O horizonte solitário

Caminhoneiros revelam experiências vividas no exercício da profissão. Entre muitos relatos, a solidão e a saudade são fatores que mais pesam no ofício.

  • Por: Leonardo Radaelli | Foto: Nicolas Chidem | 11/10/2017 | 0

Uma viagem remete à diversão e ao sossego. A estrada serve de fuga para a monotonia vivida por muitas pessoas, vendo no horizonte uma fonte de motivação para novos desafios. O que para muitos serve como lazer e escape da rotina desgastante da cidade, para outros representa um modo de viver. Para caminhoneiros, a estrada é uma velha companheira. Em um país de dimensões continentais, um trajeto entre regiões pode durar dias, até semanas. Para cumprir o ofício, motoristas abdicam da vida pessoal. Apesar da paixão pela estrada, para os caminhoneiros, viagem não é lazer. É obrigação. A relação com o asfalto é intensa. Para o bem. E para o mal. A estrada traz capítulos diferentes, história marcantes e amizades. Na via contrária, embala a solidão, a tristeza e a saudade.

No Brasil, conforme a CNT (Confederação Nacional do Transporte), mais de 60% dos motoristas são autônomos, com média de idade entre 30 e 40 anos. Rio Grande do Sul ocupa a terceira posição em veículos registrados na CNT – só atrás de São Paulo e Paraná

“Nós pensamos em tudo. Passa um filme na tua cabeça. Penso na família, na situação, penso no dia a dia da profissão. Resumindo: você coloca uma música para esquecer tudo isso e vamos apreciando o caminho”, revela Jair Cezar. Com trinta e seis anos de estrada, ele já está acostumado com a companhia do asfalto. Jair tem 51 anos, nasceu em Terra de Areia e convive com caminhão desde os 15 anos. Casado, pai de dois filhos, tenta estabelecer um cronograma harmonioso entre família e trabalho. “Tenho oportunidade de fazer meu horário. Dependendo das minhas condições no momento, posso ficar uma semana ou um mês em casa”.

Mas nem sempre foi assim. “Quando era jovem, já passei final de ano e aniversário na estrada. Lá atrás, aconteceu muito isso. Hoje, não. Hoje é mais equilibrado. Antigamente era diferente. Trabalho tinha mais valor, era mais reconhecido”.

Para o profissional, a rotina da estrada pode ser vista como monótona. Mas os dias são sempre diferentes. Na tentativa de explicar, usa o futebol como metáfora. “É como ir ao estádio todas as semanas. Mas não é o mesmo jogo. A gente vai no mesmo lugar, mas não será a mesma partida. É mesma coisa a viagem. Sempre tem um capítulo diferente”, compara Jair, que acabara de voltar de São Paulo.

Depois de três décadas atrás do volante, Jair parece nostálgico: “Antigamente, a pista simples era melhor que a duplicada hoje. Duplicaram, mas triplicou o número de acidentes. As pessoas cuidavam mais, era diferente. Na profissão, tinha mais coleguismo, união e nós éramos mais valorizados”. Apesar das mudanças, Jair não se vê longe da estrada. O caminhão só perde espaço no coração para a mulher e os filhos. “Tirando minha família, ele é minha vida. Eu não me vejo fora dele com condição para trabalhar”.

A ideia de se aposentar é algo presente em suas conversas com a família. “Se hoje eu tivesse recurso, eu aprimoraria, melhoraria e não sairia da estrada. Isso é para quem gosta. E eu gosto do que faço”.

Jair Cezar, 51 anos – 36 deles de estrada
Jair Cezar, 51 anos – 36 deles de estrada

“Eu queria estar em casa, não queria mais viajar. E é só isso aí”. A frase resume bem o sentimento de Lauro dos Santos Cardozo. Com 25 anos trabalhando como caminhoneiro e enfrentando os contratempos da profissão, ele assume que o desgaste profissional atingiu um limite que o desmotiva a seguir dirigindo. Lauro, 49 anos, revela o sentimento que a estrada reflete para muitos motoristas. “É uma solidão. É brabo o cara ficar vinte dias fora de casa. Minha mulher é acostumada já, mas gera solidão. Fazer o quê? ”. Casado e com filhos, afirma que a profissão, em muitos momentos, o priva de seus momentos com a família. Chega a gerar um sentimento de frustração com a profissão.

Antes de trabalhar atrás da direção, trabalhou como chapa – pessoa que ajuda os caminhoneiros nas descargas dos materiais transportados. Com essa relação direta com os profissionais do transporte, começou a dirigir. “Gostei da profissão e fiquei”.

Voltando de Belo Horizonte, Lauro relata sua relação emotiva com a estrada, sua velha companheira:  “Sofrimento e solidão. Se fosse para pensar mesmo, hoje, se eu tivesse 18 e 19 anos, eu não iria para estrada”. Apesar do desânimo, parece tarde para mudar de profissão. E parar de trabalhar está fora dos planos. “Pensar em me aposentar, eu penso. Mas não vou, infelizmente. Não tenho carteira assinada”.

Enquanto toma um café no bar do posto Garoupa, Zona Norte de Porto Alegre, às margens da Freeway, Lauro prepara a próxima viagem. O destino é Belém, no Pará. A estimativa de um trajeto de aproximadamente cinco dias. Em meio à organização, lembra das dificuldades que poderá encontrar no caminho, especialmente os constantes assaltos e a precariedade de algumas estradas. Para Lauro, tudo isso, misturado com os sentimentos pessoais, ajudam a desenvolver o estresse na atividade. “Eu viajo, eu preciso trabalhar, não adianta. Não tem outro caminho”, suspira, conformado.

Lauro tem 49 anos – 36 deles de estrada
Lauro tem 49 anos – 36 deles de estrada

“Minha filha nasceu. No dia em que ela nasceu, eu estava aqui. Quando levamos ela para casa, meu caminhão já estava carregado. Eu saí para viajar e fiquei vinte e poucos dias fora. Quando eu voltei, ela já tinha um mês. Imagina isso”, conta Lucas Silveira Lucrécio. Com apenas 30 anos, viveu cinco deles como caminhoneiro. A estrada não era, exatamente, o seu lugar. Porto-alegrense, hoje experimenta uma rotina distante das constantes viagens, mas vivencia diariamente as experiências dos motoristas. Lucas trabalha com agenciamento de cargas, junto com o pai, no Posto Garoupa.

“Depois de um ano do nascimento da minha primeira filha, eu abandonei a estrada”. Para ele, a família foi fundamental para a escolha de abrir mão da rotina nômade de caminhoneiro para administrar um escritório junto com o pai. Apesar da desistência, algo do dia a dia de caminhoneiro faz o olhar de Lucas brilhar. Por vezes, gostaria de sentir o cheiro do asfalto de novo. “Faz falta a viagem, não ficar todo dia no escritório. Na estrada é bem melhor”.

Lucas transportava carga para todo Brasil. Sobre os sentimentos – e pensamentos – ao longo dos percursos, revela que a estrada pode ser uma ótima companhia em muitos momentos. Mas a ausência da base familiar é um fator que pesa na profissão. “Na estrada, você não tem solidão. Os caminhoneiros são muito unidos. Você sempre tem uma amizade em suas paradas pelo caminho. O problema, mesmo, é a saudade da família”.

Saudosista, relembra que no início da profissão tinha uma paixão pelo veículo. “Eu gostava. Para mim, era tudo. Eu não queria sair de dentro do caminhão”. Mas o tempo desvalorizou a profissão. Por isso, não voltaria a  exercer o ofício que sempre o encantou. “Do jeito que o cenário está, eu não volto. Só se melhorassem muito as condições gerais da profissão e eu não tivesse outra atividade. Só se eu não conseguisse mais manter a minha família”.

Lucas, 30 anos – 5 deles como caminhoneiro
Lucas, 30 anos – 5 deles como caminhoneiro

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