Vagando às margens: como é a vida das mulheres em situação de rua em Porto Alegre

Cinco histórias de força e coragem revelam uma luta diária em busca de sobrevivência e de um futuro melhor

  • Por: Betina D’Avila e Eduarda Endler Lopes | Foto: Eduarda Endler Lopes | 15/05/2017 | 0
As mãos, marcadas pelo tempo, mostram uma luta diária da vida dessas mulheres
As mãos, marcadas pelo tempo, mostram uma luta diária da vida dessas mulheres

Avenida Ipiranga, Porto Alegre, 19h, 32ºC. Um olhar receptivo observava de longe. Quando retribuído, um sorriso se manifestou. Na fila do albergue Instituto Espírita Dias da Cruz estava Maria Luísa Oliveira, de 53 anos, que recebeu a reportagem enquanto aguardava por mais um fim de dia. Maria está há 20 anos vivendo nas ruas do Brasil e, naquele momento, esperava por uma noite tranquila, com banho tomado, lençóis limpos, horário para assistir à televisão e uma boa refeição. A situação de Maria Luísa se repete pelas ruas e avenidas da cidade. Em Porto Alegre, de acordo com o Censo realizado em 2010, cerca de 230  mulheres vivem em situação de rua. E esse número pode ser ainda maior. No último ano, a Fundação de Assistência Social e Cidadania (Fasc) divulgou um dado que apontava um crescimento de 75% da população de moradores de rua nos últimos oito anos. Hoje, 2.115 pessoas vivem nas ruas da capital gaúcha. Entre elas, Maria Luísa.

Maria Luísa: “me sinto mais livre do que dentro de uma casa”
A mulher conta que, para ela, um teto não é fundamental. Apesar de às vezes se sentir sozinha e sentir falta de um lar, vê um outro lado de viver na rua. “Eu me sinto mais livre do que quando estava dentro de uma casa”, relata. Maria, que já viajou por vários estados do Brasil, explica que quando se tem amor, carinho e uma família, um teto não é algo indispensável. Hoje, Maria Luísa recebe acompanhamento do Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), porque está se recuperando do vício em crack, um dos motivos que acarretou a sua ida para a rua. Ela conta que está em busca do LOAS (Benefício de Prestação Continuada – BPC), que beneficia dependentes químicos em situação irregular.

Ao ser questionada com questões sobre abusos que possivelmente ocorrem na rua, Maria dá um longo suspiro e explica: “A mulher que dorme na calçada acaba arrumando um parceiro, uma presença masculina para ter segurança e para proteger. E ela acaba não sendo protegida. Acaba sendo violentada pelo próprio companheiro”. Com um olhar profundo e distante, lembra das diversas situações em que já foi violada, não apenas por parceiros, mas por outros homens que também se encontravam em situação de rua. Ela recorda que certa vez um companheiro a forçou a fazer sexo. Com a recusa, foi agredida, seu nariz foi quebrado e diversos hematomas foram deixados no seu rosto e corpo. “Companheiro do lado é perigoso. A gente – mulher – se cuida melhor sozinha”, reforça.

Maria tem cinco filhos. Destes, dois já faleceram. Ela conta que vê os filhos com frequência, mas que isso somente acontece porque ela procura por eles. Sobre a saudade da família, com a voz embargada, explica: “Tem aquela coisa, né? Saudade dá e passa. Agora o que fica é a mágoa”. A dor que permanece no peito de Maria vem da ilusão de empatia dos filhos, que não auxiliam a mãe. Hoje, a mulher sofreu mais uma decepção. Explica que não tem mais idade para se sujeitar às leis dos filhos, que não pode, do papel de mãe, começar a exercer o papel de filha. “Agora estou voltando com uma mágoa bem maior do que quando eu saí, há dois anos. Deveria ter ficado onde estava. Às vezes pelo telefone a gente se dá melhor do que pessoalmente”, lamenta.

Há 20 anos, quando ainda não havia saído do seu lar, Maria tinha uma casa própria. Sua filha engravidou, dando a ela o papel de pai e mãe. Era incumbido a ela o dever de sustentar todos que moravam ali: filha, filhos, genro, noras, netos. “Foi uma hora quando a tampa da panela explodiu, a pressão veio e eu fui morar na rua.” A defesa que a rua oferece para Maria, hoje, é a fuga da mágoa. A mulher, que viaja por cidades do país, estará, em breve, partindo para mais uma nova rota.

Luciana: “eu sou do mundo”
A rua também se tornou o trajeto de escape de Luciana Soares, de 40 anos. Ainda criança, Luciana foi estuprada pelo companheiro da mãe. Ela explica que na rua é livre, que o sufoco e abuso que sofria em casa não existem. Em meio a frases confusas e com lágrimas escorrendo pelo rosto marcado pelo sofrimento de viver na rua, Luciana afirma repetidamente: “Eu sou do mundo, nasci pra ser do mundo”.

Deficiente física, recebe uma quantia mensal beneficiária do Instituto Nacional de Seguro Social (INSS) e leva a vida com doações da vizinhança de um bairro central de Porto Alegre. Luciana, que diz amar a rua e as pessoas com quem convive, relata o bom acolhimento que recebe semanalmente no Centro POP (Serviço Especializado para Pessoas em Situação de Rua). “Lá eu tomo banho, tem até piscina. Converso com a Marta, minha irmã da rua, ajudo as pessoas com o jornal de rua [Boca de Rua], eu sou feliz”, relata com brilho nos olhos. Com um cigarro em uma mão, mostra, orgulhosa, sua nova carteira de identidade. “Eu tô muito feia na foto, mas tô feliz”. Quando questionada acerca dos seis filhos, comenta que estão todos bem e com saúde. Entretanto, não faz questão de vê-los, uma vez que vivem na zona sul da capital.

Márcia Rosa: medo e aflição
Enquanto Luciana diz amar a vida que leva nas ruas da capital, Márcia Rosa, de 43 anos, sente medo e aflição. Ela, que vive às margens sociais há oito meses, ainda não se acostumou com a violência explícita das ruas. No entanto, relata sentir-se acolhida pelos órgãos municipais e pelo Hospital Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre, onde dará à luz o segundo filho: “Eles me tratam bem, veem meu sangue, medem minha barriga, me tratam como uma pessoa”. Nas ruas, Márcia é protegida pelo pai do filho, Fabiano, que conheceu logo que foi expulsa de casa. Ela já tem uma filha, fruto do casamento com Manuel, a Marina, de 13 anos, e relata não sentir falta da menina. “Como é que eu vou sentir falta de uma menina se eu moro na rua?”, relata, indiferente.

Márcia, grávida de cinco meses, aguarda pela chegada do seu primeiro filho menino
Márcia, grávida de cinco meses, aguarda pela chegada do seu primeiro filho menino

Marina vive com a avó e, apesar de não encontrá-la há seis meses, Márcia espera que a menina conviva com o irmão que chegará. Ela e seu companheiro conquistaram uma residência através do aluguel social oferecido pelo Departamento Municipal de Habitação (Demhab) e pretendem criar não apenas o filho caçula, mas Marina também, “se ela quiser, porque eu não vou obrigar a morar comigo”. Márcia afirma, com brilho nos olhos e um sorriso que transbordava esperança, que finalmente recomeçará sua vida longe da violência e vulnerabilidade das ruas.

Patrícia: “a gente precisa sobreviver”
Debaixo da escadaria histórica da Avenida Borges de Medeiros, sobrevive Patrícia Soares, de 37 anos. Pelotense e mãe de dois filhos, Patrícia sempre teve uma vida difícil e vaga pelas ruas da capital há cerca de nove meses. Desde os 16 anos se relacionando com o mesmo homem e demonstra que as marcas deixadas por ele não serão apagadas. Ele, que a colocou em um relacionamento abusivo a culpando pela primeira gravidez, aos 17 anos, foi a mola propulsora para o início de sua vida noturna. “Eu amo ele, mas outros caras me dão coisa melhor e dão dinheiro também”, relata, com naturalidade. Hoje, ela já não tem mais contato com os filhos. O mais velho vive com a avó materna, e a mãe ainda espera reencontrá-lo. No entanto, o mais novo foi adotado por outra família, que sequer enviou notícias à mãe – algo que foi previamente combinado.

Mesmo na rua, Patrícia não deixa a vaidade de lado, sempre usando brincos e cuidando do cabelo
Mesmo na rua, Patrícia não deixa a vaidade de lado, sempre usando brincos e cuidando do cabelo

Ao longo de sua juventude, Patrícia deixou-se levar pelo mundo das drogas e da prostituição, mas não parece conviver com arrependimentos: “a gente precisa sobreviver, comprar um lanche, um guaraná. Comprar o que gosta, né?”. Mesmo tendo as ruas de Porto Alegre como lar, Patrícia não dispensa a vaidade. Conta sua história com o ex-companheiro enquanto olha para as unhas pintadas, ajeita o brinco e o cabelo e retoma, na esperança de retornar à vida que sempre teve: “na noite eu me acho bonita, é quando eu gosto de mim”. Sonhadora, Patrícia carrega consigo a esperança de voltar a Pelotas e ter a vida estável que nunca teve, mas não pretende se desfazer da rotina noturna em boates. Sobre o envolvimento e dependência com drogas, afirma que jamais vendeu algum pertence ou furtou de outrem, mas considera certas drogas como um refúgio para a solidão que sempre esteve ao seu lado.

Simone*: “levo a vida como posso”
Lonas. Papelões. Cobertores. Cordas. Plásticos. Um carrinho de compras. Uma estrutura improvisada com estes itens afixados no parapeito do Arroio Dilúvio se tornou o lar de Simone*. Simone tem 43 anos e há 3 vive na margem do arroio que corta a Avenida Ipiranga em Porto Alegre, na esquina com a João Pessoa. Apesar de viver em um ponto da cidade com intenso movimento, tanto de pessoas quanto de veículos, classifica sua vida como normal e afirma que não sente medo. “É como se eu tivesse levando a vida numa casa normal, uma vida igual a de todo mundo, só que eu não tenho moradia fixa”, explica.

Simone* vive em um ponto movimentado da cidade de Porto Alegre e tira sua renda da reciclagem
Simone* vive em um ponto movimentado da cidade de Porto Alegre e tira sua renda da reciclagem

Há 3 anos, Simone percebeu que não tinha condições de levar a vida que possuía. Não conseguia pagar o aluguel, frequentemente era colocada para a rua pelos seus locatários, não tinha uma vida financeira garantida. Quando compreendeu que não era capaz se manter daquela forma, tomou outro rumo e decidiu ir para a rua. “Eu que escolhi essa vida de rua”, afirma. Trabalhando há mais de 12 anos com reciclagem, sonha em sair da rua. Apesar disso, tem noção de que só conseguirá isso quando ter condições de pagar o aluguel e se manter. No momento, vive do dinheiro que consegue juntando materiais recicláveis e doações.

De dentro dos carros que ficam ao seu lado enquanto o sinal não abre, as pessoas a olham com desprezo e indiferença, com a janela fechada, como se criasse uma divisão entre os mundos, um melhor que o outro. “Pra eles, isso não é vida. Mas o que eu vou fazer? Não tenho condições de me manter. Eu levo a vida como posso. Quer gostar de mim quem queira. Não quer? Muito obrigada. Eu não tô prejudicando ninguém. Por isso que as pessoas me ajudam”. Simone relata que, ao mesmo tempo que recebe muitas doações e ajuda de pessoas que a enxergam ali, em outras situações é humilhada.

Há anos morando em frente ao Hospital Ernesto Dornelles, quando precisou de ajuda, sentiu na pele a indiferença. “Eles me correm, me tiram pra lixo. Ali eu não sou gente. Eu sou um bicho que mora debaixo de uma lona. Eles têm preconceito com pessoas que vivem dessa maneira”, lamenta, com um olhar de revolta. Ela conta que, em certos momentos, o hospital desliga o registro de água de fora do local para que ela não pegue água. “Nessa situação, tu percebes que se tu não tens dinheiro, tu não és um ser humano, tu és um animal. Eles fazem eu me sentir isso aí”.

Simone acredita que os filhos, que moram com sua mãe, saibam que ela vive na rua. Mas desabafa que não quer que eles a vejam ali. Ela explica que leva a vida como pode, que visita seus filhos na casa da mãe quando tem tempo, mas que gosta de ter a própria vida, da sua independência. “Como eu não tenho condições de viver no meu canto, eu vivo como eu posso. Pra mim, é como se eu estivesse dentro de uma casa. Só, simplesmente, ali não é uma casa, é um pedaço de plástico. Mas, pra mim, é a minha casa, a minha moradia”.

Simone conheceu seu companheiro na rua, há 3 anos e, desde lá, estão juntos. Onde moram, várias adversidades já aconteceram, fazendo com que o casal perdesse o pouco que tinha. Durante o inverno, as tormentas de junho e agosto prejudicaram o casal, além do frio constante. Ela conta que a Prefeitura de Porto Alegre já tentou removê-los do local, tirando todos os seus pertences. Ela salienta que tem a sua liberdade, com direito de ir e vir e que, nessas situações, é prejudicada. Simone já perdeu as contas de quantas vezes já foi ferida pela indiferença, mas explica não vê sua vida de forma ruim. “Eu vivo como qualquer outra pessoa que tem uma casa, não me sinto diferente de ninguém, a diferença é que eu não tenho um lar, uma vida decente, eu levo uma vida difícil”, destaca.

Maria Luísa, Luciana, Márcia, Patrícia e Simone, cinco mulheres que, além de compartilharem as ruas da capital gaúcha, dividem a esperança – algumas, de saírem da rua e terem um futuro melhor, outras, de apenas sobreviver da forma que estão. Todas deixaram para trás uma história, seja de um relacionamento amoroso frustrante, de uma família que não sente empatia ou de filhos que não sabem a condição real em que as mães vivem. Entretanto, até hoje essas mulheres carregam o peso dessas bagagens. Essas mulheres, que trazem consigo marcas inapagáveis, transbordam força e coragem. Suas mãos, marcadas pelo tempo e pelo trabalho, expressam a luta diária em busca de sobrevivência.
*A fonte pediu para que não fosse identificada.

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