“O máximo que posso comprar é pão e salsicha”

Em greve há mais de 40 dias por conta do parcelamento dos salários implantado pelo Piratini, professores estaduais se desdobram entre ensinar e sobreviver

  • Por: Rodrigo Brasil | Foto: Pedro Spieker | 18/10/2017 | 0
Marina Vargas é professora de Artes e não recebe em dia há 21 meses.
Marina Vargas é professora de Artes e não recebe em dia há 21 meses.

Há 21 meses, o servidor estadual vem recebendo o salário em conta-gotas. Professoras do Estado, Marina Vargas e Silvia Gularte são o retrato do drama vivido pelos servidores estaduais, em geral, e pela categoria, em particular. As duas têm dificuldades de se manterem sozinhas. Dependem da família para comer, para sobreviver. Lazer, nem pensar. No mundo dos que recebem os vencimentos fatiados, a prioridade número um é a alimentação. Lazer é luxo. A categoria tenta se mobilizar, faz protestos em frente ao Palácio Piratini e se mantém em greve há mais de 40 dias. Mas ninguém arrisca prever o futuro. Para os funcionários estaduais é difícil mirar um horizonte próximo sem parcelamento salarial.

Marina tem 35 anos e é formada em Artes Visuais. Decidiu ser professora. Atualmente, trabalha no colégio Dr. Martins Costa Júnior, no bairro São José, em Porto Alegre. A escola se localiza ao pé do Morro da Cruz, região periférica da Capital. São 20 horas semanais de trabalho, 10 turmas do sexto ao nono ano, cerca de 350 alunos para atender. Marina não recebe em dia há quase dois anos.

Sem poder contar com o salário integral, os servidores têm que dar prioridades para determinadas despesas. Todo mês é a mesma coisa: Marina paga algumas contas e adia outras. Cada parcela que entra vai direto para despesas básicas, como alimentação e gasolina. “De quatro meses para cá, não consegui pagar o telefone e a internet foi cortada. Por isso, tenho que preparar as aulas em uma lan house. Ainda estou pagando boletos de meses atrás”.

Marina tem dois filhos pequenos, uma menina e um menino, e conta com a ajuda do pai dela para cuidar das crianças. O avô fica com os netos pela manhã, ajuda com lanche para a escola e gasolina. Além do pai, Marina tem o apoio do marido, motorista da Carris. “Paguei as contas com o auxílio do meu esposo”. A professora está cansada. Os olhos de Marina exalam exaustão e, ao mesmo tempo, indignação. Com o salário fracionado, não pode dar aos filhos o que já conseguiu um dia. A situação fragiliza Marina. Ao falar das crianças, se emociona. “Meus filhos me pedem coisas no supermercado, e sempre respondo que não pode. Pedem chocolate. O máximo que posso comprar é pão e salsicha”.

Outra professora que tem passado dificuldades com os parcelamentos é a Silvia. Ela tem 40 anos e dá aulas de inglês. Mãe de três filhas, trabalha 40 horas por semana, e ainda estuda Letras-Inglês na PUCRS, com Prouni. Silvia se vira para ter uma renda melhor. Leciona no colégio Martins Costa e no colégio Imperatriz Leopoldina, no bairro Petrópolis. São sete turmas em cada escola, do sexto ao nono ano.

Silvia Gularte, professora de inglês, tem dificuldade de sustentar as três filhas.
Silvia Gularte, professora de inglês, tem dificuldade de sustentar as três filhas.

Silvia é casada e mora de aluguel no Bairro Jardim Botânico. O marido é professor de dança regionalista. “O trabalho dele também vem sendo atingido pela crise, as pessoas estão parando de fazer aula de dança para priorizarem outras despesas”. Silvia tem seu salário parcelado há 21 meses. “O que entra usamos para comer. As contas vão ficando”. Das três filhas, duas estudam no Imperatriz Leopoldina, onde a mãe dá aula. A filha mais velha está na Uniritter cursando Psicologia, com bolsa de estudo. A mãe se mostra preocupada com o futuro das filhas, que a acompanham nos protestos na Praça da Matriz. “É bom começarem a ter essa vivência de reivindicar seus direitos”.

Com o salário pingado, o único jeito para pagar as contas é depender de amigos e familiares. Marina precisa do pai para cuidar das crianças e do marido para ajudar nas contas. Silvia também necessita do apoio financeiro da família para viver. “Tive que recorrer aos parentes. Minha irmã me manda dinheiro. De vez em quando mandam um pouco. Fico pensando: e a minha dignidade? ”

Além do atraso nos salários, os servidores estaduais ainda estão recebendo em parcelas o décimo terceiro de 2016. Diferente dos 21 meses atrás, o Governo Sartori declarou no dia 29 de setembro que depositou integralmente os salários dos servidores que recebem até R$ 1,75 mil – o que corresponde a 47% dos professores. Portanto, não houve parcelamento para estes servidores. O restante do funcionalismo teve seus salários quitados somente no dia 13 de outubro.

Cansados da situação, os professores decidiram manter a greve que se iniciou no dia 5 de setembro. “Não é só o parcelamento que faz a gente parar. É o 13º, o piso que não é pago, a infraestrutura de trabalho. É tudo sucateado”, critica Sílvia. Segundo o CPERS, 70% dos professores estão em greve. A Secretaria Estadual da Educação do Rio Grande do Sul contesta e garante que 70% dos colégios estão com a rotina normal.

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