Projeto social transforma refugiado em professor de francês em Porto Alegre

Conheça a história de Mawloud Sourang Junior, o senegalês que passou de vendedor ambulante a professor de francês pelo projeto Bonne Chance

  • Por: Germano Durand e Douglas Stadulni | 21/10/2016 | 0

Quando chegamos no Complexo Vila Flores, no bairro Floresta, fomos recebidos pela professora de inglês Marjorie Hattge. Ela é uma das colaboradoras do projeto Bonne Chance, – “boa sorte”, em francês – uma iniciativa criada pela jornalista e socióloga Ana Emília Cardoso. A proposta é ensinar francês de uma forma diferente, tendo africanos refugiados residindo em Porto Alegre como professores. Para elas, a ação possibilita não somente o ensino e a prática do idioma, mas também uma chance dos novos moradores compartilharem seu conhecimento cultural com os brasileiros.

Lá, procuramos por Mawloud Sourang Junior, ou somente Junior, como o chamamos ao longo da entrevista. Trata-se de um imigrante senegalês de 28 anos, e que há um ano mora em Porto Alegre. Antes de ingressar no projeto, ele trabalhava como ambulante nas ruas da capital, vendendo fones de ouvido e óculos escuros. A iniciativa ajudará o refugiado a melhorar sua renda, mas Junior diz que continuará vendendo os produtos até que consiga se sustentar somente com o dinheiro das aulas.

Mawloud Sourang Junior veio do Senegal para o Brasil em busca de uma vida melhor
Mawloud Sourang Junior veio do Senegal para o Brasil em busca de uma vida melhor. Crédito: divulgação

Ele nos recebeu na porta, o cumprimentamos e fomos convidados a entrar. Conhecemos ali um homem muito educado e tímido. Antes de começarmos as perguntas, o senegalês nos interrompeu e, com um sorriso no rosto, perguntou: “Devo responder as perguntas em português ou francês?”

Junior conta que cursava Direito no Senegal, mas que resolveu sair do país para buscar uma condição de vida melhor. Antes de vir para Porto Alegre, passou por Peru e Equador. No Brasil, andou ainda pelos Estados de São Paulo, ficando pouco mais de um mês, Santa Catarina e Mato Grosso do Sul, onde também deu aulas de francês para brasileiros. Mas acabou se identificando com Porto Alegre. Quando perguntado sobre por que o Brasil, Junior destaca a paz e a receptividade do povo. “Aprendemos na escola que o Brasil é um país muito tranquilo, sem guerras. Aqui tem gente muito acolhedora e do bem.”

Acompanhado do irmão, ele chegou ao Brasil atravessando a fronteira com o Peru, ingressando no país por Rio Branco, no Acre. Junior conta que soube de uma aliança de brasileiros que ajudam refugiados a obterem carteira de trabalho e documentos. Lá, conheceu centenas de senegaleses, que, assim como ele, sonhavam com uma vida melhor. “O brasileiro é muito tranquilo, me sinto como no Senegal. Eu não tenho problema, consigo viver como brasileiro, tenho documentos do Brasil.”

Aos poucos, Junior começou a se sentir mais à vontade. Contou que gostaria de retomar os estudos e que não pretende voltar para o Senegal. Também comentou sobre a dificuldade que foi aprender o português – em vários momentos Junior troca ele por ela, demonstrando dificuldade para absorver a distinção de gênero nos pronomes pessoais na língua portuguesa – e revelou como encontrou as responsáveis pelo projeto. “Marjorie me encontrou na rua. Eu estava vendendo coisas, ela precisava de um fone de ouvido e acabamos conversando. Ela é uma pessoa muito legal, me perguntou se eu falava francês, acabou pedindo meu número e depois me ligou para trabalhar no projeto.”

Professores passam por treinamento antes do início das aulas. Foto: Alecsander Portílio/Divulgação
Professores passam por treinamento antes do início das aulas. Foto: Alecsander Portílio/Divulgação

A dificuldade das ruas
Um momento muito difícil de sua vida foi trabalhar como ambulante nas ruas de Porto Alegre. Ele conta que teve a oportunidade de praticar delitos, mas resolveu se manter na linha, pois não admite este tipo de vida. “Ficar na rua é bem difícil, mas também foi importante para mim, pois assim consegui ganhar a minha vida aqui.”

Além da dificuldade com a linguagem e com a vida nas ruas de Porto Alegre, Junior também citou os preconceitos que muitos refugiados sofrem em nosso país, mesmo considerando os brasileiros um povo receptivo: “Eu queria que as pessoas daqui entendessem que o país deles (dos imigrantes) não é um país abençoado como aqui. Aqui tem empregos, oportunidades.”

Quanto à religião, outro ponto bastante abordado na entrevista, Junior diz que nosso país é semelhante ao Senegal, com liberdade de escolha religiosa. Muçulmano, ele conta que aqui pode praticar sua religião sem problemas. “O Brasil é um país que aceita qualquer culto. Eu consigo praticar minha religião e ninguém me diz nada, isto para mim é liberdade.”

Quando foi perguntado se não sente saudades de seu país, ficou pensativo e abriu um sorriso em seguida, como se estivesse acostumado a responder a esta pergunta. “Minha família está toda em Senegal. Vou visitá-los, mas estou feliz aqui no Brasil. Tenho minha vida aqui”.

Uma chance a refugiados
Segundo o Comitê Nacional para Refugiados (Conare), o Brasil possui atualmente 8.863 refugiados reconhecidos, de 79 nacionalidades – a maioria oriunda da África. Em julho de 1977 entrou em vigor no país a lei de refúgio, contemplando os principais instrumentos regionais e internacionais sobre o tema. A lei adota a definição ampliada de refugiado, estabelecida na Declaração de Cartagena de 1984, que considera a “violação generalizada de direitos humanos” como uma das causas de reconhecimento da condição de refugiado.

As aulas do Bonne Chance começaram no dia 10 de outubro, mas muito antes disso as vagas já estavam esgotadas. Há turmas nos turnos da manhã, tarde e noite, além de sábados. O preço é R$ 100 por mês (uma hora por semana). Os alunos foram divididos entre quem tem pouco conhecimento da língua francesa e quem já tem mais prática. Esta segunda classe terá o foco na conversação e cultura africana. A página do projeto Bonne Chance já conta com mais de 5 mil curtidas no Facebook.

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