O olhar por trás da intolerância

Mesquitas no Rio Grande do Sul são exemplo da resistência contra o preconceito com muçulmanos

  • Por: Renata Saraiva | Foto: Renata Saraiva | 27/05/2016 | 0
 Patrícia Castilhos, convertida ao islam há dez meses, é casada com o Sheik Mohammad, tem um filho de 17 anos
Patrícia Castilhos, convertida ao islam há dez meses, tem um filho de 17 anos e é proprietária de um açougue destinado ao público muçulmano

Em meio à multidão apressada para chegar ao seu destino, um prédio no centro de Porto Alegre cultua a paz de espírito e a devoção à religião. Na Rua Doutor Flores, número 62, a sala 1.001 tornou-se a segunda casa da população muçulmana na capital gaúcha.

Do outro lado do mundo, na tela de um computador, uma conta no Twitter faz ameaças terroristas ao Brasil. Confirmado pela Agência Brasileira de Inteligência (Abin), o perfil pertence a um dos líderes do Estado Islâmico, grupo responsável por atentados que vêm enchendo o mundo de medo e desconfiança. O tweet dizendo que o Brasil seria o próximo alvo foi compartilhado em novembro de 2015 e é de autoria do terrorista Maxime Hauchard. A validação dessa ameaça redobra a atenção do país para os Jogos Olímpicos, evento que irá reunir milhares de pessoas do mundo inteiro, durante o mês de agosto, no Rio de Janeiro. Quem acaba sofrendo com as consequências dos atos terroristas são os muçulmanos que vivem a muitos quilômetros de distância da origem dos ataques.

De volta a Porto Alegre, o quarto de cem metros quadrados é decorado com um tapete que cobre todo o chão e tem uma atmosfera convidativa para leigos no assunto. Quadros com citações em árabe e imagens de mesquitas se misturam com o cheiro do almoço que está sendo preparado. A sala se assemelha a um grande galpão sem paredes, em que duas portas levam ao banheiro e à cozinha. No andar estreito, apenas dois apartamentos e dois elevadores dividem o espaço com os muçulmanos. Os sapatos aglomerados na entrada demostram que no local há regras que devem ser seguidas por todos. O uso de lenços para tapar os cabelos é obrigatório para todas as mulheres, seja a muçulmana ou a repórter que foi realizar a matéria.

O contraste entre ocidente e oriente pode ser reparado em todos os aspectos. Roupas despojadas se mesclam a trajes típicos. O encontro de calças jeans e thoub – vestimenta que cobre todo o corpo dos homens – mostra que a oração é um momento essencial para o muçulmano. Homens com feições características de países árabes parecem se transportar para sua terra natal. Todos estão ali por um único motivo: rezar. Apesar da maioria masculina, as mulheres são parte importante para o funcionamento do Centro. Separadas dos homens por um biombo de tela e madeira que vai até a altura da janela, elas oram junto às crianças em um ambiente menor, no fundo da sala. Muito se questiona sobre a presença feminina nos Centros Islâmicos, porém as mulheres fazem questão de exibir sua relevância para todos que se aproximam através de livros e folhetos que explicam a sua posição dentro da religião.

Nabila Knazizadah, 45 anos, natural do Afeganistão, exibe orgulhosa o véu roxo, de seda, com uma flor bordada perto da orelha direita. A blusa lisa de mesma cor combinando com as calças legging mostram que ela está familiarizada com os costumes locais. Os pés descalços deixam à mostra as unhas pintadas, exibindo a vaidade presente por trás das roupas. Apesar de viver no Brasil há 13 anos, a mulher de baixa estatura e com os olhos marcados pela maquiagem forte e o batom nos lábios, encontra dificuldade para se comunicar em português. “A língua de vocês é a mais difícil do mundo”, brinca. Feliz por poder compartilhar sua crença com outras pessoas, ela relembra momentos em que ser muçulmana no Brasil foi difícil. “As pessoas olham, encaram e se sentem incomodadas com a nossa presença. Eu nunca tiro meu véu, uso desde os seis anos por vontade própria. Já fui chamada de mulher-bomba inúmeras vezes”. A respeito das ameaças terroristas que vêm assustando os brasileiros, ela diz não se preocupar com o aumento da intolerância. “Se a pessoa tem alguma dúvida em relação a minha crença e aos meus costumes, ela que venha até mim e pergunte. Não tem problema algum”.

Ter a liberdade de escolher a sua crença é um direito assegurado às pessoas. De acordo com o artigo 2° da declaração Universal dos Direitos Humanos, qualquer pessoa pode usufruir dos itens previstos na declaração, independente da espécie, raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição.

Os atos terroristas atribuídos a grupos árabes reforçam o preconceito e a intolerância religiosa. “O muçulmano é contra a guerra. Quem pratica a guerra não é muçulmano. O fato de eu usar lenço não significa que eu apoio tais atos”, desabafa Nabila. A falta de conhecimento detalhado sobre a religião e a facilidade de acesso às redes sociais contribuem para a disseminação de ódio.

Local de oração destinado exclusivamente às mulheres e às crianças
Local de oração destinado exclusivamente às mulheres e às crianças

Longe dos entes queridos, Nabila encontrou nos brasileiros sua nova família. A mulher, que veio para o Brasil somente com o marido e os dois filhos pequenos, conta que no começo a adaptação foi complicada. “Meus meninos tiveram que começar a escola do zero. Aqui no Brasil não tinha validade o que eles haviam aprendido no Afeganistão. A parte legal desse processo foi que não encontramos nenhum problema na hora de matriculá-los no ensino fundamental, todos foram muito legais conosco”. A diferença entre as culturas foi um choque, porém ao longo dos anos a família foi se acostumando com os hábitos brasileiros e gaúchos. A mesquita de Porto Alegre está aberta para visitação de qualquer pessoa que queira conhecer melhor a cultura muçulmana.

Patrícia Castilhos, brasileira e convertida ao islamismo há dez meses, apaixonou-se pela religião a partir do momento em que entrou em contato com ela. Mulher com olhos contornados pelo delineador preto, o véu, de mesma cor, detalhado com listras prata e com o casaco sobretudo escuro, Patrícia conta que as piadas relacionadas à sua crença são mais comuns no verão, época do ano em que suas roupas chamam mais atenção das pessoas. “No inverno todo mundo anda cheio de roupa, às vezes nem percebem que eu sou muçulmana”. Dona de um açougue especializado em carnes com corte árabe, ela reflete sobre a diferença entre a cultura brasileira e muçulmana. “É tudo muito distinto. Nós acreditamos que o boi deve ser abatido com o menor nível de crueldade possível, por isso não consumimos carnes que de frigoríficos de Porto Alegre. Por essas razões, resolvemos criar o nosso próprio açougue. Buscamos a carne em Passo Fundo e acompanhamos todo o processo de abate.” Segundo a religião muçulmana, o animal deve ser morto com apenas um corte, e não aos poucos.

Além da capital gaúcha, o interior do Rio Grande do Sul é berço para inúmeras famílias de imigrantes árabes. Localizada no centro de Passo Fundo, a Sociedade Beneficente Mesquita Masjid é um exemplo disso. A Sociedade promove orações diárias, oficinas culturais, encontros, cursos de línguas e é vista pela população como referência para a comunidade árabe da região.

Radwan Jehani, brasileiro de origem islâmica e responsável por manter a mesquita, diz que o local é aberto para todos os públicos e religiões. “Sentimos honra em expor nossa cultura para outras pessoas conhecerem”. Apesar da confirmação da ameaça de ataques terroristas ao Brasil, Jehani não se abala com o preconceito gerado. “As pessoas usam muito as redes sociais para nos difamar, mas não damos bola. Não deixamos isso refletir na nossa relação com os demais habitantes de Passo Fundo”. Ele diz que a intolerância religiosa é praticada por uma minoria da população. “São pessoas ignorantes que não sabem nem entendem os fundamentos do islam”.

O Centro Islâmico de Porto Alegre fica aberto de segunda-feira a sábado e é aberto para visitação de todos
O Centro Islâmico de Porto Alegre fica aberto de segunda-feira a sábado e é aberto para visitação de todos

Apesar de estar presente em mais de 80 países, muitas pessoas não estão familiarizadas com a religião Islâmica. A palavra islam é originada do árabe e significa adoração e submissão a um único Deus. O islamismo tem como fundamento os ensinamentos de Muhammad. Entre as tradições mais antigas está a leitura do Alcorão. Considerado um livro sagrado, ele é a coletânea das revelações divinas recebidas por Maomé entre os anos 610 e 632. Os seus principais ensinamentos são a onipotência de Deus e a necessidade da bondade, generosidade e justiça entre os homens.

Os muçulmanos se identificam não somente como um grupo religioso, mas também como um grupo de pessoas que selou um compromisso que irá obedecer a vontade Divina, o que implica uma determinação sempre renovada. A religião não é específica de apenas um lugar. Ela é considerada sem fronteiras. Qualquer nação, tribo, raça ou localidade pode seguir seus ensinamentos.

O Islamismo segue cinco princípios: o testemunho da fé; a oração; o jejum; o Zakat (um tributo de 2,5% arrecadado anualmente sobre o patrimônio dos muçulmanos); e o Hajj (a peregrinação à cidade de Makkah, na Arábia Saudita, pelo menos uma vez na vida).

Além dos cinco pilares, o islam tem duas interpretações: a sunita e a xiita. A primeira, aderida pela maioria dos muçulmanos, prega que o chefe do Estado muçulmano deve reunir característica como honra, respeito pelas leis e capacidade de trabalho. Já os xiitas, considerados radicais, consideram que a chefia só pode ser ocupada por quem seja descendente direto do profeta, uma vez que somente eles teriam a capacidade adequada de comandar os fiéis.

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