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LEITURA • 24 de abril de 2017
Biblioteca comunitária é ponto de acesso à cultura na Vila das Laranjeiras
Texto: Mia Sodré (3° semestre)
Foto: Annie Castro (6° semestre)

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Pouco mais de 400 livros em um espaço minúsculo de uma garagem emprestada. Paredes de madeira pintadas com mãos infantis, desenhos e símbolos de protesto e revolução. É nesse local que Sidney Bispo, idealizador do Coletivo Visão Periférica, armazena seu pequeno acervo literário, aberto a todos da comunidade da Vila das Laranjeiras, no Morro Santana, em Porto Alegre.

Prestes a completar quatro anos de existência, a Biblioteca Comunitária Visão Periférica é um espaço livre: sem horários, sem catálogos e sem um bibliotecário para registrar livros emprestados ou adquiridos. Todos contribuem, participam e desfrutam das histórias lá contadas, seja em silêncio ou em rodas de contação.

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A possibilidade de escolher qualquer livro, sem necessidade de registrar o empréstimo, aumenta o interesse das crianças.

Com o apoio de cerca de 30 pessoas, o Coletivo tem sobrevivido. Funcionando como um organismo vivo, cada um coopera pelo bem de todos. Sidney, que estudou até a sétima série e trabalhava como autônomo, vendendo coisas na rua, um dia, em suas andanças, começou a receber doações de livros e se deu conta de que é esse o tipo de ação que transforma vidas de pessoas, assim como transformou completamente a dele. Então, procurou a biblioteca comunitária do Chocolatão, e lá entrou em contato com a ONG Cirandar e o projeto Redes de Leitura, que lhe deu uma base para organizar sua iniciativa cultural.

O idealismo de transformar vidas e construir perspectivas através da literatura e da cultura alternativa se reacende diariamente a cada criança que lá chega. “De repente, vem uma criança aqui, cata um livro, pede pra gente ler… Às vezes, elas não querem nem ler, mas querem estar aqui por gostar do ambiente, por gostar das pessoas, da música… Me sinto muito contente quando elas pedem pra eu ler algo, mas o simples fato de elas terem uma outra alternativa ao que elas já têm por aí no dia-a-dia mundano, particularmente é o que me mexe”, afirma Sidney.

Em um clima descontraído e permeado de risos infantis, Sidney contou que o projeto foi criado como uma alternativa cultural para as crianças, se tornando muito mais do que apenas um espaço físico de literatura. Lá, membros da comunidade se reúnem não somente para emprestar livros, mas também para realizarem saraus, ecotrilhas, luaus com apresentações de poemas, música e manifestações artísticas diversas e plantar verduras e hortaliças na horta comunitária, também criação do Coletivo.

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Música também faz parte da rotina na biblioteca.

Como nem só de livros e música vive uma comunidade, o Coletivo criou a horta comunitária “que é algo para o povo realmente se alimentar e não ter que ficar pagando muito no mercado. Fortalecer o que a gente tem aqui”, diz. A construção da horta, além de ser extremamente importante pela questão do consumo sustentável dentro de uma vila pobre de Porto Alegre, também se tornou uma forma de unir as pessoas, que agora fazem parte de uma atividade cooperativa e voluntária.  

Sob a ideologia da liberdade e do respeito, o grupo de mediadores de leitura, que promove o acesso à literatura indicando livros apropriados para cada faixa etária e organizando eventos como contação de histórias coletiva,  trabalha em tempo integral no voluntariado, numa política de união e fortalecimento, visando o crescimento da comunidade e a abertura das mentes das crianças que lá frequentam para realidades que elas desconhecem. “A gente tá alicerçando a cultura dentro da vila”, diz Sidney, com um sorriso.  

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A tecnologia está ligada diretamente ao processo de aprendizado das crianças.

A biblioteca foi recentemente fechada para reorganização, mas aceita auxílio de livros diversos como também materiais para construção. Ela pode ser contatada pela página do Coletivo no Facebook.

 

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