O abuso mora ao lado

Reportagem revela a dor e o trauma de mulheres abusadas por companheiros em relações doentias.

  • Por: Júlia Pulvirenti e Sthefanie Bernardes | 20/05/2016 | 0
Com medo de ser hostilizada, Rafaela tem medo de voltar aos locais que frequentava
Com medo de ser hostilizada, Rafaela tem medo de voltar aos locais que frequentava

Esta é a primeira parte da reportagem sobre abusos domésticos. Leia a segunda parte aqui.

Por motivos óbvios, a identidade das fontes foi preservada

“Eu não posso deixar ele me ver sozinha, não posso deixar que ele me veja em uma situação vulnerável”. Dois anos depois de ter sido abusada pelo próprio companheiro, as marcas do passado insistem em se fazer presente na vida de Rafaela*. O medo de voltar aos lugares que ela frequentava tomou conta do sentimento de liberdade, que ela costumava prezar. Na fala pausada de Rafaela, é possível deduzir que um abuso nunca é só um abuso. Ele aparece com a incerteza, a insegurança e com uma carga emocional negativa inimaginável. Ela não quer ser vista por ele. Nunca mais.

Rafaela e seu agressor, que aqui será chamado de Daniel, se conheciam desde 2012. Ela tinha 22 anos e ele, 19. Nunca foram grandes amigos, mas conviviam em espaços de militância estudantil. Os dois faziam parte de uma organização em Porto Alegre e de outros grupos universitários. Ela sempre foi tomada pelo desejo de ter uma sociedade igualitária e um mundo melhor. Ela só começou a ter um contato mais intenso com Daniel em 2014. Ele namorava uma menina quando começou a se interessar por Rafaela, que nunca deu muito papo. Disse que aquilo só iria adiante se ele terminasse o relacionamento. Assim aconteceu. Ela passou a gostar dele, mesmo o achando muito quieto na frente das outras pessoas. Com ela, falava sobre o corpo de meninas mais novas, se interessava por mulheres frágeis e emocionalmente vulneráveis e aparentava ser manipulador. Ela achou que era coisa de momento e resolveu continuar. Os dois começaram a ficar muito próximos e se viam de quatro a cinco vezes por semana. Ele costumava fumar de dois a três cigarros de maconha por dia. Ingerir bebidas alcoólicas, ficar extremamente bêbado e agressivo também fazia parte da rotina do rapaz. Ela afirma que fumou poucas vezes com ele, pois acompanhar aquele ritmo era difícil.

Uma noite, eles estavam com uma amiga em um bar quando o casal começou a discutir sobre machismo. Daniel começou a ficar agressivo e empurrou Rafaela e a amiga. Elas ficaram chocadas com a situação, mas logo foram surpreendidas com a reação dele, que chorou muito e pediu perdão. De acordo com ela, foi uma cena comovente. Rafaela o perdoou e chamou os dois para dormirem na sua casa. Antes de pegarem no sono, os três beberam muito. Ela foi dormir inconsciente.

No outro dia, a amiga disse que ficou chateada com a situação e que Rafaela não deveria permanecer ao lado de um homem violento. Com isso, resolveu acabar a relação. “Era muito difícil, simplesmente, parar de ficar com ele”, admite. Ela foi até Daniel para conversar sobre a decisão que tomou. Sentiu enjoo, cólica, tontura. Achou que fosse a menstruação chegando e pediu para ele comprar absorvente e remédios na farmácia. Foi quando Daniel sugeriu que comprassem um teste de gravidez. Apesar do estranhamento, pois eles sempre usaram proteção, ela concordou. O teste deu positivo, e ela conta que a partir daquele momento entrou em “modo automático”, do qual só conseguiu sair meses depois. Confusa e sem chão, não sabia como aquilo tinha acontecido. Chamou o namorado para conversar, e Daniel começou a chorar. Ela lembra do diálogo como se fosse hoje:

D – Lembra aquele dia na tua casa?

R – O que tem?

D – Nós tínhamos bebido…

R – Tá, e o que tem?

D – A gente transou.

R – Mas como? Eu não lembro!

D – Sim, é que tu estava dormindo.

R – Eu estava dormindo, inconsciente, nem me mexendo e tu transou comigo?

Naquele momento ela não conseguia pensar em mais nada. Entrou em estado de choque e só queria tirar aquela criança de dentro do útero. Rafaela não sabia se podia ser considerada uma vítima. Disse que não tinha muita noção de que aquilo era um abuso. De acordo com o artigo 217-A do Código Penal brasileiro, “tratando-se de vítimas vulneráveis, com ou sem o seu consentimento, o crime será o de estupro de vulnerável”. Na situação, ela estava inconsciente. Não tinha condições, portanto, de concordar com o ato sexual. Ela teria um filho em qualquer outra circunstância, mas, naquela era inviável. Rafaela rompeu o relacionamento.

Desesperada atrás de uma saída, pediu ajuda a amigas, que a convenceram de que sim, aquilo foi um estupro. Ela também pediu socorro às pessoas erradas. Falou com a ex-namorada do rapaz, que contou para ele tudo que conversaram. Neste momento, a vida de Rafaela virou de cabeça para baixo. Ele contou para todos que ela estava mentindo, que ele jamais a estuprou. A moça foi vista como mentirosa. O tempo passava e ela ficava mais amedrontada de não conseguir tirar o bebê. Enquanto isso, Daniel a perseguia. Ligava de madrugada para a casa dela. Mandava mensagens, ameaçando-a. Prometia que ela “se daria mal”.

Ele tinha conhecidos no tráfico de drogas de Porto Alegre, que começaram a fazer ameaças reais à vida de Rafaela. Sabiam onde ela morava, onde estudava e estagiava. Todos os passos passaram a ser vigiados. Ela se calou. Trancou a faculdade onde cursava Serviço Social, parou de frequentar grupos estudantis e deixou de sair à noite.

Com o apoio de amigas, em casa, tomou um remédio abortivo. Para Rafaela, aquela gravidez estava mais para uma doença. O aborto foi realizado no tempo limite, com três meses de gestação. O problema da gravidez indesejada estava resolvido. Entretanto, o ex-namorado continuava ameaçando ou tentando reatar a relação.

A situação parecia sem controle. Até a organização em que militava realizou uma assembleia para debater o relacionamento de Rafaela. Ela foi expulsa pelo grupo, sob a alegação de que tinha problemas psicológicos e que o abusador a amava. Rafaela gastou muito dinheiro com psiquiatra e remédios para dormir. Ela tinha pesadelos frequentes, tinha medo de qualquer passo que ouvia às costas. Queria se fechar no mundo. E se fechou. Mesmo dois anos depois do estupro, ela não voltou para a faculdade por medo de ser hostilizada. As perseguições e ameaças cessaram. Vivendo num mundo particular, ela garante que se sente feliz. “Deve fazer uns dois meses que melhorei consideravelmente perto de como eu estava. Saiu um peso das costas. Não tenho mais estresse e nem ataques de pânico”.

Juliana aprendeu a conviver com as marcas deixadas pelo ex-companheiro
Juliana aprendeu a conviver com as marcas deixadas pelo ex-companheiro

Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde, divulgada em junho de 2015 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a faixa etária mais suscetível a sofrer violência ou agressão de pessoa conhecida é de 18 a 29 anos. Idades que coincidem com as três vítimas entrevistadas nesta reportagem. Dados de 2013 da Secretaria de Políticas para Mulheres mostram que a cada 12 segundos uma mulher é estuprada no Brasil. Desde sua criação em 2005, a Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180 registrou 4.488.644 atendimentos até 2015. Somente no primeiro semestre de 2015, a Central realizou 364.627 atendimentos, o que em média foram 60.771 atendimentos por mês, e 2.025 atendimentos ao dia. Mais da metade são de agressões físicas, uma média de 92 relatos por dia. Dados do projeto Retrato da Violência Contra a Mulher no Rio Grande do Sul apontam que, em Porto Alegre, 76% dos casos de violência acontecem dentro de casa. Apenas 10% na rua, e outros 14% não quiseram informar.

A Doutora em Ciências Sociais e pesquisadora no Departamento de Criminologia da Universidade de Ottawa, no Canadá, Fernanda Bestetti, brasileira que estuda a violência no país, explica que os estereótipos de “esposa perfeita”, impostos por uma sociedade machista e patriarcal, contribuem diretamente para a violência contra pessoas do sexo feminino. “Para além da diferença de tratamento dada a homens e mulheres, existe uma diferenciação que pode ser considerada mais perversa, que é aquela que se refere à separação das mulheres que são merecedoras de direitos e proteção na nossa sociedade e daquelas que, ao contrário, não possuem direitos”, explica. Esta divisão, de acordo com a especialista, é marcada pela percepção social de que existe um determinado tipo de comportamento moral vinculado às trajetórias de diferentes mulheres, que é preponderante para que sejam consideradas possuidoras de direitos. Ela explica que principalmente nas denúncias de estupro são muito comuns os relatos sobre a culpabilização das vítimas, seja quando procuram pelas instituições de segurança pública, quanto de saúde. “Na prática, são raríssimas as instituições que contam com profissionais bem capacitados e com estrutura material para o atendimento”. A pesquisadora lamenta que ao ter contato com estas instituições, ao invés de receber um acolhimento, a vítima acaba participando de um processo no qual é questionada sobre sua “participação” na violência sofrida, sobre até que ponto não teria dado margem para o ocorrido.

Visando diminuir a violência contra a mulher, além de outras demandas, o Plano Municipal de Direitos Humanos (PMDH), feito em março de 1998, foi formulado para debater e construir políticas públicas para quem sofre constantemente com a violação de seus direitos. Na Declaração Universal dos Direitos Humanos, não há uma observação específica às mulheres. De acordo com o PMDH, as questões femininas passaram a ser oficialmente reconhecidas como direitos humanos das mulheres apenas em 1993, quando ocorreu a Conferência Mundial de Direitos Humanos, em Viena. Este compromisso, que foi firmado em mais de 180 países, define eliminar as seguintes formas de violência:

–       a violência contra a mulher na vida pública e privada;

–       todas as formas de abuso sexual;

–       a exploração e o tráfico das mulheres;

–       os preconceitos sexistas na administração da justiça;

–       quaisquer conflitos que possam surgir entre os direitos das mulheres e as consequências preconceituosas de certas práticas tradicionais ou costumes, de preconceitos culturais e dos extremismos religiosos.

Assim como Rafaela, outras mulheres sofreram agressões dos companheiros. “Como eu queria ter uma máquina do tempo e levar o feminismo para aquela época”, disse Juliana* lembrando do seu passado com o ex-namorado, Marcos. Ela diz que após conhecer o movimento feminista e os direitos das mulheres, passou a reconhecer relações abusivas. E quantos abusos! Ela, tão jovem, já carrega consigo memórias tão obscuras quanto a consciência de seu agressor.

Os dois se conheceram através de uma amiga em comum, quando ela tinha 16 anos e Marcos 15. Juliana cursava o primeiro ano do ensino médio, e ele, atrasado, ainda estava na sétima série. Aos poucos foram se aproximando e criando vínculo. Até que o primeiro beijo rolou, e, a partir daí, ela aprendeu na pele que abuso não tem idade. Em um mês juntos, começaram a namorar. Após quatro meses de pressão, perderam a virgindade um com o outro. Juliana conta que não estava confortável com a situação, mas aceitou pela insistência do namorado. Apesar disso, ela não sente raiva dele. Diz que Marcos foi até querido, pois quando ela pediu para parar, ele parou.

Após a primeira vez do casal, a relação só piorou. O rapaz passou a ter muito ciúme dela. Não a deixava sair sozinha, nem com a própria família. A jovem tinha que ligar a cada uma hora para dizer onde estava. Certa vez, Juliana foi visitar um familiar no hospital. O companheiro apareceu e eles discutiram por uma bobagem. Ela resolveu ir embora. A estudante tentou sair do local, mas ele não deixava. Ficava na sua frente atrapalhando o caminho, e então, ela se irritou e tentou empurrá-lo. Nisso, o menino acertou-lhe um soco no rosto, deixando-a em choque. Ninguém viu, e, segundo ela, “se alguém visse, ninguém teria feito nada”.  Ela começou a chorar e saiu correndo para o outro lado da rua. Ele foi atrás dela, a abraçou, pediu desculpas, disse que ia mudar e que Juliana não precisava contar isso para ninguém. Disse que a amava mais que tudo. Em outra discussão, ele empurrou a cabeça dela contra a parede. Certo dia, Juliana estava deitada com o namorado e o casal se desentendeu. Discutiram tão fervorosamente que ele partiu para cima dela. Tentou sufocá-la e ela perdeu a consciência por alguns instantes. Após o desmaio, ela continuou com o relacionamento porque acreditava que ele mudaria. A menina não sabia para quem pedir ajuda, afinal, por causa do ciúmes excessivo, se afastou dos amigos. No recreio do colégio, Marcos a culpou por um episódio de assédio vindo de um professor da escola. Para evitar maiores desentendimentos, ela correu em direção à sala de aula e o deixou falando sozinho. Ele não aceitou e foi atrás. A discussão começou a aumentar e o companheiro deu um chute nas costas dela, fazendo-a cair no chão. Com fúria, ela revidou e deu um soco no rosto dele, fazendo seu nariz sangrar. Os dois foram suspensos. Depois disso, voltaram para o outro como se nada tivesse acontecido. “Inúmeras vezes eu tentei terminar, mas ele vinha atrás. Ele vinha atrás de mim com tudo. Me chamava de gorda, ridícula e dizia que só ele iria me amar e que se eu terminasse com ele, nunca mais acharia ninguém”, desabafou ela. Ela conta que muitos conhecidos sabiam que ele era abusivo, mesmo não estando cientes das agressões, incluindo a mãe dela, mas evitaram se intrometer.

Entre lágrimas de tristeza e alívio, ela diz que “se tivesse uma máquina do tempo e pudesse pedir alguma coisa, pediria que o feminismo fosse algo mais antigo na vida de todo mundo, porque hoje é todo dia, todo dia alguém expõe um agressor”, e complementa que “se tivesse isso em 2011 eu seria muito feliz, nada disso teria acontecido”.

Marcos não aceita o fim do relacionamento. Até hoje, o jovem a persegue. Toda vez que ele vê a menina alegre, feliz, solta das amarras daquele “amor” abusivo, ele lança um olhar de ódio. Ela disse que não denuncia pois acha que nunca terá um resultado positivo. A delegada Claudia Crusius, da Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (DEAM), explicou o porquê desse pensamento, de que uma denúncia não ajuda, predomina em relação às mulheres: “Infelizmente, a falta de estrutura humana e material prejudica o atendimento, que é feito da melhor forma possível, dentro das nossas possibilidades. Como há pouco efetivo, há um lapso de tempo grande entre um registro e outro.” Apesar de tantos abusos e diferentes tipos de violência que um relacionamento pode oferecer, muitas conseguem superar e seguir em frente. É o caso da Juliana. “Eu não tenho sequelas, mas não gosto de falar disso. Acho que me fez crescer demais, me fez perceber como ciúmes é ruim e nunca aceitar essas coisas vindas de um homem”, finaliza ela, com o coração feliz e sincero de ser quem ela sempre quis: uma mulher livre. Assim como Juliana, muitas moças desejam amar com liberdade. Com algumas, acontece o contrário.

Leia a matéria completa, clique aqui para conferir a segunda parte.

Os textos, imagens, áudios e outros materiais oferecidos pela Agência J são distribuídos sob uma licença Creative Commons – Atribuição-SemDerivados 3.0 Não Adaptada. O material pode ser usado para qualquer fim jornalístico, desde que seja publicado na íntegra, sem modificações, e seja atribuído ao(s) autor(es) conforme o seguinte modelo: Nome do Autor ou autores (Famecos/PUCRS).