Refugiados enfrentam preconceito e desemprego ao tentar recomeço no Brasil

Conheça as histórias do haitiano Felder Chalres e do sírio Abdulbase e suas lutas por um recomeço no Brasil

  • Por: Lauriane de Castro Belmonte | Foto: Camila Lara (4º semestre) | 26/04/2017 | 0

Burocracia e preconceito são os maiores desafios que imigrantes e refugiados enfrentam ao chegar no Brasil. Guerras, perseguições políticas, desastres naturais e fome são problemas que desalojaram mais de 65 milhões de pessoas só no ano de 2015, o maior número desde a 2ª Guerra Mundial. Somente no auge da crise humanitária no mundo, em 2016, que o governo brasileiro tomou providências para facilitar a validação de diplomas de profissionais imigrantes. Mesmo assim, a falta de informações e a dificuldade com o idioma prejudicam o acesso de refugiados aos mais básicos sistemas de atendimento, como o acesso à saúde e a empregos com condições dignas e salubres de trabalho. Além disso, grande parte dos imigrantes em situação de refúgio advém de países com governos ditatoriais e opressores, o que dificulta a criação de vínculo por parte desta população com o Estado brasileiro.

Atualmente, o país com o maior número de imigrantes em situação de refúgio no Brasil é a Síria, que enfrenta uma violenta guerra civil desde 2010. Até o momento o conflito matou mais de 400 mil pessoas, desalojou mais da metade da população síria, cerca de 10 milhões de pessoas, e destruiu cidades importantes para a economia do país, como sua maior cidade, Aleppo, e a capital Damasco. A estrutura brasileira para receber uma demanda tão grande de pessoas em situação de refúgio é uma das maiores preocupações das autoridades responsáveis, pois o país ainda se recupera de uma grave crise financeira.

Felder Charles e a esposa Solene
Felder Charles e a esposa Solene

Um terremoto devastador, e as consequências para o país mais pobre das Américas

A insegurança no Haiti, mais a magnitude de 7,2 do terremoto de 2010, o pior já registrado nas Américas, foram os fatores decisivos para Felder Charles, 37 anos, deixar seu país em setembro de 2014. “Mesmo com dinheiro, eu não vivia em paz. Preferi viver no Brasil a ficar num país destruído e sem esperanças”, conta o haitiano que viu seu país inteiro sucumbir num terremoto de 35 segundos e que deixou mais de 200 mil mortos. A casa onde a família morava, na capital Porto Príncipe, assim como a sede da escola onde Felder Charles lecionava foram destruídas pela força do tremor. As promessas de boas condições de trabalho, mais um clima ameno e a aparente segurança em terras brasileiras trouxeram o restante da família haitiana para o Brasil. “Pouco restou depois do terremoto destruir quase todo o país. Eu fiquei sem trabalho, não tivemos ajuda do governo, passamos fome. Depois de muitos anos tentando sobreviver lá, decidimos vir para o Brasil”, conta o professor de francês, formado pela faculdade de Linguística Aplicada, na Universidade do Estado do Haiti, que encontrou a irmã, e a atual esposa Solene Afrenar, que já estavam na cidade de Estrela, no Vale do Taquari, desde 2012.

Logo depois da chegada ao Rio Grande do Sul, tudo aquilo que parecia ser a esperança de um futuro melhor foi substituída pela frustração, quando Felder Charles percebeu que só conseguiria subempregos, e o seu sonho de voltar às salas de aula estava longe de se concretizar. As dificuldades iam além da burocracia, a validação do diploma dependia de um tradutor juramentado, e nesse momento Felder já havia gastado todas suas economias na vinda da família para o Brasil. No primeiro ano, o professor de francês trabalhou em uma fábrica de rações para animais, trabalho pesado, desgastante. No momento, a família mora entre sete pessoas numa pequena casa na cidade de Estrela, com dois quartos, e pouquíssimo dinheiro, pois somente duas das sete pessoas conseguiram manter seus empregos. “Vou tentar mais um ano por aqui. Estou cansado do preconceito, de ser chamado de haitiano, como se eu não tivesse um nome, uma profissão, minha dignidade. Se não conseguir um bom trabalho, em qualquer cidade, vamos ter que voltar para o Haiti”, conta Felder Charles, decepcionado.

O horror de uma guerra que já matou mais de 400 mil pessoas

Aos 20 anos de idade, no ano de 2010, o jovem sírio Abdulbaset Jarour viu-se obrigado a juntar-se ao exército de Bashar al-Assad, num momento em que o governo da Síria ainda mantinha o controle. Estudante de administração de empresas, dono de uma loja de informática em Aleppo, o jovem tinha uma vida perfeita, como ele define. Morava em Aleppo com a sua mãe, pai, um irmão e três irmãs mais velhas e uma irmã mais nova. “Eu sabia que teria que prestar serviço militar ao meu país, pois era obrigatório. Depois de um ou dois anos eu estaria livre para seguir com meus sonhos”.

Já no primeiro ano trabalhando no exército, Abdulbaset percebeu que as coisas não seriam tão simples nem breves como ele tinha pensado. A Síria entrava num momento tenso, quando em janeiro de 2011, durante a Primavera Árabe, manifestações da população desestabilizaram o governo. Aqueles aparentes dois anos no exército transformaram-se em uma eternidade no momento que a guerra civil começou no país. Abdulbaset foi alocado como motorista, junto de outros amigos que também foram obrigados a servir ao país em guerra. Sonhos adiados, medo de nunca mais voltar para casa, ver seus familiares, perder seus amigos. A vida perfeita de Abdulbaset transformou-se em pesadelo.

Foi no terceiro ano como soldado que a vida do jovem estudante transformou-se definitivamente, e naquele momento, não sabia ele, seu caminho até o Brasil começava a ser traçado. Em maio de 2013, Abdulbaset dirigia o carro que transportava um dos generais do governo sírio quando o comboio foi bombardeado. Gravemente ferido, foi levado a um hospital no Líbano. O jovem não lembra de muita coisa depois de ouvir a explosão que matou oficiais do governo e os seus amigos que dirigiam outros carros no mesmo comboio. Ele já não sabe se foi a sorte ou o destino que salvou a sua vida naquele dia, mas tem certeza que as sequelas vão muito além da perna esquerda ferida.

Depois de recuperado dos ferimentos, Abdulbaset não queria voltar mais para o exército, e tomada esta decisão, não poderia retornar ao seu país, onde seria alvo do exército que antes ele servia. Já em Beirute, capital do Líbano, tendo seus vistos negados nas embaixadas canadense e australiana, o sírio finalmente teve seu pedido de refúgio aceito para viver no Brasil. Dia 8 de fevereiro de 2014, o jovem sírio desembarcava no aeroporto de Cumbica, em São Paulo. “Nem eu acredito o que aconteceu comigo. Nunca imaginei que passaria por essa situação, ter que deixar minha família e a cidade que eu mais amava para trás. Agradeço ao Brasil, por me dar a oportunidade de começar uma vida nova aqui”.

Abdulbaset hoje vive em São Paulo, trabalha como motorista do Uber, mas é como palestrante, contando sua história por todo o Brasil, que Abdul busca conscientizar os brasileiros que a luta dos refugiados é por um recomeço, sem preconceitos, livres de estigmas. “Eu nunca quis a guerra, fui obrigado a fugir do meu país. Hoje só quero viver em paz, e fico muito triste quando me chamam de terrorista, homem-bomba, coisa que nunca fui e sempre lutei contra”. O preconceito é atualmente um dos maiores problemas do ainda jovem sírio, hoje com 27 anos. No mês de fevereiro deste ano, Abdulbaset teve sua casa, na capital paulista, invadida e vandalizada. Ele acredita ter sido obra de um dos seus vizinhos, que luta para expulsar o sírio do condomínio.

Luta que une nações

Ambos personagens destas histórias participaram da Copa dos Refugiados, em março de 2017 em Porto Alegre. Abdul como organizador, Felder Charles na plateia, torcendo por amigos conterrâneos. Os dois travam uma luta comum a todo imigrante que chega ao Brasil, em situação de refúgio ou não. Boas condições de trabalho, reconhecimento e respeito às suas culturas individuais, mas principalmente lutam contra o preconceito, racismo e xenofobia, ainda enraizado na cultura de muitos brasileiros.

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