ele foi criado. Ela conta que desde o dia que nasceu já tinha problemas. Depois de ter sido adotada, queria conhecer sua mãe e sua irmã gêmea, embora a vontade não fosse recíproca. Ninguém quis conhecê-la. Apenas esse fato poderia ser um dos motivos por estar lá. “Sempre tive muitos problemas. Tive um marido que bebia e me batia, minha filha nasceu com problemas médicos e um filho que caiu nas drogas”, lamenta. Olhando nos meus olhos ela fala com determinação: “Agora consegui superar esses problemas. Pois aqui é o único lugar que eu tenho para conversar com alguém, e já não estou mais chorando”.

Stringhini afirmou que, para o grupo, foi muito importante a presença da reportagem. “Fez bem para todos, sentiram-se valorizados, deixaram de ser invisíveis, queriam contar suas histórias, gostaram de ver o movimento da fotógrafa. Sentiram que suas vidas tinham importância”. A maioria dos integrantes é formada por idosos. Então, problemas familiares são os mais frequentes. Relatos de abusos psicológicos e físicos não são nada incomuns. Não há jovens, embora haja muitas histórias sobre eles. Uma das pacientes estava chorando muito em meio aos demais, pois a filha mais velha quis deixá-la por não aceitar que sua irmã mais nova morasse com elas. “Preciso da minha filha mais velha, mas no momento é a mais nova que precisa de mim. Só quero que minha volte para casa”, diz uma paciente.

A maioria dos integrantes é de idosos, que buscam no grupo conforto e atenção
A maioria dos integrantes é de idosos, que buscam no grupo conforto e atenção

Lágrimas e sorrisos confortantes são a base da relação desses pacientes com seus terapeutas. A segurança e a confiança sustenta os conselhos e as palavras. Todos são muito carismáticos, generosos e agradecidos por conseguirem lidar com seus conflitos. Ao mesmo tempo, têm a humildade de agradecer e compartilhar suas conquistas, determinando o bom relacionamento do grupo. Eles ficam felizes quando escutam que algum integrante obteve êxito em seu tratamento, uma conquista compartilhada entre os médicos e pacientes. “São pessoas maravilhosas, que têm as respostas. O médico Tombini trata de seus pacientes como se estivesse cuidando dos filhos. Pretendo continuar vindo aqui, enquanto eu viver”, relata uma paciente.

Todos os participantes são um grande exemplo. Embora haja tristezas, problemas, sempre existe uma esperança de superá-los. Sejam eles profissionais, familiares ou financeiros. Independentemente da faixa etária, dinheiro, religião, região ou profissão. Muitos motivos podem levar as pessoas a entrarem em uma depressão. A maioria espera passar ou tenta esquecer pequenos ou grandes problemas. “Sempre me preocupei em mostrar para as pessoas que elas podem aprender sobre as relações humanas, sobre aspectos emocionais que estão embutidos em qualquer atitude nossa. A vida emocional é o motor das nossas vida, não é nossa inteligência. Eu brinco que se eu tivesse que escolher entre inteligência e uma vida emocional saudável, eu prefiro ser burro e ter uma vida emocional saudável. Não queria ser super inteligente e emocionalmente comprometido”, diz Tombini

Para todos que frequentam o grupo, aquele espaço é o momento que eles irão tentar solucionar os conflitos que guardam dentro de si. “Não somos seres excepcionais, todos nós vamos passar por conflitos”, afirma Stringhini. Então, a vida mostra como as pessoas são seres frágeis, que às vezes precisam apenas de alguma atenção. Alguém que possa ouvir, compreender e compartilhar vitórias e derrotas que são agregadas ao longo da vida.

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