Hospital Colônia de Itapuã, um lar com muitas histórias

Relatos contam a realidade e a história do Hospital

  • Por: João Victor Teixeira, Carolina Chassot e Vítor Alves (6° semestre) | Foto: João Victor Teixeira | 29/11/2017 | 0
Dizeres que estão logo que se chega ao espaço
Dizeres que estão logo que se chega ao espaço

Inaugurado em 1940, o Hospital Colônia Itapuã impressiona pelo vazio e abandono de toda a área localizada em Viamão, a 58 quilômetros de Porto Alegre. Prédios e casas antigas seguem enfileirados nas ruas daquela velha vila que teve clube de futebol, prisão e escola. Mas, exibem as marcas do abandono e da ação do tempo.

Depois de abrigar por décadas portadores de hanseníase (lepra), hoje, administrado pelo Governo do Estado, o lugar é reservado para receber pacientes psiquiátricos, moradores hansenianos e funcionários que lá permanecem. Embora desde 1970 tenham sido autorizados a sair, o espaço ainda abriga alguns moradores, como Suzana Amaral, funcionária e filha de hanseniano já falecido. Alda Roveda, Sady Roveda, e Valdeci Barreto também são moradores que ainda têm a Colônia como seu lugarejo.

Eles preferiram continuar lá residindo, alguns por que trabalham no hospital e outros são ex-pacientes e seus familiares que se acostumaram com aquele ambiente amplo, perderam contato com seus parentes e, assim, consideram a Colônia sua casa. O que é compreensível, pois eles cresceram, casaram, tiveram filhos naquele espaço. São histórias de vida que revelam alegrias e também tristezas, caso dos que construíram suas famílias, foram separados dos filhos em razão da proibição que vigorava naquela época que impedia as crianças de conviver com pais portadores de hanseníase.

HOSPITAL E ADAIR: RELAÇÃO FORTE

Há 36 anos, Adair Fernandes é funcionário contratado pelo Estado para trabalhar no Hospital Colônia Itapuã (HCI). Ele já residiu dentro da Colônia, mas há dez anos deixou o local para ter sua casa própria junto da mulher e de dois filhos que cresceram lá dentro. Sua função inicial era “faz tudo”, como ele hoje recorda. Neca, apelido de Adair, começou na enfermaria que atendia aos hansenianos, auxiliando no banho, na alimentação e na medicação mesmo sem ter formação adequada.

Naquela época, “as madres” (religiosas) que cuidavam os setores ensinavam os recém contratados a fazer curativos e aplicar injeções. Só depois de dois anos, o atendente Neca iniciou o curso de auxiliar de enfermagem. Até então, auxiliava médicos e atendia diretamente os pacientes dependendo dos casos.

Em 1999, Adair começou a fazer trabalhos externos com os pacientes, acompanhando-os em consultas em hospitais de fora, às vezes como motorista. Nessa época, já não havia restrições e isolamento dos portadores de hanseníase como entre 1940 a 1970, ano em que portas do hospital foram abertas. Depois de um certo período, eles tiveram a liberdade de escolher entre continuar morando na Colônia Itapuã ou voltar para suas cidades de origem. Como a maioria perdeu o contato com os familiares de sangue e formou suas famílias lá dentro, sair de Itapuã deixou de ser uma opção.

Ao longo dos anos, com humildade e carisma, Adair criou uma relação de amizade com muitos pacientes. É o que acontece quando o paciente psiquiátrico Bento vê o funcionário e corre em sua direção com uma “bituca” de cigarro entre os dedos, para pedir fumo. Abraça Adair dizendo “gosto muito do Nequinha”.

Nos últimos anos, o abandono da Colônia tem gerado especulações sobre o destino da área. Adair comenta que a razão social do Hospital Colônia Itapuã está mudando. “Há muito tempo deixou de ser hospital, é mais uma instituição asilar, mas vai continua sendo HCI por causa da história”. Isso ocorre pelo fato de receber pacientes psiquiátricos dependentes e acamados do Hospital São Pedro.

 

Adair, o Neca, que trabalha la
Adair, o Neca, que trabalha la

 

UMA FAMÍLIA SEM FILHOS

A catarinense Alda Roveda chegou ao Hospital Colônia aos 17 anos. Na época, as pessoas com lepra não tinham opção. “A gente não tinha escolha, nos levavam a força”. Em 1956, Alda começou a trabalhar na enfermaria do HCI. Um ano após sua chegada, seu futuro marido desembarcava no mesmo local. Aos 20 anos, Sady Roveda foi diagnosticado com hanseníase. Como os pacientes realizavam algumas tarefas, Sady ficou responsável pelo motor da casa hidráulica.

Na década de 1950, um alto-falante divulgava eventos e anúncios necessários, como também tocava músicas. “Tinha o lado bom que era o divertimento, como ir no cinema, jogar carta, ir ao baile. O lado ruim da Colônia era ficar longe da família”, relata dona Alda, que morava, junto com 19 mulheres, no internato. “A gente aprontava muito para as duas irmãs (religiosas) que cuidavam do local, mas era tudo muito rígido.”

Sady relembra os momentos de lazer no HCI, quando “gostava muito de jogar carta e bocha”. A música aproximou os dois hoje casados há 55 anos. Ambos gostavam da mesma canção. Em um determinado dia, ao se encaminharem para o refeitório, a música tocou no alto-falante. “Nesse momento, eu olhei para o lado e o Sady cantava a mesma, conta Alda. Desde este dia, as trocas de olhares começaram. Três anos após o início do namoro, eles se casaram em Araranguá (SC). “Eu ganhei muito mais que uma Mega Sena ao encontrar Alda”, enfatiza Sady.

O casal preferiu não ter filhos, pois naquela época as crianças dos pacientes internos não podiam conviver com os pais, sendo levados para o Amparo. Neste local, os pais podiam ver os filhos de tempos em tempos.

 

Sadi e Alda Roveda
Sady e Alda Roveda

 

AOS OLHOS DE UMA CRIANÇA

Por causa da doença, Suzana Amaral, 54 anos, sentiu na pele o abalo familiar e o preconceito. A hanseníase, que atacou seu falecido pai, Aristides do Amaral, em 1972, deixou marcas não só nele, mas em toda a família. Ainda em São Borja, terra natal da família, Suzana, a mãe e mais quatro irmãos tiveram uma vida conturbada. “Nós criamos sem saber o porquê do nosso pai estar longe”, lembra a atual funcionária do Hospital Colônia Itapuã há mais de 37 anos.

Criança inocente, Suzana sentia o preconceito que envolvia sua família. “Lembro que éramos criança, o pessoal do quartel nos colocava no jipe, examinavam e nos levavam de volta, mas sem entender o porquê. Ficamos sabendo o que estava acontecendo quando uma vizinha orientou seus filhos a não brincarem conosco, por sermos filhos de leproso”, revela.

A família tentou de várias maneiras encurtar a distância do pai que estava no HCI, em Viamão. Após 13 anos de internação De Aristides, a adolescente Suzana, os quatro irmãos e a mãe decidiram ficar perto dele. Porém, ao chegarem em Itapuã, se depararam com um imprevisto. Eles não podiam ter contato com o pai, pois os portadores de hanseníase eram isolados das demais pessoas.

A família encontrou outra maneira de se aproximar. “Eu, minha mãe e meus irmãos ficamos dois meses escondidos no Cassino, só saíamos à noite, pois os próprios pacientes não nos queriam aqui”, relata. Mas, surgiram problemas e o pai de Suzana, então, solicitou que o diretor do hospital abrisse uma exceção para sua família morar em sua casa na Colônia.

No período de refúgio no Cassino, nasceu Daniela, filha de uma das pacientes. A recém-nascida ficou escondida com os irmãos Amaral dentro dos pavilhões para evitar que fosse separada da mãe e levada para o Amparo, como era norma na época.

Residindo na Colônia, a filha de seu Aristides, aos 17 anos, passou a trabalhar dentro do HCI.  As religiosas pagavam parte do seu salário e o diretor outra parte. Ao ser contratada pelo Estado, já maior de idade, recebeu uma casa como os demais funcionários. Nesta casa moravam Suzana e os irmãos, porém eles não podiam receber a visita do pai. Diante disto, apenas a mãe vivia com seu Aristides. “Ela também acabou ficando longe dos filhos”, relata Suzana.

A família fez várias tentativas para se manter unida, sem conseguir. Seu Aristides tentou inúmeras vezes fugir da Colônia, mas sempre era resgatado. “Ele ia para a cadeia e de seis em seis meses saia para poder nos ver. Tinha pacientes que fugiam e não voltavam”, revela.

Há mais de 37 anos trabalhando no hospital, Suzana hoje combate o preconceito com relação à doença. “Eu custei a me socializar. Meus amigos sempre foram filhos de pacientes”, conta. “Logo que chegamos aqui, nos meus 17 anos, fui a um baile em Itapuã e lembro-me de senhoras questionar o que uma filha de leproso fazia na festa”, recorda. Agora, em 2017, Tereza, a mãe, diz que não enlouqueceu porque não era para enlouquecer. Aos poucos, as coisas foram mudando. Filhos de pacientes passaram a ser aceitos no HCI e uma família entre os que lá ficaram se formou. Atualmente, as duas não pensam em ir embora: “virou nosso lar”.

Pavilhão de festas destruído pela ação do tempo
Pavilhão de festas destruído pela ação do tempo

 

CASA DO DESAMPARO

Quando tinha 15 anos, Valdeci Barreto foi para o Hospital Colônia para ficar com sua mãe diagnosticada com hanseníase. No final de 1959, aos 17 anos, Valdeci casou com um homem dez anos mais velho. Teve três filhos. “Tiraram os meus filhos de mim e levaram para o Amparo, contra a minha vontade. Na verdade, casa do desamparo”, relembra.

Emocionada, ela conta que os pais não podiam tocar nos filhos. “Tinha que olhar só de longe”. Casados há três anos, o marido morreu. No segundo casamento, Valdeci teve oito filhos, entre eles Silvana e Clarisse que vivem com ela até hoje. “Quando a Silvana nasceu, ela tinha uma tosse muito forte. Uma cirurgia desnecessária e três paradas cardíacas deixaram minha filha em estado vegetativo para o resto da vida”, lamenta a mãe que até hoje cuida da filha.

Ainda residindo na Colônia Itapuã, Valdeci mora em um espaço da enfermaria do hospital, com quarto, cozinha e sala. Explica que gosta de ficar ali por causa do suporte de remédio e cuidados especiais que recebe, mas no passado sentia vergonha. “As pessoas olhavam para nós com cara estranha”, recorda. Ela também decidiu fazer do Hospital Colônia sua casa

 

A igreja
A igreja

 

Evolução do tratamento da hanseníase no Brasil

Século XII – Surge a hanseníase na África e no Oriente.

1905 – Primeiro caso registrado no Brasil

1939 – Determinado internação compulsória dos diagnosticados com a doença

1940 – Inauguração do Hospital Colônia de Itapuã ocupando 1527 hectares.

1962 – Tancredo Neves, ministro da Saúde na época, assina decreto que proíbe a internação compulsória.

1970 – O mal da hanseníase é desmistificado e as portas do HCI são abertas.

1975 – Pacientes podem escolher entre seguir morando no HCI ou se mudar.

1986 – A poliquimioterapia é definida como tratamento para curar a doença.

1990 – Restam apenas 150 pacientes no HCI.

1992 – Hospital permanece funcionando: Governo do Estado decide manter hospitais-colônia.

2014 Inaugurado Memorial Histórico no Hospital.