31 de março: Por que não comemorar?

Para o presidente Jair Bolsonaro, os 55 anos do golpe militar devem ter comemorações devidas, segundo ele não houve ditadura no Brasil

  • Por: Rariane Costa (3° semestre) | Foto: Correio da Manhã/Arquivo Nacional | Produção: Carolina Dill, Felipe Conte, Liliane Moura, Luisa de Oliveira, Natália Corteze e Sofia Livonius. | 30/03/2019 | 0

No próximo domingo (31), o golpe militar brasileiro completa 55 anos. Nessa mesma data em 1964, teve início uma série de eventos que culminaram na deposição do então presidente eleito João Goulart. Tais ações ministradas por militares iniciaram o que seriam 21 anos de repressão, supressão de direitos constitucionais, perseguições políticas e total falta de ações democráticas. Na última semana, o Presidente Jair Bolsonaro determinou que sejam feitas as “devidas comemorações” em relação ao dia 31 de março. Em 2011, a então Presidente Dilma Rousseff havia retirado a data do calendário oficial de comemorações do exército.
A informação sobre as possíveis comemorações foi divulgada através do porta-voz da presidência, Otávio Rêgo Barros. Ainda segundo ele, Bolsonaro não considera que o Brasil tenha enfrentado uma ditadura militar. Durante sua campanha, ainda como candidato à Presidência, Jair Bolsonaro demonstrou apoio ao golpe e aos torturadores do período. Em entrevista à Rádio Jovem Pan,  afirmou que o erro da ditadura foi “torturar e não matar”.
De acordo com a Comissão da Verdade, durante o período ditatorial, 434 pessoas foram mortas ou desaparecidas. Dessas, apenas 33 tiveram os corpos encontrados. Além disso, a época foi marcada pelas torturas aos dissidentes, cassação de direitos, fechamento do congresso nacional e fim das eleições diretas para a presidência.
O Editorial J conversou com vítimas do regime que relataram suas vivências e nos disseram o porquê da data não merecer comemorações.

“Não se pode comemorar o rompimento de uma constituição democrática”

Jair Krischke é ativista na defesa dos Direitos Humanos, presidente e fundador do Movimento de Justiça e Direitos Humanos do Rio Grande do Sul, e luta contra o autoritarismo na América Latina há mais de quarenta anos. Para Krischke, além de se tratar de um momento da história que não vale comemorações, o Presidente Jair Bolsonaro pretende comemorar uma data errada “Ditadura no dia 31 de março é uma mentira, o golpe ocorreu no dia dois de abril”.

“Democracia e direitos humanos são conceitos que devem prevalecer além de qualquer ideologia”

Nei Lisboa, cantor e escritor, teve seu irmão Luis Eurico Tereja Lisboa como um dos desaparecidos da ditadura de 1964. Para ele, a democracia deve sempre prevalecer. Nei considera as comemorações propostas por Bolsonaro “um acesso a fronteira do absurdo”.

“A direita é xenofóbica, quer matar todo mundo, quer dar golpe, não aceita diversidade, a história se confirmando que é um pouco cíclica”


José Carlos Bona Garcia viveu a ditadura brasileira e chilena como revolucionário, exilado. Participante da fundação do PMDB, o bacharel em Direito é também juiz e presidente do Tribunal de Justiça Militar. Bona Garcia compara a atual direita brasileira ao nazismo de Hitler “Isso não é uma direita conservadora, inteligente, é uma direita burra, completamente doente, chegando muito perto da formação do nazismo de Hitler.”

“Só pelo fato de ser chamada assim já mostra que tenta contra a democracia”

Paulo Tarso Carneiro foi preso e torturado três vezes durante a ditadura. Para ele, historicamente tudo que foi contra a democracia é considerado crime, com a ditadura do Brasil não pode ser diferente. Ainda segundo Carneiro, a ditadura brasileira colocava a população distante de direitos básicos, “contra a humanidade.”

“A ditadura é contra a humanidade do ser humano”

Nilce Azevedo Cardoso luta pelos Direitos Humanos e contra a tortura. Foi sequestrada em 1972 enquanto caminhava de volta para sua casa em Porto Alegre. Por 5 meses e 2 semanas, foi torturada todos os dias. Chegou a entrar em coma no tempo em que ficou presa pelos militares. Nilce acredita que o 31 de março não deve ser comemorado porque o período significou ausência das liberdades do cidadão, tirando “todas as possibilidades do ser humano se manifestar”.

“Em 1° de abril de 1964, o Brasil foi mergulhado em uma noite de trevas”

Raul Kroeff Machado Carrion é Vice-Presidente do Movimento de Ex-Presos e Perseguidos Políticos do RS. Com mais de 50 anos de militância política, participou intensamente da luta contra o regime, tendo sido perseguido, preso e torturado. Esteve exilado no Chile e na Argentina. Segundo ele, comemorar o 31 de março é “fazer apologia aos crimes realizados pela ditadura militar durante seus 21 anos. E é incompatível com o Estado Democrático de Direito.”

“Não vejo os alemães hoje em dia comemorarem a ascensão de Hitler ao poder”

Rafael Guimaraens integrou a Comissão da Verdade do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Porto Alegre, que investigou casos de repressão e censura durante o Regime Militar. Ele participa de movimentos em defesa dos Direitos Humanos, da preservação dos espaços públicos e da qualidade de vida. Guimaraens relembra que no período ditatorial centenas de pessoas foram mortas e milhares perseguidas “o esquecimento leva à alienação e à desinformação. O golpe foi contra a democracia, a justiça e o povo brasileiro.”


O Ministério Público Federal emitiu nota demonstrando repúdio às comemorações propostas pelo Presidente. A Defensoria Pública da União também se manifestou pedindo à Justiça Federal que impedisse a realização de festividades relacionadas ao golpe. Generais que integram o primeiro escalão do executivo pediram cautela com relação ao assunto. Nesta quinta-feira (28), Bolsonaro mudou o tom de seu discurso e afirmou que a intenção não é de comemorar, e sim, rememorar.