Um ansiolítico por vaga

Estudos revelam que estudantes colocam em risco a saúde mental por uso indiscriminado de medicamentos para controlar a ansiedade em períodos que antecedem provas como o vestibular

  • Por: Gabriela Porto Alegre | Foto: Gabriela Porto Alegre | 19/11/2018 | 0

“Eu não consigo. Estou há alguns dias da prova mais importante da minha vida, com a chance de me dedicar e obter o meu melhor resultado. Mas eu só consigo pensar que: ‘eu não consigo’. É de manhã, de tarde, à noite. No carro, no ônibus, no cursinho, no caminho para casa. Quando me dou por conta, estou tendo uma crise de ansiedade”. 

Aos 18 anos, a estudante Maria Eduarda Soares sonha em passar no vestibular para Medicina. Moradora de Porto Alegre (RS), ela disputa o curso mais concorrido das universidades do Estado. Só na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) em 2018, foram 8.215 candidatos concorrendo a 98 bolsas de estudo, o equivalente a 83 pessoas por vaga. Na segunda opção da estudante, na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), no vestibular de verão 2018, havia 91 vagas para 3.072 candidatos – o equivalente a um lugar para 33 pessoas.  

A forte concorrência fez Maria Eduarda procurar cursinhos que completassem a sua carga horária livre. Há pouco mais de um ano – e principalmente agora, com a conclusão do Ensino Médio – ela se dedica aos estudos para conseguir uma boa colocação no Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) e vestibulares UFRGS e PUCRS de 2019. Para essas três provas, ela estuda mais de 10 horas por dia. O ritmo é tão forte quanto à pressão psicológica. Para tentar segurar a onda, a estudante toma uma cápsula de Venlafaxina, de 35,5mg. O ansiolítico comprado sem a prescrição médica – que deveria ser obrigatória – é indicado para o tratamento da depressão, associada ao transtorno de ansiedade generalizada e pânico. 

A vestibulanda consome uma caixa da medicação por mês – uma cápsula a cada 24 horas. Um gasto superior a R$ 95 no orçamento da família. Mas é só assim que Maria Eduarda consegue se sentir segura para encarar as responsabilidades de enfrentar um vestibular aos 18 anos, com a pressão de que precisa ser aprovada no curso mais concorrido do Brasil para orgulhar a família. “O efeito dura um dia inteiro, praticamente. Se eu não tomo, fico com uma sensação vaga e desagradável de medo, tensão. Sinto um bloqueio como se eu não fosse capaz de conseguir fazer as coisas que preciso, o que me deixa pressionada e triste. Quando eu tomo, me sinto uma pessoa normal, mais disposta e confiante”. 

De acordo com a psicóloga Flávia Miotto, são muitos os perigos de ingerir uma medicação sem o acompanhamento de um psiquiatra. “Os riscos do uso de medicamentos sem prescrição são os de não ter passado por avaliação médica e realizado exames para verificar a necessidade da medicação. Isso pode provocar efeitos colaterais, alterações físicas e psicológicas no organismo”. 

Segundo Flávia, os motivos que originam a ansiedade são vários. Os seus tipos, também. Desde o momento em que foi classificada uma patologia, a ansiedade se desdobrou em diversas categorias, dentre os quais estão o transtorno de pânico, o transtorno obsessivo-compulsivo, o estresse pós-traumático, a ansiedade social ou generalizada. 

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), cerca de 33% da população mundial sofre de ansiedade. Em resumo, ela é entendida como um sintoma disfuncional da personalidade, provocado por um conjunto de sensações físicas e psicológicas. 

 

“Vão roubar sua vaga!” 

Na altura do número 327, na rua Doutor Flores, Centro Histórico de Porto Alegre, Camila Souza, 19, se prepara para o simulado que fará em poucos minutos. Com o sonho de passar no vestibular para Fisioterapia, ela se dedica há 18 meses, pelo menos. 

A estudante concilia a rotina de trabalho com pré-vestibular noturno e com estudos aos finais de semana. O clima, que no início indicava felicidade e harmonia entre os colegas, hoje está tomado pela tensão. “Há muitos colegas almejando o mesmo curso e são poucas vagas. A gente acaba criando a sensação de que aqui todos somos concorrentes, de que temos que tomar cuidado para que o outro não roube a nossa vaga. Aliás, a expressão ‘vão roubar sua vaga’ é a que eu mais tenho ouvido nos últimos dias”, conta a estudante.  

Cada aula tem duração de 45 a 50 minutos. Na sala, o ambiente é de inquietude. Os alunos se preparam para dar início ao simulado. As janelas estão fechadas por conta do ar condicionado. O tic-tac do relógio marca não só o começo do simulado, mas a aproximação da prova em que Camila acredita ser a mais importante de sua vida.  

A vestibulanda tenta controlar a ansiedade. Sem sucesso. Passados 20 minutos da prova, sente que falhou. “As janelas fechadas, o tic-tac do relógio, a aglomeração de alunos concentrados me fez desestabilizar. Por alguma razão, me fez sentir que eu não era capaz. Senti falta de ar e palpitação, senti um medo que me paralisou. Eu achei que fosse morrer” 

O peso da rotina corrida tem seus efeitos. Tanto o cansaço físico quanto o psicológico foram analisados no estudo Ansiedade e Depressão em Vestibulandos, realizados pelos acadêmicos da Universidade José do Rosário Vellano (Unifenas/MG). A pesquisa apontou que dos perfis observados, 58% sofriam de ansiedade e, quase um terço do público, 28%, de depressão.  

Segundo o mesmo estudo, há um alto índice de consumo de medicamentos entre vestibulandos: 21% disseram utilizar algum tipo remédio para auxiliar na concentração, driblar transtorno de ansiedade, de sono e os sintomas de depressão.  Conforme a pesquisa “os dados levantados revelaram que os vestibulandos de menor renda familiar, devido ao custo de manutenção em cursos pré-vestibulares, expectativa de baixo desempenho no vestibular e demanda de maior tempo para inserção no mercado de trabalho apresentaram um aumento significativo em relação ao nível de ansiedade e depressão”.  

 

“Confiança demais pressiona” 

A 500 metros de distância, em outro pré-vestibular, na Rua dos Andradas, próximo ao número 1.240, está Laura Machado Kagami, de 19 anos. A estudante, diferente das outras vestibulandas, optou por não fazer o cursinho em paralelo ao Ensino Médio. “Eu sempre fui um pouco ansiosa, então eu preferi esperar me formar para me dedicar exclusivamente para o cursinho”, conta.  

Formada no Ensino Médio em 2016, Laura decidiu que era hora de se dedicar ao vestibular. Almejando a aprovação no curso de Arquitetura e Urbanismo da UFRGS, pelo vestibular ou pelo SISU, ela começou num cursinho pré-vestibular que, embora não fosse conhecido, prometia a aprovação. “Eu não ligava muito quando as pessoas diziam que certo cursinho era fraco. Eu achava que dependia da dedicação de cada um. Mas com o passar do tempo, percebi que o cursinho também influenciava no aprendizado e não dependia só de mim”.  

Há alguns meses da primeira prova, o Enem, Laura notou que, apesar de se esforçar bastante, faltava assistência dos professores. Com o descaso, a estudante começou a ficar nervosa achando que todo aquele tempo e investimento tinham sido colocados na lata do lixo. Ela levou quase um ano inteiro assim. Há um mês da prova, Laura teve uma reviravolta. Por conta da ansiedade, ela passou a não dormir e não se alimentar adequadamente. A vida nunca mais foi a mesma. “Eu nunca me senti pressionada diretamente. Meus pais, meu namorado, meus amigos, não me pressionavam. Mas pela confiança que eles me depositam, eu passei a me pressionar”, diz 

Com a prova realizada e o resultado divulgado, Laura não teve o que comemorar. Era hora de, mais uma vez, recomeçar. A estudante trocou de pré-vestibular. Tudo corria bem até a primeira fase do Enem. Com a transferência da redação para o primeiro dia de prova, a vestibulanda viu o mundo desabar quando se deparou com o tema: Desafios para Formação Educacional de Surdos. “Eu gelei. Eu fiz tudo a semana inteira, eu ia sempre bem e tirava mais de 900 nas redações. Na hora, travei. Passei mal, vomitei. Estragou os meus dias de prova. Eu não passei. Depois veio a UFRGS. E também não passei”.  

A frustração, ainda que tomasse conta, não foi o suficiente para que Laura desistisse. Ela novamente trocou de cursinho e encarou as responsabilidades de tornar o sonho uma realidade. A rotina exaustiva fez com que a estudante procurasse ajuda médica. “Antes, eu tomava remédios naturais. Florais, chá de camomila, água de melissa. Mas nada resolvia. Este ano eu busquei ajuda psiquiátrica, mas o remédio receitado era tão forte que me deixava dopada. E esse não era meu objetivo. Eu tinha que estudar, então parei com a medicação por conta própria”.    

Até julho, Laura estava tranquila com a aproximação das provas. Afinal, estudava muito. Quase 10 horas por dia. “Em agosto, comecei a ficar nervosa e achar que tinha feito tudo errado até a metade do ano. Procurei novas maneiras de estudar e comecei a perder o sono novamente. Eu estudo em Porto Alegre e moro em Viamão. Diariamente, acordo às 5h30min. Por vezes, dormia às 3h30min pensando que deveria estar estudando”.   

Todos os dias, ela percorre cerca de 36 quilômetros de Viamão a Porto Alegre – entre ida e volta – para estudar e garantir um bom desempenho nas provas. “Eu sempre cresci querendo passar na UFRGS. Os meus primos todos são formados ou passaram muito cedo. Tenho primos da minha idade que já passaram, menos eu. Eu faço de tudo, mas parece que é um sonho cada vez mais distante. Quanto mais me esforço, mais não dá certo. Eu tenho medo que não dê certo de novo. Todo mundo fala que sou muito inteligente, que eu consigo. Mas confiança demais também pressiona”. 

 

Saúde mental como direito humano  

A Declaração Universal dos Direitos Humanos reconheceu, em 1948, a saúde como um direito inalienável, de toda e qualquer pessoa, como um valor social a ser perseguido por toda a humanidade. Desde então, vários Estados passaram a incluir esse e outros direitos básicos e fundamentais em suas Constituições.  

O Brasil, por meio de forte pressão popular, estabeleceu o acesso universal como um dos seus princípios basilares. No entanto, passadas três décadas da Constituição, o direito à saúde ainda está longe de ser plenamente efetivado.  

Segundo o artigo Frequência do uso de psicofármacos entre jovens estudantes que cursam pré-vestibular, de Éber Eustáquio Cassimiro, parte dos estudantes encontra no uso dos ansiolíticos a válvula de escape para encarar os desafios. “O uso de psicofármacos é alto entre vestibulandos jovens, refletindo a fragilidade às pressões como a concorrência cada vez maior, cobranças sociais e familiares, dúvidas quanto à escolha profissional e outras ansiedades que podem estar relacionadas à idade e a outros fatores”.  

Falar para um ansioso simplesmente controlar seus sentimentos e se acalmar não é o suficiente. Embora as cobranças e a pressão psicológica sejam altas, é preciso, ao menos, tentar manter o equilíbrio.  

Segundo a psicóloga Flávia Miotto, o controle da ansiedade antes de avaliações e provas depende de exercício mental e físico, mesmo sendo algo muito específico de pessoa para pessoa. “Sentir ansiedade leve antes de uma prova é normal, pois é algo novo e por si só gera expectativa. Mas quando acontece numa intensidade maior, é fundamental procurar ajuda, pois os sintomas podem se agravar, levando o paciente a desenvolver doenças mais graves e com prejuízos maiores à saúde física e mental”.  

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