Vó Chica vive: a força que vem do passado

Projeto social revive memória de moradora e transforma a realidade de crianças na Zona Norte de Porto Alegre

  • Por: Annie Castro | Foto: Roberta Requia | 09/05/2017 | 0

Em uma que era para ser apenas outra rua normal da capital gaúcha, encontram-se postes de luz com rostos sorridentes desenhados, algumas paredes com ilustrações coloridas e uma pracinha – onde uma placa rosa com a frase “Praça Vó Chica” já conta um pouco da história dessa comunidade. Ali, na esquina da primeira quadra da rua Luiz Sibemberg, no bairro Mário Quintana, já é possível avistar o muro azul da casa de número 345. A residência do pintor de paredes Cláudio Roberto Pagno da Costa, de 54 anos, se destaca ao lado das outras. É nela que está o espaço cultural que há 11 anos devolve a autoestima e a esperança dos moradores da Vila Safira: o Projeto Atitude Vó Chica.

A casa de Cláudio é também um espaço cultural
Na casa de número 345 da rua Luiz Sibemberg está o espaço cultural Projeto Atitude Vó Chica

Do outro lado da rua, no número 346, mora Cecília Garcia de Oliveira. Uma senhora de 90 anos, dona de olhos amorosos e sorriso acolhedor. Ela é um dos oito filhos da mulher que inspira até hoje a comunidade do bairro: Maria Francisca Gomes Garcia, ou Vó Chica, como foi apelidada carinhosamente pelos vizinhos. Ela foi um exemplo de bondade e generosidade. Era benzedeira, parteira e conselheira. Faleceu aos 107 anos, mas seu nome e sua vida são diariamente homenageados pelo projeto social voltado para as crianças da vila.

“Era uma pessoa poderosa”, comenta Cecília. Sentada em uma cadeira de abrir no pátio de sua casa, portando um lenço colorido enrolado na cabeça e um sorriso contagiante, ela compartilha as lembranças que tem da mãe. Vó Chica era negra e filha de pais escravos, nasceu em Tapes, no Rio Grande do Sul, em 1876, alguns anos antes da abolição da escravatura. Porém, foi só na década de 40 que ela se mudou com o marido e os filhos para a Vila Safira. Naquela época, além deles, havia somente outros dois vizinhos na rua. Com o passar dos anos e o crescimento do bairro, a casa da família passou a ser um local de refúgio para as crianças da rua e estava sempre cheia delas, que ouviam com atenção as histórias da Vó Chica.

Cecília e o livro ilustrado que conta a história da sua mãe, a Vó Chica
Cecília e o livro ilustrado que conta a história da sua mãe, a Vó Chica

Foi assim que o pintor a conheceu. Aos 13 anos, saiu do bairro Bom Jesus e se mudou com os pais e dois irmãos para a casa que hoje abriga o projeto. Passou a conviver com os netos da Vó Chica, que regulavam de idade com ele, e a frequentar o número 346. “Eu gosto de dizer que fui educado por ela. Porque quando ela ensinava a eles o que era certo e errado, ela estava educando eles e se eu estava junto estava sendo educado também”, conta. Além desse legado, a Vó Chica também é uma inspiração para Cláudio e para os moradores da vila. “A nossa força vem do passado, dessa força que ela tinha”, afirma.

A casa da árvore de Cláudio
O projeto, que também trabalha com igualdade e com causas raciais, completou 10 anos em 2016, mas tudo começou há 15, quando a pracinha que hoje diverte crianças na rua Luiz Sibemberg ainda era uma espécie de lixão a céu aberto. O terreno era cheio de lixo doméstico, resto de construção e animais mortos. Incomodado com a situação, o pintor realizou uma pesquisa na Secretaria do Meio Ambiente de Porto Alegre (SMAM). Descobriu que desde 1962 havia um projeto de praça previsto para o local. Após muitas tentativas com a prefeitura, a comunidade ganhou um espaço de lazer. Para Cláudio, foi o início de uma transformação e a oportunidade de celebrar uma moradora: “A gente precisava de um símbolo para elevar a autoestima do bairro. Isso aqui era só mato, aqui não tinha rua, era trilho, passava só de a pé. E nós conquistamos até o asfaltamento. Além de homenagear a Vó Chica. Uma pessoa tão generosa e que viveu tanto fazendo o bem. Os negros não estão em nomes de praças, não são protagonistas” conta.

O pintor Cláudio com os cartazes recicláveis usados nas atividades do projeto
O pintor Cláudio com os cartazes recicláveis usados nas atividades do projeto

Foi assim que o Projeto Atitude – como Cláudio gosta de chamar – nasceu. O que inicialmente era voltado apenas para o entretenimento acabou se tornando a materialização de um sonho antigo. “Sabe quando a gente é criança e quer ter aquela casa na árvore? Mas cresceu e não teve? Então a gente pode oferecer para os que tão vindo. Eu acho que o segredo da vida também é isso: tu oportunizar os teus sonhos para os outros. Eu acho que o Vó Chica é isso, minha casa na árvore”, conta. Atrás da porta cinza no muro azul há um corredor comprido que leva até o espaço que abriga cerca de 40 crianças aos finais de semana. Tudo ali é cor, é vida. As paredes da casa, as janelas, os corrimãos. Por todo lado dizeres positivos como, por exemplo, a frase “gentileza gera gentileza”. É para as crianças que são voltadas todas as iniciativas do projeto: iniciação ao ballet, à informática, terapia, a campanha de arrecadação de materiais escolares – que só esse ano gerou cerca de três mil kits. Além disso, Vó Chica tem parceria com as quatro escolas do bairro, onde consegue chegar até mais de quatro mil crianças.

Por ser totalmente colaborativo, tudo na sede do projeto foi construído através de doações. Começou em uma pequena peça, que hoje contém quatro computadores, uma biblioteca, que abriga cerca de mil livros, e um banheiro. “Puxamos prali puxamos pra lá. As construções se deram com a ajuda de amigos. Um deu a telha usada, outro, a madeira. Cada vez que aumentava um pouco eu já ia atrás deles”, lembra Cláudio. As mesas e cadeiras, o canto de meditação, tudo foi conseguido através de conhecidos ou das redes sociais – ferramenta utilizada como forma de divulgação das campanhas e necessidades do Vó Chica. Até mesmo as roupas e sapatilhas utilizadas na iniciação ao ballet. Poucas horas depois que Cecília compartilhou suas memórias, duas moças passaram de carro e uma delas gritou: “Cláudio, tem umas coisinhas do ballet ali em casa, tu vai tá ali sábado? E tem vaga ainda?”. Para ele, o que gera essa confiança é a credibilidade e a transparência do projeto. “É uma rede que a gente conquistou”, comenta.

Uma das campanhas atuais do Vó Chica é da Tocha da Paz, iniciativa simbólica que pretende imitar a Tocha Olímpica, sendo carregada pelos alunos das quatro escolas do Mario Quintana, a fim de integrar ainda mais os estudantes e a comunidade. Além disso, esse apoio se estende para além das fronteiras da Zona Norte. O Vó Chica também se relaciona com outras comunidades, por exemplo com uma aldeia Guarani, perto de Itapuã, no extremo sul da Capital, onde distribui cestas básicas e materiais escolares para 57 famílias.

Apesar de voltado para as crianças, o resultado das ações do projeto reflete na comunidade da Vila Safira. Hoje em dia, um dos bairros de Porto Alegre com o menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), segundo uma pesquisa do Atlas do Desenvolvimento Humano nas Regiões Metropolitanas Brasileiras, de 2014, acabou ganhando destaque para além das páginas policiais dos jornais, virando um exemplo de cidadania e trabalho coletivo. “Nós precisávamos elevar a autoestima da comunidade. Não tinha luz na rua, não tinha esgoto, não tinha calçamento. Além de que quando saia no jornal era sempre roubo e violência. Iniciação ao ballet quando que ia ter aqui? A gente só via isso no Petrópolis, no Menino Deus, passando de ônibus. E hoje em dia as mães e as avós descem essas lombas para trazer as meninas para a aula. Então de certa forma é isso né, fazer esse sonho acontecer”, conta Cláudio.

Os textos, imagens, áudios e outros materiais oferecidos pela Agência J são distribuídos sob a licença Creative Commons – Atribuição-SemDerivados 3.0 Não Adaptada. O material pode ser usado para qualquer fim jornalístico, desde que seja publicado na íntegra, sem modificações, e seja atribuído ao(s) autor(es) conforme o seguinte modelo: Nome do Autor ou autores (Famecos/PUCRS). A produção da Agência J pode ser acompanhada via newsletter, enviada semanalmente com materiais jornalísticos inéditos. Assine a newsletter neste link.