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DIREITO À EDUCAÇÃO • 24 de agosto de 2017
Em meio a crise na rede municipal de educação, a ex-babá Adelaide Gomes de Andrade, 94 anos, busca na escola realizar o que desejou por toda a vida
Texto: Gabriel Bandeira (4º Semestre)
Foto: Igor Janczura Dreher (4º Semestre)
Adelaide Gomes de Andrade na biblioteca do Centro Municipal de Educação para Trabalhadores Paulo Freire

Adelaide Gomes de Andrade na biblioteca do Centro Municipal de Educação para Trabalhadores Paulo Freire

Aos 94 anos, Adelaide Gomes de Andrade acredita que ler não é o bastante. Ela quer “ler muito bem, bonito e escrever tudo direitinho”. É um interesse pela própria independência, uma promessa que não vai morrer, um dever que ela vai cumprir. Alimentado por nove décadas, o sonho ganha forma a cada passo nos corredores da escola. Perto dos 100 anos, profere essas palavras com um olhar determinado e um sorriso seguro nos lábios, de quem tem fé no futuro.

Na tarde ensolarada de protesto contra as novas diretrizes para educação municipal, adotadas pelo  prefeito Nelson Marchezan Jr (PSDB), em frente a prefeitura, dona Adelaide se fazia presente.  Naquele dia, mães, alunos e professores da rede municipal ocupavam o espaço em torno da histórica Fonte Talavera. Dona Adelaide batia palmas e entoava gritos de ordem no mesmo ritmo dos jovens.

A ex-babá nasceu em 10 de setembro de 1922, na cidade de Santo Antônio da Patrulha. Natural da terra da cachaça, do sonho e da rapadura, não esconde a sua preferência por qualquer tipo de doce. Foi trazida por um banqueiro para a Capital, em 1941, durante a enchente que inundou o Mercado Público. Aqui, tirou seu sustento trabalhando como babá do filho do homem.

Os longos cabelos e a maquiagem ficaram para trás. Quem vê Adelaide, enxerga uma senhora pequenina, de cabeleira mesclada entre cores escuras e a branquidão da idade. No corpo, apesar do calor, opta por uma camiseta laranja coberta por um casaco cinza. Em seu rosto, gotas de suor brilhantes ditam seu ritmo elétrico. Antes de conversar com a reportagem, recém tinha chegado do dentista. “Não me sinto cansada, ando dormindo até demais. A pressão baixa me dá muito sono. Quanto menos eu durmo, melhor. Gosto de me mexer”, revela.

Por toda sua vida, Adelaide tentou aprender a ler, mas por diversos motivos isso não foi possível. Ao todo, ela estudou em três instituições de ensino, incluindo uma particular. Sofrendo com o baixo número de alunos ou falta de professores, todas fecharam, prejudicando a sua aprendizagem. “Trabalhava de dia e chegava de madrugada. Depois fiquei estudando em casa sozinha, mas era ruim, não tinha ninguém para ensinar”, lembra.

Ela mora sozinha ao lado da casa do único filho. Com 66 anos, ele está internado após sofrer um infarto, mas conta com as visitas da mãe quase diariamente. Desde 2003, Adelaide passa as semanas no Centro Municipal de Educação para Trabalhadores Paulo Freire, na Rua Santa Terezinha, no Bairro Santana. Lá, entre 900 alunos de diversas gerações, atende às oficinas de artesanato e aulas de letramento.

“Muita gente me pergunta qual é o segredo da minha longevidade? Respondo que não sei. Acho que o segredo é se dar bem com as pessoas, ser alegre com todo mundo, não virar a cara para ninguém. Todos nós não somos filhos de Deus?”, questiona refletindo diante do assédio dos colegas mais jovens.

A colecionadora de santos conta não ter preconceito com diferentes religiões. Católica, convive com parentes e amigos evangélicos sem discutir o tema. Brinca que a única religião que ela não vai é a umbanda porque nunca foi convidada. Se fosse, ela iria. ”Não posso dizer se presta ou se não presta. Às vezes, as pessoas passam na rua e ficam bravas com as oferendas. Se eu passo, não vou sapatear em cima, não vou fazer nada. Eu respeito”, afirma.

Em Porto Alegre, pôde presenciar grandes eventos e mudanças no cotidiano da cidade. Trabalhando perto da Rua da Praia em 1954, foi socorrida de um prédio em chamas, durante a revolta gerada pelo suicídio do presidente Getúlio Vargas. Dois anos depois, quando voltava do serviço com a amiga,  quase foi baleada na Praça General Daltro Filho, próxima ao Capitólio. No amor, se apaixonou por um militar-cantor, mas nunca chegou a falar com o pretendente. Descobriu mais tarde que o rapaz também alimentava pensamentos por ela.

Sente saudades da época em que podia sair sem medo pela cidade, das matinês no cinema com as amigas, dos antigos colegas que já se foram. Hoje, resta pensar se estão vivos ou não, um exercício cotidiano de imaginação.

Outro sonho de Adelaide era ser enfermeira socorrista. Mas esse não se concretizou. Lembra que queria seguir a profissão desde pequena. Tinha até livro de enfermagem, que carregava para todos os lados. Afim de aprender a profissão, chegou a passar um tempo na Cruz Vermelha, porém, não chegou a fazer nada relacionado.

Durante sua vida, sempre fez questão de votar nas eleições. “Menos no Marchezan”, frisa rindo. “Enquanto estiver andando pelas ruas, continuarei votando. Tem que votar em quem quer, independente se vai ganhar ou não. Não vou votar em quem não quero”, conta ao lembrar a disputa para prefeitura de Porto Alegre no segundo turno entre Marchezan e o peemedebista Sebastião Melo, no ano passado.

“A política no Brasil tá virada numa coisa. Se não mudar… Se não mudar vai ficar um tempo assim. Ainda não tá para melhorar, mas uma hora vai. Têm que melhorar. Vamos levando”, comentou confiante.

Adelaide exibindo os fuxicos que costura

Adelaide exibindo os fuxicos que costura

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