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CIÊNCIA • 22 de maio de 2017
Pesquisa recente revela aumento da participação de mulheres brasileiras nas diferentes áreas de pesquisa. Elas já representam 49% entre todos os pesquisadores do país
Texto: Leticia Alano

As mulheres representam 49% dos pesquisadores no Brasil, segundo estudo do instituto Elsevier. A taxa representa uma melhora de 11% do levantamento anterior, feito entre 1996 e 2000, contra o mais recente, de 2011 a 2015. A pesquisa foi publicada junto com a primeira fase da edição de 2017 do prêmio da UNESCO Para Mulheres na Ciência. O 12º Prêmio da Organização Mundial das Nações Unidas (ONU), proposto pela Unesco, o braço da ONU para a Educação, a Ciência e a Cultura, celebra as pesquisadoras brasileiras que fazem a diferença no ambiente acadêmico. A premiação, que mundialmente já está em sua 19ª edição, busca dar mais atenção ao tema, com o objetivo de ampliar a participação feminina no meio científico.

A pesquisadora do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), professora titular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e membro titular da Academia Brasileira de Ciências, Márcia Barbosa, tem experiência na área de Física, com foco em questões que envolvem soluções aquosas, água e suas anomalias. Ela venceu o prêmio internacional Para Mulheres na Ciência (For Women in Science) em 2013, ano em que também passou a ser jurada na versão nacional, além de ter integrado o júri global em 2005, 2007 e 2009. “Ele te dá uma visibilidade imensa. Há uma campanha publicitária em torno do prêmio, permitindo que as mulheres relatem o que tão fazendo, mostrando que é possível ser cientista sendo uma pessoa comum, que tem família, que se diverte, que pode fazer todas as coisas que as outras pessoas fazem. Desmistificando um pouco essa ideia de que cientistas têm que ser nerd, esquisito, uma pessoa que abandona todas as outras coisas para ser cientista”.

Foto da Professora Márcia Barbosa. Crédito: Alicia Porto

Márcia Barbosa estuda a representatividade das mulheres na ciência. Crédito: Alicia Porto

Márcia Barbosa é muito engajada na questão do gênero na ciência, especialmente no contexto nacional, e explica como o prêmio ajuda a esclarecer diversos pontos sobre essa questão. “O cenário no Brasil é um cenário de ‘não tem problema’, as pessoas acham isso, portanto não há levantamento de dados, as agências não têm políticas de ações afirmativas”. Para reverter o quadro, nos últimos anos, a pesquisadora tem feito levantamentos de dados autonomamente. Com cerca de 20 estudos publicados sobre o assunto, ela percebeu, através de dados do CNPq, órgão que incentiva o desenvolvimento nacional e o reconhecimento das instituições e pesquisadores e que também financia bolsas de estudo, que as mulheres decaem o percentual na medida que elas avançam na carreira. “Por exemplo, na Física, as pesquisadoras representam 12% entre todos os bolsistas. Ou seja, numa sala com cem pessoas, 12 são mulheres. Quando chega no topo da carreira, são 5%”. Segundo a pesquisadora, os números também são preocupantes na academia, chegando aos 2%, e o fenômeno acontece em todas áreas, inclusive naquelas em que as mulheres já são maioria, como a Medicina. “O decréscimo é uma realidade. Algumas áreas, como a Física, são piores, porque não só o decréscimo tem problema, como a própria entrada é muito baixa, não chega a 20% nos cursos de graduação. Analisamos os últimos 10 anos e não houve alteração. Os números não estão melhorando”.

A falta de informação sobre o assunto é um dos maiores problemas para a mudança do cenário de desigualdade entre pesquisadores e pesquisadoras. Não é fácil encontrar dados a este respeito, mesmo quando procurados em grandes institutos que pesquisam temas deste universo. Mas há investigações independentes, como Editorial J, da Faculdade de Comunicação Social (Famecos) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). O laboratório de Jornalismo realizou um levantamento sobre a presença das mulheres no corpo acadêmico de quatro universidades do Rio Grande do Sul. PUCRS, UFRGS, Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e Universidade de Caxias do Sul (UCS) têm, respectivamente, taxas de 46%, 34%, 45% e 48% de professoras em seu corpo docente.

A Elsevier é a maior editora de literatura médica e científica do mundo e realizou a pesquisa mais recente sobre o assunto, Gender in the Global Research Landscape, analisando 20 anos, 12 localidades e 27 áreas de assunto. O estudo revelou que Brasil, junto com Estados Unidos, União Europeia, Reino Unido, Canadá, Austrália, França, Dinamarca e Portugal, nove dos 12 países e regiões analisados, conseguiram superar os 40%, representando a melhora mais significativa ao longo do tempo. Países como Japão, com 20%, Chile e México, com 38%, obtiveram as menores taxas, não passando dos 5% de aumento desde a última pesquisa. O Brasil está posicionado em primeiro lugar junto com Portugal no último levantamento. Entretanto, a melhora portuguesa, de 8%, não acompanhou a melhora brasileira, que foi de 11%. Nesse sentido, pode-se dizer que ainda há muito espaço para evoluir, inclusive no contexto global.

Na pesquisa foi observado que, no Brasil, o campo mais pesquisado por mulheres é o da Medicina, seguido por Agricultura e Ciências Biológicas, e a Bioquímica, Genética e Biologia Molecular. Essa tendência também é acompanhada pelos pesquisadores, apenas em proporções menos distantes, enquanto para pesquisadoras as taxas são de 24%, 12% e 10% respectivamente, para os homens elas são de 17%, 10% e 8%. Na área de Enfermagem, as mulheres já são mais de 60% entre os pesquisadores, o que reflete na prática da profissão. Esse fenômeno também é observado mundialmente, em países como Austrália, Canadá, Portugal e Estados Unidos.

Adriane Ribeiro Rosa é professora de Farmacologia e do Programa de Pós-Graduação em Psiquiatria na UFRGS, ganhou o prêmio Para Mulheres na Ciência em 2013, na área de ciências biomédicas. “O prêmio é sensacional, por valorizar a ciência no Brasil e por evidenciar a importância da mulher nesse contexto. Para mim foi um impulso, foi um vamos lá, vamos seguir em frente, seguir pesquisando que vale a pena”. Adriane também é pesquisadora do Hospital de Clínicas de Porto Alegre. Realizou Doutorado-Sanduíche pela UFRGS e Universidade de Barcelona, Espanha, e Pós-Doutorado no Instituto de Neurociências do Hospital Clínico de Barcelona. “Nacionalmente ainda há uma disparidade entre homens e mulheres na ciência. Acho que a gente tem que assumir um pouco mais essas posições, não somente na pesquisa como na gestão em geral, temos que assumir o nosso papel e mostrar mais uma igualdade e competência”.

Raquel Giulian é bacharel em Física pela UFRGS, onde também fez mestrado, e cursou doutorado na Australian National University. Atua com ênfase em Física da Matéria Condensada. Raquel venceu o prêmio na edição de 2013 pelo seu trabalho na física. “Se eu fui escolhida [no prêmio] pelo o que fiz no currículo, pelas publicações, por exemplo, era porque eu estava trabalhando lá [Austrália]. Eu tive um privilégio, parte é meu empenho, mas parte era o fato de eu estar lá. Porque outras pesquisadoras estando aqui no Brasil, com talvez a mesma competência que eu, mas em um lugar que tem muita dificuldade financeira, não têm condições de publicar, de trabalhar, de viajar, de participar de conferências. Então, acho que isso fez toda a diferença”.

Professora Raquel Giulian. Crédito: Clara Godinho

Raquel Giulian venceu o prêmio Para Mulheres na Ciência em 2013. Crédito: Clara Godinho

O grande problema é que o país se enquadra em outra característica bastante negativa, justamente relacionada com a intencionalidade, junto com outras quatro localidades, as pesquisadoras se mostram menos móveis internacionalmente que os homens, ou seja, não têm tanto de seu trabalho exposto fora do país. Os números para essa parte da pesquisa mostram que na mobilidade dos pesquisadores brasileiros, apenas 40% são mulheres. Os conceitos de migração para o instituto funcionam baseados com a quantidade, localidade e periodicidade das publicações científicas. Há de se pensar que se há menos mobilidade há maior dificuldade em exercitar práticas de networking e de colaboração, o que consequentemente engessa a carreira das cientistas.

Segundo a professora Márcia Barbosa, um desses obstáculos é a maternidade, mas um outro fator muito importante são os julgamentos. “Teve um recente estudo internacional que mostra que quando as pessoas avaliam as publicações nas revistas, se o nome da mesma publicação for trocado de homem para mulher, a avaliação muda. Ou seja, nós, como avaliadores, temos preconceito, e se nós não temos consciência disso, nós mantemos o quadro”, explica a pesquisadora. “Precisamos questionar o fato de que muitas das associações e do networking são feitos em ambientes fora do local de trabalho, no bar, no futebol, e isso leva a uma certa exclusão. Que o fato de que as mulheres têm que conciliar carreira e família faz com que elas não participem de uma série de fóruns informais que geram poder.”

“Não temos incentivo nem para homens nem para mulheres. Quem entra na ciência, entra porque gosta. Não é uma profissão rentável, é muito difícil se inserir no mercado de trabalho. E para as mulheres é particularmente difícil. É uma área que envolve muitas horas, muito tempo, e considerando a dupla jornada de trabalho, que quase todas as mulheres têm, ela se torna muito mais difícil”, explica a bióloga Mara Helena Hutz, doutora em Genética e Biologia Molecular e professora titular do Departamento de Genética da UFRGS e integrante da Academia Brasileira de Ciência. Ela cursou pós-doutorado na Division of Pediatric Genetics na Johns Hopkins School of Medicine, e integra o júri do prêmio nacional Para Mulheres. “A ciência sempre tem um lado avaliativo. Além de ser jurada nesse prêmio, eu participo no comitê assessor do CNPq, que julga bolsas e recursos para a pesquisa. Esse processo de avaliação é muito duro, é difícil. Ele envolve escolhas, sempre tem alguém que vai ficar chateado com a gente porque não foi escolhido, mas outros vão ficar felizes.”

Mara Helena Hutz. Crédito: Wellinton Almeida

“Quem entra na ciência, entra porque gosta”, diz Mara Helena Hutz. Crédito: Wellinton Almeida

Problemas de gênero influenciam a maioria dos aspectos da sociedade e da vida cotidiana. A relevância da discussão sobre o assunto é globalmente reconhecida através da realização de pesquisas, sejam elas mundiais, regionais ou de iniciativas locais. Essas propostas são levantadas buscando meios para diminuir as disparidades entre homens e mulheres e buscar maior representação e democracia não só na ciência, mas em todos os âmbitos da vida humana. Projetos como o prêmio L’Oréal UNESCO ABC Para Mulheres na Ciência são muito importantes para afirmar que o mundo precisa de ciência, e a ciência precisa de mulheres. Somente a premiação não é suficiente para mudar um cenário enraizado em problemas que ultrapassam a área científica. Ações afirmativas e propostas de incentivo devem ser pensadas para possibilitar a entrada e permanência das pesquisadoras no meio acadêmico.

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