Jornal Boca de Rua lança dossiê sobre violência contra sem-teto em POA

Caso de integrante do jornal Boca de Rua espancado diante de testemunhas está sob investigação desde março

  • Por: Rodrigo Oliveira | Foto: Joana Berwanger e Clara Godinho | 06/06/2017 | 0
Com o acréscimo de quatro páginas, a última edição do jornal Boca de Rua funciona como um dossiê da violência contra a população de rua da Capital. Foto: Clara Godinho
Com o acréscimo de quatro páginas, a última edição do jornal Boca de Rua funciona como um dossiê da violência contra a população de rua da Capital. Foto: Clara Godinho

Nas proximidades do estádio Beira-Rio, colorados ainda comemoravam a vitória sobre o São Paulo de Rio Grande pela oitava rodada do Campeonato Gaúcho. Rodrigo da Silva Veloso cantava em silêncio. Vestindo a camisa número 10 do clube, passou a noite de 18 de março vendendo jornais nas sinaleiras do bairro Cidade Baixa, conforme a rotina sugeria. O placar magro de um a zero era suficiente para pintar um sorriso amarelo em seu rosto, cessado violentamente pelo impacto de golpes na cabeça.

Segundo relatos de companheiros, após uma discussão ainda não esclarecida pela polícia, torcedores desceram de um ônibus fretado e espancaram Pelezinho, assim conhecido por causa da pele preta e da numeração que seguidamente estampava suas costas. Inconsciente, foi levado ao Hospital de Pronto-Socorro (HPS), onde permaneceu internado durante uma semana. Faleceu às 14h24 do dia 25 de março, vítima de um traumatismo intracraniano. Nenhum veículo de imprensa noticiou a sua morte.

O inspetor do Departamento de Homicídios Antônio Linde informa que a origem do ônibus é de Rio Grande e, devido a uma “burocracia interna entre as partes envolvidas”, o deslocamento até a cidade de origem do veículo e a restrição das diárias inviabilizariam uma ação mais direta da Brigada Militar. A delegada Roberta Bertoldo afirma ter posse dos nomes dos passageiros, mas diz que qualquer detalhe concedido pode interferir o andamento das investigações.

Amigo de Pelezinho do tempo em que viviam no bairro Restinga, antes de irem para a rua, José Luiz Straubichen lembra do parceiro como alguém que acordava cantando e não parava mais. Na época, partidas de futebol e risadas uniam a dupla. Anos depois, encontraram-se novamente na Aldeia, uma comunidade localizada atrás da Câmara dos Vereadores, próxima à Usina do Gasômetro. “Era um camarada que ficava cuidado das famílias quando a gente trabalhava no sinal. Correndo rango, fazendo uma comida, limpando o pátio”, recorda.

Ele faz questão de sublinhar o comprometimento de Pelezinho com a reciclagem e com o jornal Boca de Rua, uma publicação realizada e vendida integralmente por pessoas em situação de rua, onde havia começado a trabalhar cerca de dois meses antes de sua morte. O gari Jackson da Silva, que também integra a equipe de colaboradores do jornal e chegou a dividir um barraco com Pelezinho, conta que um homem não havia pago o valor de um exemplar vendido pelo companheiro na noite de sua morte. Desacreditado, ele teria jogado uma pedra no veículo de excursão que abrigava o devedor e outros torcedores. Passageiros vestidos de vermelho e branco desceram do veículo, em bando, e o violentaram com socos, chutes e pauladas de taco de beisebol.

Beiço Campos assina a edição mais recente do jornal Boca de Rua. Foto: Clara Godinho
Beiço Campos assina a edição mais recente do jornal Boca de Rua. Foto: Clara Godinho

Tratamento diferente
De forma alguma, a morte de Pelezinho configura um evento extraordinário. Conforme um levantamento informal realizado pelo jornal Boca de Rua, pelo menos dez casos de violência contra a população de rua foram registrados desde o início do ano. Entre as vítimas, estão sem-teto recém liberados de hospitais, idosos, mulheres e pessoas com deficiência.

“Em 16 anos de Boca de Rua, não vi nada semelhante em termos de gravidade e de quantidade”, compartilha a editora do jornal, Rosina Duarte. Ela explica que os agressores se dividem entre a polícia e a população civil. Existem relatos de milícias, queimas de barracos e agressões físicas por parte da própria população. Ainda, há a violência manifestada de maneira simbólica, quando as políticas públicas destinadas ao grupo enquadram o morador de rua a um único perfil: dependente químico vinculado ao tráfico.

Em março, uma situação extrema confrontou a agenda da grande mídia, chamando a atenção de jornais tradicionais da Capital. Dois dias após o espancamento de Pelezinho, diante dos poderes do céu e da terra, Paulo Ricardo Camargo de Oliveira foi assassinado. À luz do dia e o sob o registro de  câmeras de segurança, na Praça da Matriz, o cartunista e morador de rua Paulinho foi baleado enquanto descansava próximo à lona que o abrigava. Além das testemunhas que transitavam no local, um celular foi deixado pelo matador durante o momento da fuga. Até hoje, a polícia não divulgou o nome de nenhum suspeito.

Nas ruas, comenta-se que a execução foi motivada por um desentendimento da vítima com traficantes. Dono de uma personalidade de liderança, Paulinho se apresentava como patrão da Matriz para amigos e transeuntes. A atitude do cartunista, que, de fato, assumia um papel importante em sua comunidade, haveria despertado a atenção de traficantes da região. Nos jornais, sem menção a qualquer outra versão da história, a razão do crime aparece como provável acerto de contas, valorizando uma informação de que a Brigada Militar teria conversado com a vítima minutos antes e ela estaria em um estado “muito agitado”.

Para o presidente do Movimento de Justiça e Direitos Humanos (MJDH), Jair Krischke, há distinção na apuração sobre a autoria de qualquer tipo de violência: “Quando o autor e a vítima são pobres, nada se apura. No caso em que o autor seja de classe alta e a vítima um pobre, vale a mesma lógica. Ao fim e ao cabo, trata-se de uma questão de classe.” Ele diz que a violência contra a população de rua permanece sendo abordada pelas polícias com descaso. “Invariavelmente, são tratados como ‘não pessoa’. Aqueles que são destituídos de direitos.”

De acordo com a Agência Livre para a Informação, Cidadania e Educação (ALICE), 200 pessoas estavam presentes na Assembleia Legislativa debatendo a violência contra as pessoas que moram na rua. Foto: Joana Berwanger)
De acordo com a Agência Livre para a Informação, Cidadania e Educação (ALICE), 200 pessoas estavam presentes na Assembleia Legislativa debatendo a violência contra as pessoas que moram na rua. Foto: Joana Berwanger

Na manhã de 24 de maio, no auditório Dante Barone, com capacidade para 500 pessoas, na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, um comprometimento imediato em relação às demandas do grupo foi exigido pela população de rua. A audiência pública “O extermínio, as agressões e a falta de políticas públicas para o povo da rua” foi aprovada por dez deputados, precisando de apenas sete. “Nunca eles abriram aquele salão enorme para morador de rua”, lembra Rosina Duarte.

Segundo informações da Agência Livre para a Informação, Cidadania e Educação (ALICE), solicitantes da audiência junto ao jornal Boca de Rua e ao Movimento Nacional da População de Rua/RS, aproximadamente 200 moradores de rua preencheram a sessão que contou com a presença da representante da Fundação de Assistência Social e Cidadania (FASC), do Poder Judiciário, do Ministério Público e da Polícia Civil.

Apesar de convidada, a Secretaria Estadual da Segurança Pública não compareceu ao debate. Sua assessoria explica a ausência em razão de “compromissos previamente agendados da pasta”. No entanto, através de uma representante, reitera participar ativamente das reuniões do Comitê População de Rua, encaminhando as demandas aos órgãos adequados. Para a Secretaria, o termo ‘extermínio’, conforme indica o título da Audiência Pública, “não reflete a realidade e não demonstra adequação ao tema proposto.”

A última edição do jornal Boca de Rua, que contém 16 páginas, quatro a mais em relação ao usual, serviu de subsídio para colocar em prática a Audiência e contribuiu para novos depoimentos dos presentes. Próximo ao fim, o presidente da Comissão se comprometeu a conduzir as denúncias à Brigada Militar e a cobrar informações sobre as investigações dos assassinatos junto à Polícia Civil.

Titular da 1ª Delegacia de Polícia de Porto Alegre, o delegado Paulo César Jardim diz que “não existem índices acentuados de registros de ocorrência de violência contra moradores de rua praticados por pessoas que não moram na rua.” Para ele, as brigas envolvem, em sua maioria, a população de rua, sendo motivadas por falta de alimento ou por relacionamentos afetivos. “O tratamento é diferente, porque eles também são diferentes”, aponta.

Realizada na Escola Porto Alegre, a última reunião semanal do Boca de Rua contou com a presença de 20 convidados, incluindo representantes de movimentos apoiadores. De acordo com a editora da publicação, Rosina Duarte, foi realizado um pacto para criar um plano de enfrentamento imediato com estratégias que contemplem as solicitações do grupo.

Os textos, imagens, áudios e outros materiais oferecidos pela Agência J são distribuídos sob a licença Creative Commons – Atribuição-SemDerivados 3.0 Não Adaptada. O material pode ser usado para qualquer fim jornalístico, desde que seja publicado na íntegra, sem modificações, e seja atribuído ao(s) autor(es) conforme o seguinte modelo: Nome do Autor ou autores (Famecos/PUCRS). A produção da Agência J pode ser acompanhada via newsletter, enviada semanalmente com materiais jornalísticos inéditos. Assine a newsletter neste link.