Mães detentas relatam como é criar filhos pequenos dentro do presídio

Filhos de detentas sofrem com a separação e a ausência das mães

  • Por: Fernanda Peña e Fernanda Souza | Foto: Annie Castro | 21/09/2016 | 0
Presa por tráfico, Mayara tenta reduzir sua pena para ficar com suas filhas
Presa por tráfico tenta reduzir sua pena para ficar com suas filhas

A aparência do prédio localizado no bairro Teresópolis, Zona Sul de Porto Alegre, pode ser confundida com a de um ambiente escolar, mas os corredores cor de rosa com desenhos estampados nas paredes do Madre Pelletier denunciam a angústia de quem sabe que terá que se despedir. Não poder presenciar o crescimento dos filhos já se tornou uma realidade para mulheres que perderam a liberdade e o convívio diário com a família.

Ana* tem 11 meses e seus primeiros passos foram dados dentro do cárcere em função do crime da mãe. Maria chegou à penitenciária em junho de 2015 aos seis meses de gestação por tráfico de drogas. Com o marido preso pelo mesmo motivo, a mulher de 28 anos encontrou na venda de entorpecentes o sustento familiar. “Eu tenho uma filha de nove anos de uma outra relação. Com a prisão do meu marido, nós começamos a passar necessidades. Como havíamos alugado a casa de um traficante, decidi começar a vender drogas para ganhar dinheiro”, relatou.

Maria foi condenada a cinco anos de prisão. Após um ano e três meses de pena, sua maior preocupação são as filhas. A mais velha vive com a avó e o padrasto, que já cumpriu sua condenação, mas a falta da mãe vem causando problemas psicológicos à menina. “No começo ela entendeu, mas agora, com a chegada da bebê, ela passou a ter dificuldades na escola, esquece das coisas, ficou mais rebelde e está com a cabeça abalada”, conta a mãe, emocionada. Luiza a visita esporadicamente, mas Maria prefere assim. “Não gosto muito que a minha filha venha aqui, tem muita burocracia e não é um lugar adequado para ela”.

Arrependida do que fez, a detenta passa por outro dilema com a segunda filha. Ana ainda não fala, mas balbucia sons na tentativa de se comunicar com a mãe. A menina é esperta, risonha e acomoda-se no colo de Maria como se estivesse em seu próprio berço. Mesmo assim, não se nega a ficar com a nossa fotógrafa Annie Castro durante a conversa.

Mayara se prepara para ficar longe da filha pequena, que em breve completará um ano de vida
Detenta se prepara para ficar longe da filha pequena, que em breve completará um ano de vida

Ana sente-se à vontade e brinca com as demais crianças como se estivesse na creche. Porém, ela está prestes a completar um ano de vida, idade máxima estipulada para a criança ficar com a mãe presidiária, segundo determinação do sistema judiciário. Após esse período, as crianças são entregues às famílias. Mesmo assim, Maria decidiu antecipar a saída da menina. “Aqui o espaço é limitado. Quando ela passa o final de semana fora, ela volta mais esperta”. Além disso, ela quer que sua filha conheça o mundo lá fora. “Para vocês pode parecer bobagem, mas eu gostaria que a Ana pudesse conhecer o gosto de uma bolacha recheada. E aqui isso não é possível”, lamentou.

Denise, de 23 anos, vive o mesmo drama de Maria. Mãe aos 15 anos, decidiu seguir pelo mundo do crime para dar uma vida melhor para Lucas, seu primeiro filho, hoje com oito anos. A detenta chegou a trabalhar com carteira assinada em um posto de gasolina da Capital na área de serviços gerais. No entanto, após observar conhecidas realizando furtos em lojas de departamento, Denise escolheu substituir o trabalho honesto pelo dinheiro fácil. “Eu não me arrependo do que eu fiz. Pelo menos assim nunca faltou nada para o meu filho”, explicou.

A detenta foi presa em flagrante há seis meses no município de Sapiranga – localizado há 61 quilômetros de Porto Alegre. Desde então ela não vê o menino, que nem imagina que a mãe está presa. “O Lucas acha que eu estou internada no hospital. Ele sempre pergunta quando eu vou melhorar para poder me dar um abraço”. Denise se emocionou ao falar do filho. Enxugou as lágrimas e completou: “É muito difícil ficar longe dele Eu sinto muita falta.” Ao contrário do irmão, João, de apenas dois meses, vive com ela na penitenciária desde o nascimento.

O marido de Denise trabalha no Mercado Público como vendedor e nunca apoiou as atitudes da mulher. Ela contou que o companheiro sempre a incentivou a trabalhar e a ter uma vida correta. “Ele sempre me alertou, mas eu nunca escutei”, disse. A presidiária aguarda o julgamento da pena para definir seu futuro, mas está confiante de que sairá do presídio junto com o pequeno João. “Meu crime não foi tão grave assim. Não devo pegar uma pena tão alta”.

Segundo dados divulgados pela diretora substituta Sabrina Varoni Nunes, o Madre Pelletier comporta 239 presas. No entanto, existem 11 detentas acima da capacidade, totalizando 250 no local. Já na área materno infantil, estão acomodadas, atualmente, cinco mulheres com filhos abaixo da idade máxima de permanência e oito gestantes. Três delas estão com partos previstos para o mês de setembro.

O espaço oferecido às mães lembra um jardim de infância. Brinquedos espalhados pelo chão são um convite para as crianças. Elas se divertem no alojamento protegidas por um tapete e vivem a condenação juntamente das mães. O ambiente tem capacidade para acomodar 20 mulheres, entre mães com bebês e grávidas. Conforme Sabrina, a gestação garante que elas recebam um tratamento diferenciado das demais presidiárias.

Além de obterem um acompanhamento nutricional, elas são instaladas no alojamento – espaço adaptado para o acolhimento de grávidas e mães com recém nascidos – por um mês e 10 dias. Após este período, são encaminhadas a Unidade Materno-infantil da Penitenciária de Guaíba, onde ficam durante cinco meses, salvo situações excepcionais. Como é o caso de Denise. A detenta não foi transferida para o presídio feminino de Guaíba em consequência de uma divergência com outra reclusa do local.

A estrutura do Madre Pelletier nem sempre foi apropriada para acolher mães e seus filhos. Reportagem de 2013 veiculada na RBS TV mostra uma situação contrária ao que se pode ser observado atualmente. O presídio apresentava problemas de capacidade para atender ao elevado número de gestantes que havia na penitenciária. Além disso, o alojamento era improvisado, frio e com fiações comprometidas, inviabilizando o funcionamento de ar-condicionados.

Segundo a diretora substituta, com a mudança de gestão é possível perceber progressos significativos na prisão. “Em razão do plano da atual direção percebe-se melhorias na estrutura e dos procedimentos adotados, no que é possível com os recursos que são disponíveis”, salientou. A detenta Maria concorda com a afirmação. “Mesmo com um espaço de 4 metros quadrados, minha cela é muito boa e bonita. É disponibilizada uma cama, um berço, dois armários, banheiro e até uma TV de plasma”, sorri a detenta.

*Os nomes verdadeiros das crianças e das detentas foram preservados.

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