Jair Krischke: um peixe grande e suas histórias maravilhosas

Aos 77 anos, o presidente do Movimento de Justiça e Direitos Humanos revê sua trajetória e compartilha suas memórias

  • Por: Elisa Rabelo | Foto: Elisa Rabelo | 27/05/2016 | 0
Jair Krishcke é presidente e fundador do Movimento de Justiça e Direitos Humanos
Foto: Elisa Rabelo. Jair Krishcke é presidente e fundador do Movimento de Justiça e Direitos Humanos

No filme Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas, a grande diversão do personagem principal é contar sobre as aventuras que viveu durante toda a vida. Após algumas horas de conversa com Jair Krischke, afirmo sem medo: ele é um contador de histórias. Consequências não somente dos 52 anos dedicados aos Direitos Humanos, como, principalmente, das quase duas mil vidas que salvou durante a ditadura militar em vários países da América Latina. Seus relatos fantásticos soam como fábulas para o ouvinte, até que Jair abre uma gaveta em seu escritório, puxa dali algum documento histórico e traz o interlocutor de volta à realidade. Aos 77 anos, ele ainda preside e é, como ele mesmo diz, o porta-voz do Movimento de Justiça e Direitos Humanos (MJDH). O envolvimento integral com as causas ainda é cotidiano. O plano para a aposentadoria até existe, mas é distante. “Eu me orgulho muito de ser ativista dos Direitos Humanos, o resto todo é bobagem”.

Para explicar a origem do envolvimento com os Direitos Humanos, Jair volta no tempo. Quase como um exercício de autoconhecimento, o ativista retoma a própria infância, sempre em tom fabuloso. Nascido em uma família protestante, começou os estudos no colégio católico São João, aos sete anos. O ano era 1945, fim da Segunda Guerra Mundial, na qual os alemães eram absolutamente demonizados. O sobrenome alemão, Krischke, e o protestantismo fizeram dos primeiros anos escolares um martírio. O recreio era um inferno. Jair lembra até hoje da musiquinha entoada pelos colegas: ‘Alemão batata, come queijo, come barata’. Os padres, por outro lado, pareciam mais solidários à situação do pequeno Jair. “Eles sempre manifestavam que tinham muita pena de mim, que eu era um menino comportado, mas que eu ia para o inferno”.

Aos 14 anos, Jair simplesmente parou de frequentar a Igreja. Processo que poderia até ser visto sem muito espanto, não fosse por uma questão. O avô paterno, com quem Jair tinha uma relação bastante próxima, era pastor. Com carinho nos olhos, o presidente do MJDH conta que o avô pastor, George Upton Krischke, escrevia todos os domingos no Correio do Povo. “Meu avô paterno era um cara de paz, escrevia muito. Um cara que vem da Alemanha e, no ano em que eu nasci, 1938, publica o livro Do Reto Uso de Preposição em Língua Portuguesa”. O mais surpreendente é que, do lado materno, Jair conviveu com um avô de origem espanhola, ateu, agitado, que dizia que “padres são homens de saia”. Jair conta que o avô materno era metidíssimo em política e vivia envolvido em revoluções gaudérias. Ele lembra da casa desse avô sempre muito frequentada, cuja mesa de jantar era enorme. “Pouquíssimos livros, ele não gostava de ler. Gostava de dar tiro”.

Talvez o equilíbrio entre esses dois universos tenha sido peça chave para que Jair assumisse uma posição de militância resistente, mas pacífica. Forte, porém preocupada. Dura, porém sensível. Talvez o absoluto senso de justiça que viveu e vive em Jair tenha sido consequência das hostilidades sofridas na infância. “Não sei se isso despertou em mim um desejo de lutar contra a discriminação. Um desejo de justiça. Bom, sei eu. Eu não tenho muito claro isso”. Fato é que o envolvimento com os Direitos Humanos acontece de forma muito natural, de modo que o próprio ativista não consegue demarcar. Quanto a vida profissional, o militante é categórico quando afirma que não é advogado e nem historiador, “sou apenas e tão somente um ativista dos direitos humanos. O que muito me orgulha”. Quando questionado sobre os anos pré envolvimento, Jair afirma que, por ser um dos fundadores do MJDH, sempre atuou no movimento, não houve um antes e depois. Apesar disso, ele conta que chegou a trabalhar formalmente com o pai, “um empresário bastante confortável, economicamente falando”.  Entre os anos 60 e 70, Jair também trabalhou em um programa da UNESCO, cujo suporte era considerável. Além da sua longa atuação no Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR).

Como uma primeira relação, ele cita a tentativa de golpe em 1961 e o envolvimento com a Campanha da Legalidade. Jair e o falecido irmão meteram-se nessa resistência, em frente ao Palácio Piratini, por um misto de ideologia política e o tal senso de justiça. Apesar de não ter sido filiado, Jair afirma que tinha uma relação bastante próxima com o Partido Comunista. “Uma parte da minha família, de Santa Maria da Boca do Monte, era historicamente comunista”. Quase como mais uma peça no quebra-cabeça, ele conta que o tio-avô foi do Estado Maior da Coluna Prestes.

"Nós da esquerda temos as nossas mazelas", diz Jair Krischke sobre a foto de 1987, na qual é identificado criminalmente
Foto: Arquivo pessoal. “Nós da esquerda temos as nossas mazelas”, diz Jair Krischke sobre a foto de 1987, na qual é identificado criminalmente

À medida que Jair, o contador de histórias, chega no capítulo da Ditadura Militar, as histórias tornam-se densas. O envolvimento político e social passa a ser cotidiano e constante. É com muita ênfase que o ativista afirma e destaca que é preciso sempre falar do grupo, e lembrar que ele é, por uma decisão coletiva, um porta-voz. O Movimento, que desde o nascimento se sustenta principalmente com contribuição de seus membros, sem nunca receber verbas públicas, começa a participar ativamente do processo de exílio para perseguidos políticos do Uruguai, Chile e Argentina. Especificamente durante o período da ditadura, o MJDH recebia muita ajuda do exterior, dentre elas do Misereor – instituição fundada pela Igreja Católica Alemã -, agências de solidariedade da Bélgica, França e Holanda, além de receber ressarcimento das despesas com refugiados, bancado pela ACNUR.

Na prática, a logística acontecia de maneiras absolutamente diversas. O contato inicial partia de muitas fontes, de familiares a companheiros, de telegramas a ligações telefônicas. A comunicação era sempre permeada de códigos. Passaportes tornavam-se lindas bicicletas na linguagem da resistência. A partir disso, buscava-se a vítima em algum lugar combinado utilizando sempre dois ou até três carros para completar o percurso. Em alguns casos, Jair conseguia organizar a entrada dos perseguidos como refugiados, em outros tudo era feito com muito sigilo. E até ser possível enviar a pessoa para outro país, o processo se dava de maneira extremamente pessoal. O militante abrigava as vítimas em casa de companheiros ou na sua própria.

Talvez por isso Jair mencione os amigos que fez pelo caminho com tanto carinho. Para ele, esse envolvimento que vai sendo criado com esse tipo de situação vai construindo uma consciência profunda. “A gente vai percebendo que essas pessoas perseguidas têm uma disponibilidade. São pessoas despojadas. Capazes de tirar a roupa para te dar. E esse convívio vai te tocando”. O trabalho, feito sempre em conjunto e em grupo, foi sinônimo de muito aprendizado. Em uma de suas histórias, ele cita a uruguaia Sara Youtchak, professora de filosofia presa pela repressão uruguaia por sua militância de esquerda. Duramente perseguida por ter atuado como secretária da Frente de Izquierda de Liberación (FIDEL), Sara ainda era namorada do encarregado pela imprensa da embaixada cubana em Montevidéo. Ela, segundo Jair, foi uma das pessoas mais torturadas com a qual teve contato, tendo sido submetida a 23 cirurgias reparatórias ao chegar na França, país de seu exílio. Mas, ainda hoje, o ativista recorda que a gargalhada de Sara é a mais gostosa que seus ouvidos já ouvira, “uma gargalhada saborosa, de quem tá de bem com a vida”.

Todavia, as pessoas maravilhosas com quem Jair criou laços durante a época não eram o único combustível para que ele mantivesse a sanidade. O militante tinha o hábito fazer uma promessa. “A cada manhã, eu prometia a mim mesmo: hoje não vou ficar paranoico. É uma promessa para 24 horas. Não vou ficar paranoico, não vou enlouquecer. No dia seguinte tinha que renovar, porque durava 24 horas”. O ativista recorda que, para agir, não poderia estar constantemente condicionado pelo sentimento de perseguição. “Se você começa a imaginar que, ao dobrar a esquina será preso… Fatalmente ficará paralisado”. A preocupação da família era, também, um fator muito presente. Mas apesar da constante apreensão, Jair conta que a família sempre o apoiou e esteve muito presente na luta. Com os olhos embargados, ele conta que, apesar os pais ficarem muito apreensivos, sempre tiveram muito orgulho do trabalho realizado por ele e pelo grupo. “Minha querida velhinha, minha mãe, dizia solenemente ‘eu morro de preocupação, mas foi o que ele escolheu. E se eu perder o meu filho nisso, ele morreu fazendo o que queria.” Isso, ele diz, dá uma força muito grande.

O envolvimento familiar não poderia ser diferente. Para Jair, o estar junto com a família é algo essencial. Unir os filhos sempre foi uma missão importante para o ativista, que ainda sofre com a profunda tristeza de ter perdido uma filha, há dois anos. O tempo foi curto entre o diagnóstico e o falecimento de Cris, que tinha 50 anos, e era mãe de quatro, dos doze netos de Jair: “Ela era muito querida, muito próxima à mim, era uma companheirona.” É com muito carinho que ele menciona a caçula desses quatro netos, Alessandra Aparecida, a Dica. Ela, ele diz, está sempre próxima à mim. Além dos netos, Jair já tem bisnetos a perder de vista. “Em São Borja eu tenho três. Não! Quatro em São Borja. Outros três bisnetos, aí tem a Maria Eduarda, que acabou de fazer 15 anos. Depois em Santo Anjo outros dois, e aqui mais três. É bastante”. E é pela percepção de que ´família a gente tem e não escolhe’, que Jair sempre regeu o próprio clã. Ele se diz imperativo quando o objetivo é resolver desentendimentos.

Hoje, o ativista colhe os frutos dos anos de chumbo. Como a história de quando recebeu em seu escritório a filha de um casal de exilados que ele ajudou a mandar para a Suécia. Jair lembra-se com carinho de contar à menina a história de quando o MJDH salvou seus pais, enquanto a mãe, que não participava de nenhuma militância e era perseguida apenas por ser filha de um militante Tupamaro, estava grávida. Em outro momento, o militante recorda-se dos temores da sua querida mãe e pensa que valeu a pena. O ativista viveu e vive uma vida dedicada às pessoas. Quando chegava em casa, o pequeno Jair não poderia imaginar que o tal padre do colégio São João estava certo: Ele iria ao inferno. Mas somente para buscar duas mil vidas e trazê-las de volta à Terra. Os anos e a experiência, como ele mesmo diz, lhe renderam histórias para não somente um, mas vários livros – plano que ele pretende levar para a aposentadoria, que ele planeja curtir em Florianópolis. Mas, por ora, ainda são planos. De acordo com ele, não tem porque, enquanto se tem saúde, não tem porque parar.

Jair Krischke foi agraciado com a Comenda de Direitos Humanos Dom Helder Câmara, do Senado Federal, em 2011.
Foto: Arquivo pessoal. Jair Krischke foi agraciado com a Comenda de Direitos Humanos Dom Helder Câmara, do Senado Federal, em 2011

E se engana quem pensa que, por conta da idade, Jair tem menos envolvimento com as causas. O cotidiano do ativista passa desde questões relacionadas a violência policial até a proteção a idosos abandonados por familiares. Ele afirma que, frequentemente, o Movimento se engaja em temas que, por não receberem atenção devida pelo Estado, precisam de uma “sacudida”. Dentre os exemplos mais relevantes, está o envolvimento na condenação da Editora Revisão e de seus livros neonazistas e a defesa de um grupo de índios que vive no Morro do Osso, em Porto Alegre, e reivindica a terra de seus ancestrais. Alguns pedidos mais estapafúrdios, como ele chama, acontecem uma vez ou outra, como, por exemplo, o pedido para a retirada de uma colmeia de abelhas em uma casa residencial.

Hoje, prestes a completar 78 anos, o ativista lembra do pai: “Quando alguém dizia ‘Fulano tem 20 anos de experiência’, meu pai sempre falava ‘São anos de experiência ou de repetição? ’”. Segundo Jair Krischke a diferença está no fato de que a experiência acumula, fazendo a pessoa avançar. E ele afirma sem dúvida: “Eu tenho feito isso. Eu tenho avançado”. Para além da experiência, o ativista acumulou histórias. Para cada pergunta, uma conto. Para cada tema, um enredo. São duas mil histórias, duas mil vidas salvas. Mas se Jair livrou 2 mil pessoas do inferno, quem salvou Jair?

“Isso não é pergunta que se faça. Até porque, não saberia te responder”.

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