A maior biblioteca de história da família no mundo tem fins religiosos

A frase “encontre a você mesmo” chama a atenção na entrada. Dentro do prédio, mesas, computadores, livros e pesquisadores lembram uma biblioteca convencional, mas não é o caso. O prédio grandioso, de número 35, em West Temple Street, na cidade de Salt Lake City, Estado de Utah, nos Estados Unidos, guarda verdadeiras relíquias do passado: a origem de milhões de famílias.

Trata-se do maior acervo de registros genealógicos do mundo. São cerca de 3,3 bilhões de nomes de pessoas dos cinco continentes, reunidos e organizados por voluntários da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias (LDS Church), conhecidos no Brasil como adventistas. As informações surgem a partir de parcerias de governos e organizações religiosas em mais de cem países desde 1894. “No início, pessoas eram enviadas através do mundo todo com a missão de resgatar datas e nomes até mesmo em lápides de cemitérios”, explica a Irmã Dantas, missionária da Igreja Mórmon em Salt Lake.

Os registros são organizados em um processo chamado indexação. Atualmente, mais de 150 mil indexadores trabalham em 4.689 Centros de História da Família, distribuídos por 128 países. O Brasil conta com 315 desses centros. No Rio Grande do Sul, estão localizados em mais de 20 cidades, sendo quatro deles em Porto Alegre.

Os dados são armazenados em um cofre climatizado numa montanha chamada Montanha de Granito, no Estado de Utah. O acervo conta com cerca de 2,4 milhões de microfilmes de documentos como certidões de nascimento e óbito. No prédio central, os andares, num total de cinco, são divididos entre a história dos Estados Unidos e Canadá e um piso internacional, catalogado por continentes e países. O patrimônio também possui a maior coleção de registros de clãs chineses fora da China.

Para tornar a busca mais fácil, desde 1999 o website www.familysearch.org oferece grande parte dos arquivos digitalizados. Os serviços totalmente gratuitos não são restritos apenas aos membros da Igreja. “Qualquer um pode entrar e formar sua árvore genealógica”, explica Dantas. A biblioteca também oferece cursos, ministrados por missionários e profissionais de genealogia, para instruir sobre como iniciar pesquisas. As aulas são presenciais e online.

O objetivo de toda essa procura é parte dos ensinamentos da religião fundada pelo americano Joseph Smith em 1830, em Nova York, nos Estados Unidos. A Igreja prega que é de extrema importância manter a família unida e que este é um fator que deve ser eterno. Para unir todas as gerações de uma família, é necessário que informações dos membros já mortos, como local de nascimento e morte, sejam encontradas. O conhecimento de detalhes da vida dessas pessoas é o primeiro passo. Essa busca é fundamental antes de um familiar ser batizado em nome do antepassado. A doutrina é conhecida como Mórmon em função de um profeta que reuniu os ensinamentos de seu povo numa coletânea chamada O Livro de Mórmon, atualmente traduzida em 177 idiomas.

Cerimônias denominadas Selamento acontecem em Templos, num total de 141 no mundo, cujo acesso é permitido apenas a integrantes da religião. Nesses espaços a família torna-se perpétua, através de sua união com os integrantes já mortos. “É uma forma de fazer com que eles também conheçam nossa doutrina, por isso é preciso reunir, preservar e compartilhar esses dados”, explica Dantas. A família, depois de Deus, é o fator de maior importância para os membros da religião, que conta com mais de 14 milhões de membros no mundo, sendo cerca de 1,2 milhões no Brasil.

Rob Hildebrandt
Rob Hildebrandt se mudou do Texas para Utah, para pesquisar sua árvore genealógica. (Rafael Silva)
Segundo voluntários, é praticamente impossível quantificar o número de pessoas que procuram diariamente a Family History Library. Alguns dedicam grande parte de sua vida pesquisando, como, que se mudou do estado do Texas para Salt Lake City, apenas para buscar a história de seus antepassados. “Meus pais amavam isso. Eu era criança e ia a cemitérios e prédios governamentais para descobrir fatos da minha história”, relata Hildebrandt.

O professor universitário aposentado passa cerca de 60 horas por semana na biblioteca, há cerca de cinco anos. Ele se alegra ao dizer que elegeu descobrir sua história como trabalho para o resto da vida. Rob possui uma árvore genealógica com 48.464 nomes. Os documentos dos antepassados datam de mais de 200 anos. “Quando meus pais morreram, meus irmãos ficaram com a casa e o dinheiro, eu fiquei com a história, essa nunca vai acabar. Faço isso para encontrar outras partes de mim”, afirma Hildebrandt.

Texto: Rafael Silva (3° semestre)