mães solo

Não há ninguém perto de você

Mulheres contam sobre obstáculos da maternidade para além das questões financeiras, como exclusão social, solidão e julgamentos com que lidam diariamente

  • Por: Sofia Lungui (5º sem.) | 25/04/2018 | 0

Carina, 37 anos, é faxineira e cozinheira. É mãe e pai. Viveu com o ex-marido por quase 20 anos, mas criou sozinha os quatro filhos que teve com ele. Sem o suporte da família, vivendo na periferia do bairro Getúlio Vargas, em Pelotas, no Rio Grande do Sul, trabalhou duro para sustentar e alimentar o companheiro, seu filho mais velho, de 20 anos, o outro de 18, a filha de 15 e o mais novo, que possui um grau de autismo e está com nove anos. O pai das crianças nunca lhes deu assistência financeira ou afetiva e roubava dinheiro da esposa para comprar drogas. Nas vezes em que a situação apertava, Carina chegou a pedir comida aos vizinhos para que os filhos não passassem fome. O caso de Carina (o verdadeiro nome foi preservado) parece algo incomum no Brasil, mas é a realidade de muitas mães solo.

Conforme pesquisa de 2015 do Instituto Data Popular, existem mais de 67 milhões de mães no Brasil – dessas, cerca de 20 milhões são mães solo. O estado civil da mulher é associado, muitas vezes, à maternidade, embora uma coisa não tenha relação alguma com a outra. A expressão “mãe solteira” contribui para propagar essa visão. Mães solo são aquelas que têm filhos, mas são separadas, viúvas ou nunca foram casadas com o genitor. No entanto, podem estar em relacionamento afetivo ou casadas com outra pessoa. Mães solteiras são mulheres com filhos que não estão envolvidas em relacionamento algum.

mães solo

Essa confusão entre “solo” e “solteira” ocorre especialmente porque a maternidade é vista como um estado civil, segundo Fernanda Teixeira, professora de Língua Portuguesa e Literatura e estudiosa da temática da maternidade dentro da estrutura social. “Perante a sociedade, a coisa que precisa ser colocada em primeiro lugar é o ‘eu sou mãe’. Passa a ser um estado civil, e esse estado pressupõe que se tenha um genitor ao lado. Eu, por exemplo, sou mãe solo porque sou mãe do Alexandre, não vivo em matrimônio com o pai dele mas vivo um outro relacionamento”, explica a pesquisadora, que reside em São Carlos, Santa Catarina.

No Dia das Mães de 2017, Fernanda, que decidiu se separar do pai de seu filho porque eles tinham um relacionamento abusivo, levantou no Facebook o debate sobre a maternidade solo no Brasil. Na data, circulou na rede social um texto de Fernanda sobre experimento social que ela realizou. Após algumas leituras sobre o tema, a professora e uma amiga, que é socióloga, conversaram com diversos homens no Tinder, aplicativo popular de relacionamentos no país. Definiram previamente a linha de texto básica para as conversas, permitindo que os interlocutores falassem mais, a faixa etária destes interlocutores (de 24 a 34 anos) e traçaram os perfis a serem usados. A foto de Fernanda no app foi produzida de forma a ser atraente, com o busto desnudo e muita maquiagem, para que elas conseguissem muitas combinações – no aplicativo, o chat só é liberado quando se tem uma combinação entre as duas pessoas, o chamado match.

O primeiro perfil, sem descrição alguma, somente com a foto, circulou por três semanas no Tinder. Em nenhum momento foi citado que Fernanda era mãe. Não houve diálogos ofensivos ou nada que gerasse constrangimento. No outro perfil lançado na rede foi usada a mesma foto, mas este continha a segui     nte descrição: “Fernanda, 27 anos. Mãe. Professora. Militante. Feminista. Amor à culinária, literatura e aos amigos. Ódio ao capital e aos de coração raso”. Em nenhum momento o filho de Fernanda foi exposto. Esse perfil girou no app por uma semana, antes do Dia das Mães. O resultado das conversas trouxe muitas dores de cabeça à professora.

Nos diálogos, Fernanda foi criticada e insultada pela grande maioria dos quase 100 interlocutores no aplicativo, que a acusaram de ser irresponsável com a criança, desesperada na busca por relacionamentos, carente de um pai para os filhos e instável financeiramente, além de sofrer fetichização por conta da amamentação, segundo ela. O texto que publicou no Facebook para divulgar a experiência já alcançou mais de 80 mil pessoas – muito além do que ela pensou que iria repercutir, abalando-a psicologicamente devido às críticas que recebeu. “Acredito que as mulheres que são mães solo e não sofreram esses julgamentos não querem ter essa consciência ou não sabem que passaram por isso. A maioria das mensagens que recebi era de mulheres contando que ocorria o mesmo com elas. Era algo do Brasil inteiro. Não tem como dizer que é pontual”. Abaixo, um dos trechos de conversa no Tinder publicado por Fernanda:

 

Markus – 25 anos

– vc tem com quem deixar a criança? n sou chegado, mas achei vc gata.

– oi? tu n é chegado em que?

– Filho dos outros kkk

– Tu tem a foto com uma criança!!!!

– É meu afilhado.

– Pra chamar mulher?

 

O diálogo, divulgado por ela na web, ilustra uma relação complexa desigual. Maternidade solo e paternidade solo são vistos de formas distintas socialmente. As diferenças parecem girar em torno do fato de que as responsabilidades são jogadas em cima da mãe, majoritariamente. A mulher é vista como a principal responsável pela criança. “As pessoas dizem ‘ele não estava pronto para ser pai’. Alguém me perguntou se eu estava pronta para ser mãe? Eu nunca tinha tido filho, não queria filho, não me via como mãe ainda. Não nasci pronta para isso só porque sou mulher”, conta Edna Alves, 24 anos, de Butiá, no Rio Grande do Sul. Para ela, o pai tem tanta responsabilidade sobre a criança quanto a mãe, mas não foi assim com ela.

Jornalista e mãe da Antônia, três anos, Edna e o pai de sua filha romperam o namoro quando a criança tinha cinco meses. Para dar conta da vida com um bebê, ela teve de abrir mão de muitas coisas. Chegou a suspender os estudos na faculdade e passou a ficar quase todo o tempo em casa. Na vida do ex-namorado, segundo Edna, quase nada mudou. Ele continuou saindo com os amigos para beber e jogar futebol. Ela relata que o ex-companheiro paga pensão, mas é um pai ausente. “A Justiça pode cobrar dinheiro e presença, mas não tem como cobrar amor. Existe um machismo, uma crença de que a mulher tem que abrir mão de tudo”, afirma Edna. Há dez meses, ela vive com um novo parceiro, que cuida de Antônia como se fosse sua própria filha. Desde então, ela não se considera mais uma mãe solo, pelo fato de ter suporte financeiro e afetivo de seu namorado na criação da filha.

A pesquisadora Fernanda Teixeira acredita que é mais difícil para as mulheres serem consideradas boas mães, diferentemente dos pais. “São poucas as mulheres que são consideradas boas mães. Para a mulher ser uma boa mãe ela tem que abdicar de sua própria vida. As obrigações civis e sociais passam a ser exclusivamente em cima da maternidade”, explica.

O fato de homens pagarem pensão alimentícia, muitas vezes, é confundido socialmente como um ato de um bom pai. Mas é apenas um dever, uma obrigação. “Uma criança não vive só de dinheiro”, critica Edna. O mesmo parece acontecer com a faxineira e cozinheira Carina. Segundo ela, o ex-marido é visto como um bom pai. “Hoje em dia ele diz que os filhos são tudo para ele. Mas quem conviveu sabe que não é assim. Quando cheguei para morar no Getúlio, na periferia de Pelotas, ele não me deixava conversar com os vizinhos porque não queria que as pessoas soubessem que eu bancava a casa, que eu que dava o dinheiro pra ele sair e fumar maconha. Criei todos sozinha”, desabafa.

A história da maternidade de Carina começou aos 16 anos, quando foi morar com o antigo parceiro, que tinha 24 anos. Em pouco tempo, ficou grávida pela primeira vez. Sair de casa para tentar construir a própria vida foi um alívio para Carina, que sofria com as agressões do pai alcoólatra. Ela engravidou outras três vezes. Com o tempo, porém, acabou deparando com a maternidade solo. Assim como o antigo namorado de Edna, o ex-marido de Carina prometeu assumir os filhos. Na prática, ele nunca os criou. “Se ele foi em dois conselhos de classe na escola foi muito. Quando dava dinheiro, me dava 20 reais por mês. Isso não é nada para quatro crianças. Sempre fui uma mãe sozinha. Ele dizia para eu me virar”, conta Carina. Cerca de três anos após o nascimento do último filho do casal, em 2011, eles se separaram.

Atualmente, ela ainda vive na periferia de Pelotas com os filhos, longe do ex-marido. Ele não vê as crianças com frequência. Entretanto, quer a guarda delas. Carina não quer perder a guarda e nem ter guarda compartilhada, pois sabe que ele não irá cuidar dos filhos – ele nunca cuidou, segundo ela. “Crio muito bem meus filhos. Trabalho em casa, faço salgados e vendo. Não falta nada a eles. Posso não ter faculdade e estudo, fiz até a 5ª série, mas tenho estudo da vida. Não tenho como dar celular de marca, mas eles têm o necessário, um bom caderno para estudar e caneta”, afirma, orgulhosa.

No Facebook, em grupos de mães solo, mulheres de todo o país desabafam sobre os obstáculos da maternidade solo, questionam umas às outras, tentam sanar dúvidas, fazem enquetes, queixas e brincadeiras. “Desabafos de mães solteiras”, “Mulheres separadas, divorciadas, viúvas e mães solteiras” e “Desabafos de uma Mãe Solo” são alguns dos maiores grupos com esse objetivo na rede social. Vanessa Bueno, 35 anos, de Cruzeiro, São Paulo, é integrante do grupo “Diário de mães solo”, que conta com quase 26 mil membros. A advogada tem duas filhas – Eloá, cinco anos, e Sofia, de oito – e cuida delas com o auxílio da família.

Há pouco tempo, Vanessa rompeu um relacionamento de cinco anos, interrompendo os planos de se casarem. O argumento do ex-namorado de que as crianças gerariam muitas despesas teria motivado a separação. “Ele não queria morar junto comigo porque pensou que eu deixaria tudo nas costas dele. Eu sempre sustentei minhas filhas, isso jamais iria acontecer. Não quis continuar em uma relação com uma pessoa tão imatura”, lembra Vanessa. O pai de Eloá tem boa relação com Vanessa e vê a filha com frequência, enquanto o pai de Sofia não faz questão de visitá-las.

Vanessa conta que não costuma usar aplicativos de relacionamento, como o Tinder. Segundo ela, é difícil encontrar alguém interessante. Edna relata que muitos homens deixaram de falar com ela quando souberam que é mãe. Carina nunca usou qualquer aplicativo deste tipo, mas atesta que mesmo separada há cinco anos, é muito difícil conseguir engatar um relacionamento. “É raro achar um homem que te assuma. A mulher acha que aquilo é um relacionamento, mas não é, porque ele não vai te mostrar na frente dos outros. Os homens têm esse preconceito declarado, não tem como esconder. Eles pensam que a gente está ali só para o sexo”, lamenta Carina.

Para Carol Rocha (30), publicitária e mãe solo de São Paulo (SP) popularmente conhecida como Tchulim por sua conta no Instagram, onde publica fatos do seu cotidiano, sobre maternidade e conta com mais de 66 mil seguidores, foi mais fácil namorar pessoas que já estavam em seu círculo social, em vez de buscar parceiros de fora de sua bolha, como no Tinder. “Todas as pessoas com quem eu fiquei após a separação sabiam que eu tinha filho. Nunca fiquei com alguém que eu conheci na balada, por exemplo”. Segundo ela, isso serviu como forma de blindá-la dos julgamentos externos.

A influenciadora mantém relação amigável e saudável com seu ex-namorado, pai de Valentin (dois anos) e publica regularmente sobre os passeios que o antigo casal faz com o filho, o que provoca surpresa por parte de seus seguidores nas redes sociais. “É louco imaginar que isso é raridade quando deveria ser comum. Raro deveria ser casal que briga e faz alienação parental. Não é porque não me relaciono afetivamente com o pai do meu filho que não podemos nos divertir. A prioridade deveria ser o amor com a criança e não o que a gente faz”, argumenta.

Segundo Carol, o atual namorado não representa uma figura paterna para o filho, pelo fato de o pai de Valentin estar sempre presente e cumprir com o seu papel – tanto afetivo quanto financeiro. A filha de Edna Alves, por outro lado, vê o namorado de sua mãe como uma figura paterna pelo fato de o pai da menina ser distante. “A gente nunca incentivou ela a chamar ele (o parceiro atual) de pai. Sempre a incentivei a chamá-lo de tio Márcio. Mas ela mesma desenha ele na escola, chama ele de papai tio Márcio”, brinca.

Em 10 anos, o Brasil ganhou mais de 1 milhão de famílias formadas por mães solo, segundo levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2016. Carina, Edna, Fernanda, Carol e Vanessa têm pouco em comum. Vivem em cidades ou estados diferentes, passaram por experiências muito diversas e pertencem a classes sociais distintas. No entanto, elas compõem uma pequena parte dessas estatísticas, o que acarreta em condição semelhante em suas vidas: a exclusão social.

Todas elas foram ou são, de alguma maneira, excluídas da sociedade por serem mães solo. Lidam com os julgamentos, a dificuldade em obter relacionamentos sérios, a solidão e até mesmo a misoginia, muitas vezes. A frase exibida pelo Tinder quando um perfil não encontra pessoas compatíveis em local próximo – utilizada como título para a publicação de Fernanda, que inspirou este texto – sintetiza o sentimento compartilhado por elas: não há ninguém perto de você.

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