Eles querem chegar ao fim do corredor

Segundo o IBGE, cerca de 500 mil gaúchos são analfabetos

  • Por: Aline Bandeira | 10/06/2016 | 0
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Foto: Geralt / Pixabay

A Escola Walter Jobim em Viamão, é uma das raras escolas que possuem o programa de Educação de Jovens e Adultos (EJA). Lá, conheci a pequena turma da professora Jacira de Godoi. São histórias de analfabetismo de alunos representando os mais de 500 mil gaúchos analfabetos.

A mão direita se estende sobre o peito, a cabeça se ergue, os olhos se fecham.  E, então, dezenas de pessoas no pátio de uma escola de Viamão passam a cantar em uma só voz “como aurora percursora, do farol da divindade”. O hino rio-grandense é um momento de respeito, orgulho e admiração pelo Estado. Terra do churrasco aos domingos, do chimarrão, do frio, da bota e da bombacha. Difícil encontrar um gaúcho sequer que não tenha orgulho do Rio Grande. Rio Grande da agricultura, da bergamota e do aipim. Do maior clássico do futebol brasileiro, das histórias de bravuras e das bravatas. Este mesmo Rio Grande também é o Rio Grande de um número que ninguém deve ter orgulho: o de um Estado com meio milhão de analfabetos.

O Rio Grande do Sul tem mais de 11 milhões de habitantes, espalhados pelos 497 municípios. A maior parte da população gaúcha se concentra na Capital: são 1.476.867 pessoas. Caxias do Sul é a segunda maior cidade do Estado, com quase 500 mil habitantes.  Fazendo uma relação simples entre a população do grande município da Serra e os números do IBGE sobre o analfabetismo no Rio Grande do Sul, é como se uma população inteira de uma cidade do porte de Caxias não soubesse ler nem escrever.

Mapa do Rio Grande do Sul informando a taxa de analfabetismo por região. Senso de 2000.
Mapa do Rio Grande do Sul informando a taxa de analfabetismo por região. Senso de 2000.

O município com o maior número de analfabetos no Rio Grande do Sul é Lagoão, distante 175 quilômetros de Porto Alegre, no noroeste do Estado. Conforme o Instituto, 18% dos 6.480 habitantes com mais de 10 anos não sabem ler nem escrever. Os jovens que poderiam alterar a estatística da cidade se mudaram em busca de melhores condições para estudar. A maior parte da população vive no meio rural e não quer voltar à escola.

A Escola Walter Jobim é uma das raras escolas que possuem o programa de Educação de Jovens e Adultos (EJA) do governo federal em Viamão, na Região Metropolitana de Porto Alegre. Lá, conheci a turma da professora Jacira de Godoi, que leciona há 19 anos no EJA. Uma turma de dez alunos motivados por um único ideal: aprender a ler e escrever. São apenas dez alunos dos 74 mil gaúchos matriculados no EJA. Concentrados, lápis e borracha sobre a mesa, os olhos não saem do quadro. Os ouvidos escutam atentamente as instruções de Jacira.

Na primeira classe da terceira fileira está Adolfo Tuchtenhagem. Um homem de 51 anos, aprendendo a desenvolver as primeiras palavras escritas. Adolfo tem dois filhos, um de 20 anos e uma filha de 26, ambos com ensino médio completo. Para ele, voltar à escola sempre foi uma meta, depois de criar e educar os filhos. Um desafio pelo qual queria passar no momento certo. Sempre foi difícil não poder ajudar as crianças nas lições de casa. Se isso foi um constrangimento, foi também um incentivo para recomeçar.  Um dos motivos que o levaram a abandonar os estudos foi a necessidade de trabalhar para ajudar os pais com as despesas da casa. A história de Adolfo é a história de muitos.

Foi assim também com o Joselino Junior, um pedreiro de 38 anos que abandonou os estudos quando o pai faleceu. Ele e os irmãos tiveram que trabalhar para ajudar a mãe, faxineira. Depois de muito insistir com a mulher, conseguiu que ela aceitasse o retorno do marido ao colégio. O objetivo dele é “chegar no final do corredor”. É assim que os alunos do ensino fundamental do EJA se referem ao Ensino Médio, cujas salas de aula ficam no fundo de um caminho de piso frio. Chegar ao final do corredor significa ultrapassar uma barreira aparentemente intransponível: deixar o analfabetismo para trás.

Quando fui conversar com Carlos Augusto, um homem de cabelos grisalhos, compenetrado, o primeiro a terminar a tarefa que a professora passara, os olhos se estendiam de curiosidade para ver o que eu estava fazendo ali. Eu me aproximei. Fiz a primeira pergunta: “Qual seu nome? ”. Com problema de dicção, começou a gaguejar. Lacrimejou, tímido, tranquilo. Suavemente, puxou a identidade do bolso, mas foi interrompido por Jacira. Antes que ele retirasse totalmente a carteira de identidade do bolso, saltou: “Não, não. Conversa com a Patrícia primeiro, tenho certeza que ela vai adorar”.

Patrícia Rodrigues, 41 anos, observava tudo da mesa trás de Carlos. Olhos pintados de preto, batom nos lábios e olhar vibrante, nunca sai de casa sem maquiagem. Ela tem seis filhos, com idades entre cinco e 21 anos. Se desdobra para poder voltar a realizar um sonho e ainda assim cuidar da casa, dos filhos e do marido. Patrícia está tentando retornar à rotina estudantil. Há anos, tenta voltar. Mas alguma coisa sempre a faz desistir. Com condições excelentes para ser aprovada, quando chega o momento de ir para uma nova turma, ela empaca e não volta mais à sala de aula. Começou a frequentar a escola com 11 anos e parou dois meses depois. Patrícia está na estatística, como uma criança que sofreu bullying na escola e, por isso, nunca mais quis saber de aula novamente. O medo sempre foi maior que a vontade de alcançar o sonho.

O método de ensino da professora Jacira conquista os alunos que não querem abandonar a turma. É o caso da Patrícia, que estava com medo de começar e agora não quer mais abandonar a turma da Jacira. Engasgando entre as palavras e os olhos cheios d’água, conta que a primeira professora a desmotivava. “Ela dizia que eu era burra e que eu não ia conseguir”. Patrícia nunca contou isso a ninguém porque teme ser novamente repreendida ou humilhada.

O armário do canto direito da sala é reservado para os alunos. Levam o que consideram necessário para permanecer a noite aquecido e à vontade. Ali, Jacira guarda também a pantufa que usa de segunda à quinta-feira no período de aula. A professora quer um ambiente descontraído e aconchegante, para que eles tenham vontade de ir e permanecer na escola.

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