O Patrão da Matriz

Artista em situação de rua, Paulo Ricardo foi executado enquanto dormia em seu barraco na praça que acomoda símbolos do poder do Rio Grande do Sul

  • Por: Gabriela Rabaldo e Rodrigo Oliveira | Foto: Gabriela Rabaldo | 12/04/2017 | 0
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Amigos de Paulinho prestam homenagem no local de sua morte.

Cinco estampidos ecoaram pelas paredes de pedra da Catedral Metropolitana e silenciaram aquele final de tarde abafado de segunda-feira, 20 de março. Eram 17h15min quando as balas de revólver encontraram o peito de um homem que descansava à sombra de uma das árvores da Praça da Matriz.

Centro cívico, cultural e religioso da Capital, o local é cercado por edificações que abrigam os mais influentes cargos do Rio Grande do Sul. De um lado, revestida por vidros e aço, a Assembleia Legislativa. Em perpendicular, o Palácio Piratini. Prédio histórico, de arquitetura neoclássica, funciona como sede do governo do Estado. Ao lado, os sinos da Catedral Metropolitana badalam a cada final de tarde e convocam os fiéis de um Deus que os conforta. No outro extremo da praça, o Teatro São Pedro. Há 159 anos é palco das mais expressivas produções culturais apresentadas na cidade. O Palácio da Justiça completa o conjunto de construções que simbolizam o poder e parte da história gaúcha.

Naquela tarde, porém, a imponência do Centro Histórico contrastava com uma lona preta que, amarrada em três troncos de árvores, servia de teto, há mais de dois meses, para um grupo de pessoas. Paulo Ricardo Camargo de Oliveira, 36 anos, artista e colaborador do jornal Boca de Rua, publicação realizada e distribuída por pessoas em situação de rua, morava ali. Natural de Criciúma (SC), foi com um prego que descobriu, ainda na infância, seus primeiros traços, na superfície do armário de seu quarto. Paulo desenhava, com seus riscos, a realidade que sentia na pele.

Ele habitava a Praça da Matriz junto a outras pessoas cujos destinos se encontraram naquela quadra repleta de verde em meio ao concreto. Eram uma “aldeia”. Ou, ao menos, era assim que gostavam de se enxergar. Promoviam jantares, compartilhavam comidas, bebidas, cobertores e histórias. Era um costume integrar moradores de praças próximas para confraternizações durante a noite. De um poste de luz, puxaram uma tomada que servia de fonte de energia para uma modesta televisão. O barulho, a bebida e a fumaça da comida incomodavam parte da vizinhança. Não raramente, a polícia era convocada para acabar com a festa. A alegria não é permitida a quem vive na rua. Violenta aqueles que, no alto de seus privilégios, não querem vê-la.

Mas a injustiça grita e reverbera pelos prédios em forma de risadas, cantorias e discussões. A pobreza exposta agride, impacta, enraivece. “Vagabundos, marginais, traficantes e prostitutas”, foram chamados por um morador de um dos prédios próximos em depoimento publicado no espaço Leitor Fala, do jornal Metro, após o assassinato de Paulinho. “À noite fazem churrasco com cachaça e dão risadas das nossas caras”, escreveu. O vizinho não é exceção. A ânsia pela invisibilidade da população em situação de rua se sente sob as marquises, paradas de ônibus e viadutos.

Ainda que tenham sido retirados temporariamente das áreas nobres das cidades, o número da população em situação de rua aumentou 75,8% nos últimos oito anos, conforme estudo da Fundação de Assistência Social e Cidadania (FASC) divulgado em dezembro de 2016. De acordo com dados levantados na pesquisa, em 2016 foram encontrados 2.115 adultos em situação de rua na Capital, enquanto em 2008 o número era de 1.203.

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Obras de Paulinho expostas em frente ao Palácio da Justiça

Paulinho se recusava a aceitar o destino que a hostilidade da cidade lhe reservava. Expressava sua militância em forma de pinturas e histórias em quadrinhos. Com a sensibilidade das mãos, cunhou uma visão de mundo capaz de encantar. Com o volume da voz, abafou palavras de ordem que nada tinham de justas.

Durante a ocupação do curso de Psicologia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em 2016, Paulo ministrou uma oficina de arte e produziu um cartaz que ficava exposto em frente ao prédio, dando as boas-vindas. Gostava de jogar xadrez e tinha o desejo de oferecer oficinas nas periferias da cidade. Extrovertido, como é lembrado, ele era um líder para a aldeia, e por isso, foi o alvo dos dois homens que o executaram. “Eu sou o patrão da Matriz”, espalhou pelos arredores. A frase soou como ameaça às facções que dominam o tráfico na região. Assim, Paulinho foi assassinado. Na fuga, os criminosos deixaram cair um celular ao correrem em direção ao carro que os esperava. De acordo com a delegada do Departamento de Homicídios, Roberta Bertoldo, responsável pelo caso, três suspeitos estão sendo investigados, as imagens das câmeras de vigilância e o celular estão sob posse da polícia, e mais informações correm em sigilo. Na sepultura 343 do Cemitério Campo Santo, da Santa Casa, Paulo foi enterrado pela família. Foram 14 dias no Departamento Médico Legal (DML) à espera de algum parente que autorizasse a retirada do corpo. O Movimento Nacional da População de Rua (MNPR) e o Jornal Boca de Rua, diante da dificuldade em encontrar parentes de Paulinho, organizaram um abaixo-assinado no qual se colocavam como sua família e pediam autorização para realizarem o enterro. Apesar de terem reunido nomes de amigos e companheiros, o documento não foi necessário, parentes de Paulinho foram notificados e realizaram o sepultamento de imediato.

Dias após a morte de Paulinho, seus amigos prestaram uma homenagem e estenderam um varal com suas obras no local onde foi assassinado. Através da arte, manifestaram o desejo de mantê-lo vivo. Mostrar aos que passavam que Paulo existiu. No entanto, o DMLU passou para higienizar a praça poucos dias depois e as relíquias de Paulo foram misturadas ao lixo urbano. Ainda que a memória do artista seja negada pelo poder público, companheiros do Boca de Rua e do MNPR se reuniram para cobrar justiça por Paulinho no dia 05 de abril. Em frente ao Palácio da Justiça, os manifestantes exigiram respostas sobre o crime e visibilidade para a população em situação de rua.

Sob os olhos do Deus católico, de Themis, deusa grega da justiça suspensa no Palácio, e das câmeras que vigiam o espaço, Paulo morreu. Naquela tarde quente de véspera de outono, cinco tiros perfuraram sua carne e deram fim a uma vida que já lhe havia sido negada. Assim como as vidas de seus companheiros, que choraram a sua morte, são negadas todos os dias. Negadas quando saem em busca de emprego e recebem, ao revelar como endereço residencial o albergue público, um vazio e indiferente “entraremos em contato”. Negadas quando veem diante de si os vidros dos carros se fecharem nos semáforos. Negadas a cada comentário de um ódio indiscriminado divulgado pelas mídias. No tabuleiro de xadrez, Paulo foi o peão que é sacrificado para preservar o Rei.

 

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Amigos de Paulinho prestam homenagem no local de sua morte

 

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Amigos de Paulinho se reuniram em frente ao Palácio da Justiça no dia 5 de Abril para cobrar justiça

 

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Amigos expõe retratos de Paulinho, assassinado na Praça da Matriz no dia 20 de março

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