Entre o berço e sala de aula

Mães adolescentes se desdobram para cuidar dos filhos e evitar a evasão escolar

  • Por: Edna Alves e Matheus Cabral | 03/06/2016 | 0

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Em meio a um turbilhão de sentimentos, julgamentos e responsabilidades, elas resistiram. Conforme o último levantamento em 2013, do Movimento Todos pela Educação, com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), atualmente no Brasil, 75% das adolescentes que têm filhos acabam saindo da escola. Contudo, as outras 25% das jovens que se tornaram mães na adolescência, mesmo com todos as dificuldades, conseguiram seguir os estudos com a gravidez inesperada.

De acordo com informações do Conselho Estadual dos Direitos da Criança e do Adolescente (Cedica), é assegurado às estudantes em estado de gravidez o direito à prestação dos exames finais. Isto é, a partir do oitavo mês de gestação e durante os três meses seguintes ao nascimento do bebê, a estudante ficará assistida pelo regime de exercícios domiciliares, instituído pelo Decreto-lei número 1.044, de 21 de outubro de 1969. De acordo com a Lei Federal, o início e o fim do período em que é permitido o afastamento serão determinados por atestado médico a ser apresentado à direção da escola. Garantia essa assegurada na Declaração Universal dos Direitos Humanos, no qual o artigo 3º cita todas as pessoas tendo direito à vida de outrem.

Maria Eduarda tinha 16 anos e estava no primeiro ano do ensino médio quando o teste de gravidez apontou positivo. A jovem, que mora no Interior, ainda estava em fase de aprendizado em relação ao próprio corpo quando se viu desesperada e com muito medo de tudo que ainda estava por vir: uma menina nos braços de outra menina. Essa seria a nova rotina de Eduarda. Ela logo se deu conta e percebeu a responsabilidade que iria arcar a partir daquele momento: “Eu sabia que tudo que eu fosse fazer ou tivesse vontade teria que pensar no bem dela primeiro”. Com a mudança repentina e todos os deveres de criar a filha Lavínia, a primeira coisa que Maria Eduarda pensou foi em largar os estudos. Porém, com o apoio das famílias, a jovem se manteve na escola. Hoje cursa o terceiro ano do ensino médio. “Sei que no começo é muito difícil, mas se eu pudesse dar um conselho para as meninas que passaram e passam pelo que eu vivi, seria de que elas continuem estudando”.

Caso semelhante é o de Renatta Dorneles. Ela é mãe de duas meninas e teve as filhas em período distintos da vida: a primeira, Manuela, hoje com seis anos, em 2009, quando estava no ensino médio e, mais recentemente, em 2014, a Bruna, de 10 meses, no penúltimo ano da faculdade. As meninas são de diferentes pais. “Na minha primeira gestação, o pai foi presente desde o positivo do teste, até mesmo na sala de parto”. Já a segunda gestação ela cita os impasses vividos com seu ex companheiro: “Eu posso dizer, com todas as letras, que foi horrível. Não pelo bebê, mas pela situação. O pai não foi uma figura presente. Nos separamos nos primeiros meses e não me deu nenhum tipo de apoio”, relembra.

Renatta ainda analisa cada gestação e a relação com os estudos. “Tive aquele período para me dedicar ao bebê e, depois, voltar às instituições de ensino. Fiz isso com o coração na mão, pois eram as primeiras vezes que me separaria por mais tempo das meninas”, recorda. Como diferenças, ela aborda a questão da presença do pai da sua primeira filha no auxílio no cuidado à filha, que trabalhava em período oposto aos de seus estudos. “Isso foi importante tanto para mim quanto para ela”. A mãe de segunda viagem afirma que o esforço de continuar estudando, no fim, compensa. “Concilio os estudos a partir de uma dinâmica simples: quando o bebê dorme, corro para os livros. Pode ser difícil, mas a recompensa vem com o diploma”.

Conforme Thomás Nunes Ribeiro, psicólogo no Centro de Referência da Assistência Social (Cras) da cidade de Minas do Leão, a família é peça fundamental durante a gestação da adolescente, pois é ela que será o alicerce para que possa haver o desenvolvimento da gestação e futuramente da criança. “Trabalhar o vínculo da adolescente com a família e com o próprio bebê é uma das formas de garantir saúde e um desenvolvimento pleno. A família também deve estar orientada para que não deixe a adolescente abandonar suas atividades diárias, como escola ou trabalho. Não se pode entender uma gravidez como algo que vai impossibilitar alguém”, disse.

Renatta, que sempre teve o apoio da família nas duas gestações, destaca o papel das instituições de ensino nesse período. Ela admite que pensou em cancelar a matrícula quando ficou grávida pela primeira vez. Mas foi impedida pela psicóloga do colégio. “Com muita conversa e carinho, ela me convenceu de que seguir os estudos era o melhor naquele momento”.

Além de ter programas voltados para a prevenção de situações como essas, o psicólogo considera que a escola também deve orientar a adolescente sobre saúde, direitos, responsabilidades e tudo o que acompanha uma gravidez. Contatada pela reportagem da Agência de Reportagem J, a assessoria da Secretaria de Educação do Rio Grande do Sul  garante que não há estudos específicos no Rio Grande do Sul sobre a evasão escolar relacionada à gravidez de adolescentes.

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