Ecos de Chico Mendes

Após 30 anos de sua morte, ele é reconhecido como um dos maiores ativistas ambientais de todos os tempos

  • Por: Duncan Schimitt | Foto: Miranda Smith, Miranda Productions, Inc. | 08/10/2018 | 0

No final da tarde do dia 22 de dezembro de 1988, Chico Mendes conversava fiado com amigos. A roda de dominó, antes do jantar, estava animada. Às 18h45min, ao abrir a porta da cozinha para chegar ao banheiro, no lado de fora, o ambientalista foi surpreendido. Sem tempo de esboçar qualquer reação, foi subitamente atingido por 60 grãos de chumbo. Dezoito no braço direito. Quarenta e dois no lado direito do peito. A delegacia de polícia, a sessenta passos de distância, permanecia absolutamente pacata. Os tiros mataram Chico Mendes. Mas deram vida a seu mito.

 

  1. OS SERINGUEIROS

AGONIA
À beira do canal
vê-se a floresta passar
sobre rodas.

Um após outro, os caminhões
se revezam,
no maléfico ofício de transportar
corpos mutilados
da mata agredida.

O mundo fecha os olhos;
nada quer ver, nada faz,
mas, alguns olhos choram,
enquanto a floresta, sem força,
agoniza.
— Maria do Socorro Vitoriano Pereira Pontes

Andirobas, cumarus e paxiúbas disputam espaço na selva latifoliada úmida que abriga agricultores familiares, extrativistas, índios, quilombolas e ribeirinhos. Proprietários resolutos da Amazônia, os Povos da Floresta são parte integrante da mata de 5,5 milhões de quilômetros quadrados. Entre os 10 Estados brasileiros que a constituem, o Acre se destaca por uma economia direcionada à exploração de recursos naturais como a borracha, a castanha e a madeira.

Os seringueiros são aqueles que sobrevivem da extração do látex: com a cabrita (faca de serviço) e a tigela, eles sangram a árvore e vertem a seiva para produzir borracha. Existem mais de 50 mil artigos constituídos desse material no mercado mundial atualmente: a espécie Hevea brasiliensis selvagem — nativa da bacia hidrográfica do Rio Amazonas — é a principal fonte de borracha natural da Terra, compondo um dos alicerces industriais da humanidade com o aço e o petróleo.

Devido à biopirataria, aproximadamente 80% dessa produção é proveniente de pequenas propriedades rurais do Sudeste Asiático, mais especificamente da Indonésia, da Malásia e da Tailândia. O Brasil — primeiro e único exportador de borracha natural no início do século XX — importa 63% do consumo interno hoje, gerando apenas cerca de 1% do total global.

 

2. O GUARDIÃO DA FLORESTA

PROCEDÊNCIA
Venho do mundo dos desiludidos,
De onde a vida se tornou amarga e inconcebível,
De onde a tristeza estendeu suas asas negras
Como um pássaro agoureiro e cruel
Sobre os homens e as cousas…
Venho de um submundo abandonado
Onde não há Deus nem manhãs de sol,
Nem noites de luar nem dias sem crepúsculos,
Onde tudo vaga sem destino,
Sem finalidade e sem conforto…
Trago na garganta o gemido dos aflitos,
No peito a tortura dos injustiçados
E no olhar a mensagem dos eternamente perdidos…

É por isso que a minha alma tem essa vontade estranha
De pairar acima do infinito
E de viver no fundo dos abismos…
— Djalma Passos

Quando a borracha brasileira era valorizada, a relação entre o seringueiro e o seringalista, o dono do seringal, era de despotismo. Este detinha o monopólio das mercadorias vendidas no barracão — sede do seringal —, como alimentos, pólvora e sal, e se valia da ignorância dos extrativistas a fim de estabelecer preços abusivos. Os “coronéis do barraco”, como eram conhecidos os seringalistas que compravam patentes da Guarda Nacional para reforçar o próprio status, endividavam os seringueiros e matavam ou prendiam aqueles que se atrevessem a sair do seringal.

Francisco Alves Mendes Filho nasceu em Xapuri no dia 15 de dezembro de 1944. Tornou-se seringueiro aos nove anos. Aos 12, passou a ser responsável pelo sustento da família. Foi alfabetizado somente aos 19 anos pelo militante comunista Euclides Távora, amigo de seu pai.

Chico Mendes tinha uma relação sobrenatural com o meio ambiente. “Quando perguntavam ao Chico se ele realmente acreditava em Caboclinho da Mata, em Mãe da Mata — algumas das lendas dos seringais —, ele dava um meio-sorriso e respondia de forma enigmática: ‘Eu sou seringueiro’. Os seringueiros acreditam, sim, em várias divindades que protegem a floresta. O Caboclinho da Mata, quando pega alguém que caça além do necessário para a subsistência, dá uma surra de cipó-de-fogo na pessoa”, conta o advogado e agrônomo Gomercindo Rodrigues.

Chico batalhou pelos direitos dos Povos da Floresta ao lado do presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasileia, Wilson de Souza Pinheiro. Através do empate — um método de luta pacífica em que dezenas ou até centenas de manifestantes se reúnem para proteger as árvores com seus próprios corpos —, eles garantiam, quase sempre, que a selva ficasse em pé.

De acordo com Angela Maria Feitosa Mendes, filha do ecossocialista com Eunice Feitosa de Meneses, “tem muita gente que nunca foi a um empate aqui em Xapuri, mas que apoiava mandando comida, mandando remédio, mandando donativo, mandando roupa e dando essa visiblidade à situação. Havia muitos apoiadores dessa luta. Por isso essa  luta ganhou destaque nacional. Porque não foi uma luta isolada. Foi uma luta coletiva”.

Chico Mendes participou de diversos empreendimentos socioambientais. Segundo Angela Mendes, um dos mais relevantes foi dedicado ao ensino: “Aqui no Acre, na década de 1980, enquanto o Chico era presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri, ele coordenou o Projeto Seringueiro, que tinha como objetivo alfabetizar os seringueiros que, ainda naquela época, eram explorados pelo patrão, principalmente por não saberem ler, escrever nem contar. Por isso, não sabiam o quanto estavam devendo”.

Desde a desapropriação do Seringal Cachoeira, em 1979, o líder seringueiro começou a receber ameaças de morte do latifundiário Darly Alves da Silva. Apesar das advertências a autoridades e familiares, nada nem ninguém foi capaz de evitar a fúria do fazendeiro. A mando de Darly, Chico Mendes foi assassinado no dia 22 de dezembro de 1988 por Darci Alves da Silva (filho de Darly) e pelo jagunço Jadeir Pereira, o Serginho. Chico Mendes deixou a esposa Ilzamar Mendes e dois filhos, Sandino e Elenira, na época com dois e quatro anos de idade, respectivamente, e Angela, filha do primeiro casamento.

Darci e Darly foram condenados a 19 anos de prisão em dezembro de 1990. Angela conta sobre sua breve convivência com Chico Mendes. “Quando começou a ter destaque, eu acompanhava através das notícias de jornal. Quando fui ficando maiorzinha, menininha, me entendendo por gente, aí sim tivemos uma aproximação maior. Mas logo nesse momento ele foi assassinado… Então, eu costumo dizer que tudo que eu conheço dele, tudo que eu sei dele, são os amigos, são os companheiros, é a família. É isso que me alimenta e que constrói a história que hoje eu tenho dele”.

3. O MITO CHICO MENDES

JOVEM DO FUTURO
“Atenção Jovem do Futuro — 6 de setembro do ano de 2120, aniversário ou 1º centenário da Revolução Socialista Mundial, que unificou todos os povos do planeta num só ideal e num só pensamento de unidade socialista, e que pôs fim a todos os inimigos da nova sociedade. Aqui fica somente a lembrança de um triste passado de dor, sofrimento e morte. Desculpem. Eu estava sonhando quando escrevi estes acontecimentos que eu mesmo não verei. Mas tenho o prazer de ter sonhado.”

— Chico Mendes

Depois de 30 anos de assassinato, Chico Mendes é reconhecido como ambientalista, ativista político, seringueiro, sindicalista e vencedor de prêmios como o Global 500 da Organização das Nações Unidas (ONU, 1987), a Medalha de Meio Ambiente da Better World Society (1987) e o título de Patrono do Meio Ambiente Brasileiro (2013). Angela Mendes, presidente do Comitê Chico Mendes, descreve a importância do pai. “Ele foi um visionário. Achava que era possível desenvolver uma nação a partir de seus bens naturais, de seus patrimônios, das riquezas que a Amazônia tem. Se bem explorada, a floresta tem uma infinitude de recursos. O problema é que as pessoas olham para a floresta e só veem madeira. Ele não pensava numa floresta intocada. Ele pensava que uma sociedade poderia evoluir, mas sempre respeitando e preservando esse patrimônio tão lindo que a gente tem”.

As reservas extrativistas, seu projeto mais revolucionário, foram idealizadas por meio do conceito de reservas indígenas. A Reserva Extrativista Chico Mendes, por exemplo, foi criada a partir do decreto do ex-presidente José Sarney em 12 de março de 1990 como prerrogativa do Art. 225 da Constituição Federal de 1988, que afirma: “Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao poder público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações”. É administrada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), órgão ambiental do governo criado pela Lei nº 11.516 de 28 de agosto de 2007.

Ela possui 970 mil hectares — área seis vezes maior que a cidade de São Paulo —, abrangendo os municípios de Assis Brasil, Brasileia, Capixaba, Epitaciolândia, Rio Branco, Sena Madureira e Xapuri, todos no Acre. Na Amazônia, as Reservas de Desenvolvimento Sustentável e as Reservas Extrativistas estaduais e federais somam 92 unidades, cobrindo uma área de 24,9 milhões de hectares e beneficiando 1,5 milhão de pessoas.

Embora esteja sendo devastada — havendo perdido 6,5% de sua área original até o final de 2017 em razão da ação de madeireiros, pecuaristas e ruralistas —, a Reserva Extrativista Chico Mendes segue destinada à exploração autossustentável e à conservação de recursos naturais renováveis por populações tradicionais.

As ações de Chico Mendes ecoaram pelo mundo e projetaram uma perspectiva positiva para a Floresta Amazônica. Gomercindo Rodrigues, aliado e companheiro de Chico Mendes, admite que houve conquistas, mas sente falta do amigo. “Há muitas conquistas, mas eu sempre digo que eu trocaria tudo que a gente tem hoje pelo Chico vivo. Se ele estivesse fisicamente presente entre nós, elas seriam ainda maiores, porque ele era uma referência que certamente iria buscar um patamar maior de envolvimento das populações tradicionais. Aqueles que atiraram no Chico Mendes erraram o alvo. Perderam os tiros. Aqueles que pensam que o mataram, na verdade, tornaram o Chico imortal”.

 

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