O abuso mora ao lado – parte dois

  • Por: Júlia Pulvirenti e Sthefanie Bernardes | 20/05/2016 | 0
Marília, diferente de outras vítimas, não hesitou em pedir medida protetiva
Marília, diferente de outras vítimas, não hesitou em pedir medida protetiva

Esta é a segunda parte de uma matéria dupla. Clique aqui para conferir a primeira.

“Minha vó me contou que uma vez nós estávamos na rua e eu vi um lixeiro trabalhando. Eu me abracei nas pernas dele e perguntei: tu é o meu pai? ”

Assistir uma das pessoas que mais ama se deteriorar em um relacionamento abusivo, pode ser tão doloroso quanto viver diretamente um. Esse é o caso de Bárbara*.

A história começa antes mesmo de Bárbara nascer. Regina*, sua mãe, conhecia seu pai desde os dez anos, os dois eram vizinhos. Ela, uma moça criada com princípios antigos, queria ser a esposa exemplar. Ele, um jovem aventureiro, traumatizado pelo bullying que sofreu na infância devido a sua forma física.  O casamento aconteceu prematuramente, os dois tinham apenas vinte anos, porém o abuso só começaria algum tempo depois. No começo do relacionamento, o casal focou nos estudos e se graduou no mesmo curso, engenharia Logo nos primeiros anos de casamento, Regina engravidou. A gravidez trouxe muita felicidade e gerou grandes expectativas em seu marido, que chamaremos de Murilo*, um dos seus maiores sonhos era ser pai de um menino. Porém, a chegada da irmã de Bárbara o desagradou um pouco. Poucos anos depois, Bárbara nasceu, teve inúmeros problemas de saúde e chorava muito. Regina teve a chamada depressão pós-parto. Enquanto Murilo se tornou um pai cada vez mais ausente devido a viagens de trabalho. Em uma dessas viagens ele conhece uma mulher. Na época, ela era casada com um de seus colegas. Murilo alega que não estava conseguindo lidar com a esposa em depressão e com duas crianças pequenas em casa, essa vida não fazia parte de seu perfil aventureiro. Enquanto isso, a esposa de seu colega não vivia um momento muito bom no casamento, não demorou muito para os dois se envolverem. Regina estava doente e cada vez mais ocupada em casa, acabou não se dando conta do que o marido estava fazendo. Alguns meses depois, Murilo conta para a esposa que havia se apaixonado por outra pessoa, mas a ama muito e deseja continuar casado com ela. Bárbara relata que estava no colo da mãe quando isso aconteceu e que até hoje Regina se sente muito mal ao relembrar a cena “Ela quase sempre chora quando conta essa história. Ela me colocou no bercinho, foi até o quarto, pegou todas as roupas do meu pai, e mandou ele embora”.

O dano emocional que Murilo causou em Regina foi grande e muito sério. A jovem mãe que estava se recuperando de uma depressão pós-parto piorou.  Começou a tomar remédios fortes e teve que interromper a amamentação. Regina, uma mulher de mais de um metro e setenta, estava pesando 40 kg. Chegou ao ponto de tentar suicídio três vezes. A filha mais velha assistiu tudo. Enquanto Murilo abandonou de verdade as filhas, a nível de Bárbara, na época com dois anos, não reconhecer mais o pai.  Murilo não pagava pensão e não visitou as meninas por quase três anos.

Algum tempo depois, Regina começou sua recuperação. Passou a se interessar por outra pessoa e estava seguindo em frente. De uma forma estranha e inexplicável, Murilo descobriu o novo relacionamento da ex-mulher. O casal se encontrou por alguns meses e esses encontros sempre contavam com uma presença obscura e não convidada, Murilo.  Para Regina, isso não se tratou de uma coincidência “A teoria da minha mãe é que ele a perseguia o dia inteiro, por isso ficou sabendo (do relacionamento) ”

Descontente pela recuperação de sua ex-mulher, Murilo decide que irá reconquistá-la. Ele termina o atual relacionamento e implora que Regina lhe dê mais uma chance. Ingênua, ela acaba cedendo.  Porém, a companheira de Murilo se equivoca a respeito de uma gestação. E ele desiste de reatar o casamento. Coincidentemente, Regina faz um exame e descobre que seu breve relacionamento rendeu uma gravidez.  “No meio de toda essa confusão, minha mãe era doente, depressiva, tinha uma filha de dois anos e uma filha mais velha com sérios problemas de rebeldia devido a uma má estrutura familiar” recorda Bárbara.

As atitudes abusivas de Murilo não eram restritas a Regina. Como um homem machista, sua conduta atingia todas as mulheres da família. Bárbara como toda criança, desconhecia padrões de gênero e sempre se divertia com atitudes ditas de menino. “Eu lembro quando meu corpo começou a mudar e meu pai me proibiu de falar com meus amigos (meninos) e de brincar com eles. Ele me fez passar dias trancada no quarto quando ia visitá-lo” lamenta. O futebol, o acampamento e as viagens foram só algumas das coisas que Murilo restringiu da filha mais nova, ele alegava que Bárbara “havia virado moça”. Bárbara começou a trocar bilhetinhos com os amigos pela janela, como única forma de contato. Murilo descobre, tem uma reação exagerada e machista. Ele grita que Bárbara “ia ter sorte se não acabasse grávida antes dos dezoito anos” justificando que esse comportamento era “coisa de mulher vulgar. ” Bárbara tinha apenas dez anos. Os anos passaram e Bárbara teve que conviver com o machismo do pai. Quando estava no terceiro ano do ensino médio, ela teve dúvidas a respeito da carreira que iria seguir, estava entre psicologia e pedagogia. Murilo quando soube da indecisão, zombou da filha “Bem mulherzinha mesmo. Ainda bem que eu consegui te salvar, caso contrário, tu seria lésbica ou homem”.

Murilo persegue Regina até hoje. Ela nunca mais conseguiu ter nenhum relacionamento. Ele já passou da quinta da namorada, todas mais jovens, em média dez anos. A atual é da idade de sua filha mais velha. Murilo tem como convicção que reata com Regina quando tiver vontade.

A situação de perseguição relatada por Bárbara a respeito dos pais, não é uma exclusividade. Marília* tinha apenas dezoito anos quando passou por uma situação parecida.  “Ele parecia muito legal, era super inteligente. Eu achei ele um máximo” essa foi a primeira impressão que Marília* teve de seu ex-namorado. Com uma diferença de idade de mais de dez anos, Marília  viveu aproximadamente cinco meses intensos de abuso ao lado de um homem sádico e manipulador.

Os dois se conheceram através de um aplicativo e apesar da insegurança com a idade, Marília resolveu dar uma chance, afinal, ele parecia ser mesmo diferente. Na segunda saída do casal, que ainda estava se conhecendo, Marília se surpreendeu com um pedido de namoro repentino de Joaquim*. “Ele alegou estar muito apaixonado” conta. Um namoro que teria um adendo, seria um relacionamento aberto.  Marília havia terminado um relacionamento recentemente, então, essa condição não parecia ruim. Nas primeiras semanas de namoro, com o aniversário dela se aproximando, Joaquim já aparentou um comportamento incomum: Se recusou a participar das comemorações com Marília, alegando que teria que ir para praia surfar naquela data. “Eu pensei que era porque estávamos namorando a pouco tempo e que ele ainda não estava pronto para conhecer minha família” relata Marília.  Porém, Joaquim se tornou cada vez mais ausente. Via a namorada cada vez menos, chegando a encontrá-la apenas em um dia da semana.

O primeiro alerta de que algo não estava certo veio da irmã mais velha de Marília – coincidentemente tem a mesma idade de Joaquim. “Minha irmã conhecia ele, Joaquim ficava com uma amiga dela. Ela me alertou que ele tinha uma conduta estranha nos relacionamentos”. Porém, Marília não acreditou na irmã, Joaquim aparentava ser diferente demais para aquele comportamento descrito. Bradava que a mulher “fazia o que queria”, palavras que fascinavam Marília mas ficavam apenas no discurso.

Surfista, Joaquim tinha o hábito de passar longos períodos na praia e ás vezes insistia para Marília o acompanhar, não para estar com ela e sim para conseguir controlar o que a jovem estava fazendo. Em uma manhã de junho, o casal havia alugado uma cabana em uma região no litoral e mesmo estando gripada, Marília atendeu o pedido do namorado de acompanhá-lo até a beira da praia. Um temporal repentino começou e Marília estava esperando Joaquim na beira da praia sem nenhum abrigo “Ele estava com a chave do carro, eu não tinha pra onde ir, tive que esperar ele voltar com chuva, vento e trovões e eu estava doente” conta. Joaquim só retornou no final do dia e Marília não escondeu sua insatisfação com o descaso do namorado. Ao retornarem pra cabana, Joaquim começou a chorar e pedir desculpas prometendo que isso jamais aconteceria de novo. “Ele fez eu me sentir horrível e eu que acabei pedindo desculpas por ter exagerado. Pedi desculpas por ele ter me deixado doente na beira da praia, na chuva e no inverno” desabafa Marília tremendo de raiva por relembrar a situação que passou.  Episódios de descontrole emocional e longas cenas de choro de Joaquim foram se tornando cada vez mais comuns, como forma de manipulação. Chegou ao ponto de Marília excluir algumas pessoas de suas redes sociais para agradar o namorado.

Foi após uma discussão do casal, devido Marília fazer brincadeiras a respeito da diferença de idade na frente de amigos, que a situação se agravou. Enquanto estavam na companhia de outras pessoas Joquim agiu normalmente, mas, quando o casal ficou sozinho, se mostrou agressivo e disse inúmeras ofensas à namorada. Irritada, Marília resolveu que daria um fim definitivo no relacionamento. Como de costume, o casal estava no litoral quando o fato aconteceu e Marília já havia avisado Joaquim que o relacionamento acabaria quando voltassem para casa. Procurando sossego, a menina de dezoito anos resolveu andar pela beira da praia após a intensa discussão. De repente, recebe uma ligação de Joaquim perguntando onde ela estava. Marília conta que não queria atender, mas após inúmeras tentativas acabou respondendo. Poucos instantes após o fim da ligação, um carro em alta velocidade vai de encontro a Marília e começa a fazer voltas em torno da garota. Chegando tão perto a ponto de quase causar uma tragédia. Marília ficou paralisada de medo e o espanto maior veio logo em seguida, era o carro de Joaquim. “Eu pensei que eu ia morrer” desabafa Marília.  Joaquim sai do carro e começa uma perseguição à menina. “Ele me seguiu por mais ou menos uma quadra até eu dizer que eu não ia terminar com ele”.

Após o retorno do litoral, Joaquim convida Marília para dormir para sua casa. Cansada  da viagem, ela aceita. Marília mais uma vez tenta acabar o relacionamento. Joaquim aparentemente, parece entender.  Pela manhã, Marília se prepara para ir para casa, quando sente uma mão em volta do seu braço pressionando muito forte. Joaquim soltou seu braço após alguns segundo e pediu para que repensasse o término.  Após uma longa conversa forçada por Joaquim, ele, por fim, entende que Marília está decidida a terminar.

Todavia, não seria dessa vez que Joaquim sairia definitivamente da vida de Marília.  Uma semana depois, Joaquim enviou várias mensagens para ela, dizendo que sentia saudade e que queria vê-la. Inicialmente, Marília não achou o reencontro uma boa ideia, mas após um tempo acabou cedendo. Ela acreditava que esse encontro tinha como objetivo uma possível o volta do casal. Um dia antes de o combinado chegar, Marília recebeu uma ligação de Joaquim e em meio à conversa acabou fazendo uma confissão “Eu contei para ele que tinha saído com um cara. Teoricamente nosso relacionamento era aberto, então não fazia diferença” relata. Joaquim não pareceu dar importância ao fato e seguiu a conversa normalmente.  Mais tarde, Marília começou a se questionar se esse encontro seria saudável e sobre quais seriam as reais intenções de Joaquim. Por fim, resolveu desmarcar o compromisso. Para sua surpresa, Joaquim disse que estava tudo bem e que já havia marcado de sair com outra menina. Marília crê que a reposta de Joaquim não foi mera coincidência. “Para mim, ele já tinha marcado com essa menina faz tempo e usou o que eu contei para ele (ter se envolvido com outra pessoa) como desculpa”.

Marília voltou a se envolver com a pessoa que namorava antes de conhecer Joaquim. Praticamente já havia superado o fim do relacionamento. Até que em uma madrugada recebe outra mensagem de Joaquim, dizendo que queria vê-la novamente. Ela logo responde e avisa que está envolvida com outra pessoa e que não tem mais nenhum interesse por ele. Revoltado, Joaquim liga imediatamente para Marília exigindo satisfações e despejando ofensas. Ela mantém a calma e pede para que Joaquim supere o fim. Para sua surpresa ele responde que já está namorando novamente e envia uma foto com sua então atual namorada.

Sem pensar muito, Marília chega a seguinte conclusão: Joaquim estava acompanhado enquanto trocava mensagens com ela. “Eu cheguei até pensar que ela estava dormindo do lado dele na cama enquanto aconteciam as discussões. É inacreditável” dispara.

As mensagens de Joaquim se tornaram cada vez mais constantes, mesmo com Marília não correspondendo. A situação chegou ao ápice quando Joaquim enviou uma mensagem contendo expressões pejorativas referentes ao seu corpo  e tentando marcar um encontro para os dois terem contato íntimo. Irritada, Marília responde que aquilo não iria acontecer e se surpreende com a resposta de Joaquim “Ele me disse que estava tudo bem e que iria passar na minha casa no outro dia mesmo contra minha vontade. Eu fiquei muito assustada”.  Aterrorizada,  Marília vai até a delegacia e consegue uma Medida de Proteção. Joaquim não pode mais se aproximar dela, nem de sua casa, namorado ou família.  A última vez que Marília encontrou Joaquim foi na audiência.  O relacionamento abusivo de Marília pode ter acabado e por mais que ela não carregue uma cicatriz física, os danos psicológicos que Joaquim causou e a dor das lembranças ficaram para sempre.

O que é Gaslighting? É possível denunciar violência psicológica?

A violência relatada  por Marília e Bárbara trata-se de Gaslighting, uma forma de abuso psicológico no qual informações são distorcidas, seletivamente omitidas para favorecer o abusador ou são simplesmente inventadas com a intenção de fazer a vítima duvidar de sua própria memória, percepção e sanidade.  O Gaslighting trata-se de uma violência psicológica e pode e deve ser denunciada. A Lei Maria da Penha  (lei nº 11.340/2006 )  prevê a violência psicológica como uma das formas de violência doméstica e familiar, conforme o artigo 7º, inciso II.

Medida Protetiva:

As medidas protetivas de urgências estão previstas na Lei Maria da Penha e podem ser solicitadas pela vítima. O documento é encaminhado à apreciação do Poder Judiciário. Segundo a Delegada da Delegacia da Mulher, Cláudia Crusius, o afastamento do agressor do lugar que ambos moram (caso a vítima e agressor morem juntos) e o impedimento do agressor de se aproximar da vítima e de seus familiares, com fixação de metragem mínima para que isso ocorra, são as medidas mais frequentes para proteção da mulher. Caso a vítima more com o agressor e não tenha lugar seguro para ficar (normalmente, procuram ficar com familiares ou amigos), é oferecida a possibilidade de se abrigar com os filhos, na Casa Viva Maria, que atende vítimas de Porto Alegre.

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