10ª Bienal do Mercosul valoriza arte da América Latina

  • Por: Cândida Schaedler (7º semestre) | Foto: Tarlis Schneider (“Bat Cave”, do artista Tony Smith, exposta na 9ª Bienal do Mercosul) | 02/06/2015 | 0

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Colocar a arte da América Latina no centro da exposição e corrigir pontos encobertos pela historiografia e pela crítica ao longo dos anos. Esta é a proposta da 10ª Bienal do Mercosul, cuja edição de 2015 terá como tema geral Mensagens de Uma Nova América. O mais importante evento de arte do Estado já tem data para ocorrer: da primeira quinzena de outubro até a última quinzena de novembro, espalhando-se por Porto Alegre. Há quatro meses da abertura do evento, o Editorial J revela, em primeira mão, como estão os preparativos e qual será a proposta da décima edição.

A montagem das exposições da Bienal deve se iniciar em setembro. No momento, a equipe está finalizando a seleção de obras, que deve ser concluída nos próximos 30 dias. “É uma engenharia monstruosa. Estamos pedindo muitas obras de coleções de museus e de coleções privadas. Já temos material de 24 países”, revela o curador-chefe, Gaudêncio Fidelis. Os artistas que integrarão as mostras só devem ser revelados no mês que vem. Para Fidelis, não faria sentido conceitual, em um universo de em média 400 nomes, dar relevância a apenas alguns. “Queremos construir uma plataforma expositiva horizontal”, define.

Os espaços de exposição serão praticamente os mesmos das bienais anteriores. Apenas um será incorporado, que é o Instituto Ling, localizado no bairro Três Figueiras, na Capital. Os demais serão o Memorial do Rio Grande do Sul, o Museu de Arte do Rio Grande do Sul (Margs) e o Santander Cultural, além da Usina do Gasômetro, a Casa de Cultura Mario Quintana e o Centro Cultural Érico Veríssimo. Alguns patrocinadores já confirmados para essa edição são Petrobras, Gerdau, Itaú, Santander, Vonpar, Lojas Renner e DuFrio.

De toda a exposição, o curador destaca algumas mostras que considera mais surpreendentes. A produção do Chile, da América Central e do México deve impressionar o público, segundo ele. Também lembra da mostra sobre o cheiro, que é algo inédito nesse porte, além da exposição sobre a poeira, que classifica como “deslumbrante”.

Fidelis explica que os pontos cegos que o evento pretende corrigir não são obras totalmente desconhecidas do público. “O que queremos fazer é reavaliar a inscrição dessas obras nas narrativas historiográficas. A maneira como elas foram inseridas na história é um pouco distorcida da especificidade cultural e artística da produção desses países, principalmente quando considerada em relação à produção dos países centrais, que são aqueles localizados na Europa e nos Estados Unidos”, resume.

A exposição será dividida em quatro campos conceituais. O primeiro, A Jornada da Adversidade, abordará a dificuldade que muitos artistas da América Latina enfrentam para produzir e fazer circular sua arte. De acordo com o curador, um artista latino-americano não tem as mesmas oportunidades que um artista localizado em Nova York, por exemplo, porque não tem acesso aos museus, à crítica e à própria estrutura institucional da qual um estadunidense ou um europeu dispõe. “Isso faz com que uma plataforma de exposição como a Bienal do Mercosul tenha uma importância ainda maior, porque na minha visão ela deve ser mais uma oportunidade para os latino-americanos”, frisa, completando que isso vai possibilitá-los alavancar sua produção em um cenário de disputa.

Dentro desse campo conceitual, haverá uma mostra chamada Casa das Bienais, que fará uma retrospectiva das outras nove edições do evento. Fidelis adianta que serão trazidas obras essenciais dos anos anteriores. “Quem teve oportunidade de ver as outras Bienais vai lembrar daquelas obras”, revela.

O segundo campo conceitual é denominado A Insurgência dos Sentidos e vai explorar outros meios de apreciar a arte além daquele tradicional, que é a visão. Assim, haverá uma mostra que vai focar no olfato do público. Fidelis ressalta que o olhar é o sentido que mais trabalha com a racionalidade, em contraposição aos outros, que considera mais sensoriais. Assim, a mostra visa a mostrar que há outros canais de absorção de obras artísticas.

Questionado sobre as críticas que a Bienal recebe por ser considerada muito hermética, Fidelis rebate: “Não sei se essas pessoas efetivamente gostam de arte. Arte é, antes de tudo, um lugar para discussão aberta. Mas acho que a história não só da Bienal, mas das exposições que se realizam em museus, mostram o contrário. Tem um público maior que aprecia, senão a Bienal não teria uma visitação de 600 mil pessoas”. Além disso, completa dizendo que, ao contrário do que muitos imaginam, a arte não é para ser entendida racionalmente.

O terceiro campo conceitual é chamado de O Desapagamento dos Trópicos e é focado justamente na principal proposta da décima Bienal: trazer à luz muitas obras que não receberam a devida atenção de museus e de críticos. Fidelis diz que nem todas são desconhecidas do público, mas que elas não foram inscritas em uma narrativa da história da arte da América Latina como deveriam.

Por último, o quarto campo conceitual é denominado A Jornada Continua e é focado na formação educativa no universo curatorial. Nesse contexto, será oferecido um curso para jovens curadores interessados na arte produzida por artistas latino-americanos. A Escola Experimental de Curadoria contará com aulas dos curadores da 10ª Bienal e de convidados pelo período de três meses.