Vila Tronco: a copa não passou por aqui

Promessas feitas em 2011 se transformaram num verdadeiro tormento na rotina da comunidade de pouco mais de 600 famílias

  • Por: Rafael Anele | Foto: Rafael Anele | 30/10/2017 | 0
Destroços tomam conta de calçadas
Destroços tomam conta de calçadas

A partir da escolha de Porto Alegre para ser uma das sedes da Copa do Mundo e Futebol do Brasil, em 2011, moradores da Vila Tronco, zona sul da capital, vivem sem saber o que vai acontecer na comunidade. A localidade integra o planejamento inicial da prefeitura no que se convencionou chamar de “obras da copa”. Pelo plano, a Avenida Tronco, que corta a Vila, começou a ser duplicada em 2012, como previsto, mas ainda não foi concluída. Duplicar a via significa remover famílias que vivem no local, algumas há mais de 50 anos. O poder público municipal sustenta que parte dessas famílias estariam irregulares. O argumento é contestado por moradores.

O fato é que a comunidade não sabe o que vai acontecer. A Prefeitura de Porto Alegre não tem uma previsão para a conclusão da duplicação da Avenida Tronco, assim como ocorre com outras chamadas “obras da Copa”. Uma nota divulgada pelo Executivo em agosto informa que a prefeitura encaminhou à Caixa Econômica Federal uma proposta de revisão do contrato de financiamento das obras. O governo quer redirecionar parte do saldo de R$ 249,43 milhões disponíveis para os BRTs (Bus Rapid Transit) para garantir a conclusão da duplicação. Esse redirecionamento, junto com um financiamento de R$ 120 milhões, serviria para ressarcir os moradores e finalizar a duplicação da Avenida Tronco.

Com o dinheiro disponibilizado, a previsão de término da obra é estimada entre dezembro de 2018 e dezembro de 2019. Enquanto nada acontece, os moradores seguem preocupados com a situação na Vila.

A família Mendonça é um exemplo. Está no local onde o pai construiu a casa há mais de 50 anos. Agora, a prefeitura tenta negociar a saída de todos. Dentro do terreno, duas das irmãs moram juntas com seus filhos. São três casas pequenas para todos se acomodarem. Olinda Mendonça, aposentada, 83 anos, fala que mesmo pagando alguns tributos se sente como não existisse. “Aqui, nos tratam como lixo. Quando pagamos as contas, somos ótimos. Mas nós não recebemos retorno”, critica Olinda.

Olinda Mendonça reclama que paga tudo em dia
Olinda Mendonça reclama que paga tudo em dia

A irmã de Olinda, dona Alzira, garante que não pretende sair dali. Segundo ela, há algum tempo a prefeitura chegou na Vila Tronco com máquinas.  Alguns locais foram destruídos. Foi num momento antes de se iniciar um processo de negociação entre as partes. Atualmente, muitas das ruas da Vila Tronco estão repletas de entulhos. Em algumas residências, esses restos da obra inacabada estão na porta das casas.

Entre idas e vindas deste processo exaustivo para as famílias, a prefeitura chegou a ingressar com um processo de remoção das famílias que moravam ao lado do Arroio Cavalhada. Segundo a Secretaria Municipal de Planejamento Estratégico e Orçamento, o Executivo tem um planejamento desde a época do governo José Fogaça, cujo Programa Integrado Socioambiental (PISA) busca apresentar mudanças de orientação na política habitacional para melhorar a situação de extrema vulnerabilidade de Porto Alegre.

Pelo atual projeto da obra da Vila Tronco, a família Mendonça teria que sair do terreno, uma vez que a área é estratégica para a duplicação por concentrar uma grande movimentação de veículos. Parte dos moradores é resistente e repete que não quer sair do lugar onde vivem. É o caso de Alzira. Ela garante viver feliz onde está.

“Eu sei que aqui eles querem fazer novas estradas e modernizar a cidade, mas nosso pai construiu nesse terreno e ninguém nunca reclamou da nossa presença aqui. Por que devo sair agora que estou no fim da minha vida?”, questiona Alzira.

Ao fundo, Alzira Mendonça (E) e Olinda Mendonça (D)
Ao fundo, Alzira Mendonça (E) e Olinda Mendonça (D)

Iniciada em maio de 2012, a duplicação da Avenida Tronco, que abrange os bairros Teresópolis, Cristal e a Vila Cruzeiro, previa, em seu projeto original, a extensão da via em 5,3 km, implantação de ciclovia e de corredor de ônibus, tratamento paisagístico e reassentamento de 1.525 mil famílias. Entretanto, as obras, com apenas 30% concluídas, estão paradas desde outubro de 2016.

Conforme o Departamento Municipal de Habitação (Demhab), a falta de recursos do Executivo interrompeu o andamento dos trabalhos, com o atraso no pagamento do consórcio de empresas que atua na obra e na realocação das cerca de 600 famílias que ainda permanecem na região e que não aceitaram acordo com o Executivo até agora.

Uma pessoa que não conseguiu negociar é Márcia dos Santos, que mora há 17 anos no local. Ela reclama que várias reuniões foram feitas com a prefeitura e outros órgãos, sem acerto. Além disso, o pagamento da compra-assistida, que possibilitaria aquisição da nova moradia e que o município prometeu, ainda não foi pago. Pelas regras da compra-assistida, a prefeitura é responsável por disponibilizar um valor de até R$ 60 mil para a compra da casa nova. Esses recursos podem ser usados para imóveis, novos ou usados, e registrados no programa PISA. Os beneficiados com o bônus não podem transferir o dinheiro ou o imóvel por cinco anos a outras pessoas sem a concordância da prefeitura.

O acúmulo de restos de obra e lixo preocupa Márcia. Segundo ela, o estado das vias dificulta até mesmo a chegada de socorro, como ambulâncias ou polícia. “Com essa montanha de resto de obras e a buraqueira, quase não há condições de passar veículo nenhum. O meu carro foi para o concerto umas cinco vezes”, reclama. Mas nem a precariedade do lugar convence Márcia que deixar a Vila Tronco.

“Não gostaria de sair daqui. Não saio porque adoro a região. Tem tudo perto: supermercado, colégio dos filhos, o Postão (posto de saúde)”, justifica.

Marcia dos Santos mora há 17 anos no local
Marcia dos Santos mora há 17 anos no local

Segundo moradores, a intervenção da prefeitura provocou a fragilização do movimento comunitário. Não foi feito uma negociação geral com a comunidade reunida. O processo ocorreu caso a caso, com cada família.  Perto de onde elas moram, a prefeitura montou um escritório para negociar a remoção do lugar. As famílias que desejam negociar podem optar entre a compra-assistida e o aluguel social.

Paulo Cesar Silva, de 60 anos, é um exemplo. Saiu do terreno de onde estava e com o dinheiro que recebeu se mudou para uma casa que não seria afetada pela obra. Segundo Silva, os vizinhos não tiveram a mesma sorte que ele. Muitos não tem conseguido sair do terreno por causa do valor baixo que a prefeitura oferece. Além disso, quem opta pelo aluguel social, o repasse da quantia está atrasado. Ele também reclama como foi tratado:

“Tiveram muita pressa para me tirar de onde eu estava. Um ano depois que me mudei, vejo que os destroços da minha antiga casa ainda estão lá. Admito que onde estou morando agora é um pouco melhor, mas se era para a obra ficar parada, porque me tiraram correndo?”, questiona.

E não é só a pressa da prefeitura que Silva critica. A pauta de reclamações dele e de outros moradores é ampla: acúmulo de destroços de demolição, insegurança, esgoto a céu aberto, prejuízos para a mobilidade e para o comércio, entre outras.

Paulo Cesar se lembra onde era a sua casa
Paulo Cesar se lembra onde era a sua casa

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