A recuperação do Dilúvio é possível

A degradação do Arroio Dilúvio é visível, principalmente, para quem passa pela Avenida Ipiranga e convive com o lixo e o mau cheiro. Mas a recuperação é possível, garante a professora Betina Blochtein, diretora do Instituto do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais da PUCRS (IMA). Ela aponta, inclusive, a possibilidade das águas se tornarem balneáveis novamente. Segundo Betina, para isso é preciso o desenvolvimento de políticas públicas e a adoção de medidas de preservação e conscientização dos moradores próximos das margens.

O projeto de revitalização do arroio teve um passo importante no dia 14 dezembro quando foi assinado o Protocolo de Cooperação entre as prefeituras de Porto Alegre e Viamão e as universidades Católica (PUCRS) e Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). A iniciativa, embora não tenha ainda um cronograma definido, alimenta a expectativa dos envolvidos para a recuperação total do local.

O Arroio Dilúvio tem as suas nascentes localizadas em Viamão, junto as represas Mãe D’água e Lomba do Sabão. Percorre 17,6km entre esta cidade e Porto Alegre e passa por 36 bairros até desaguar no lago do Guaíba.
Betina, que é doutora em Biologia pela Universidade de Tübingen na Alemanha, ficou entusiasmada com o projeto, ao mesmo tempo, que considera fundamental, nas próximas etapas, a participação e a conscientização da população. “Se tu passas na Avenida Ipiranga e pergunta para alguém que a freqüenta, o que faria com o Dilúvio, a resposta pode surpreender. As pessoas querem tapar o rio, por que não querem vê-lo. Esse é o mesmo conceito do cidadão que joga seu azeite na pia porque não quer mais ver, porque assim é mais fácil. As pessoas procuram uma solução rápida, mas não são conseqüentes como deveriam ser”, comenta.

“Dilúvio” de Seul
Um caso semelhante tornou-se assunto de muitos gaúchos que fazem parte de redes sociais, como Facebook e Twitter. Na Coréia do Sul, o rio Cheonggyecheon, que assim como o Arroio Dilúvio atravessa áreas urbanizadas, era visto como um problema pela população de Seul.

De acordo com Betina, o rio apresentava uma situação mais complicada que Porto Alegre pois seu córrego havia sido aterrado. A maneira encontrada em 1971 para solucionar a poluição foi, além de tapá-lo, construir um viaduto, que tornou-se símbolo de modernidade. Com o aumento do tráfego nas décadas de 80 e 90 esse símbolo tornou-se fonte de muitos problemas ambientais.

Cheonggyecheon revitalizado

Revitalizar o Cheonggyecheon e seus 8,4km custaram 386 milhões de won sul coreano, o que no Brasil seria o equivalente a R$623mil. Entregue à cidade em 2005, após dois anos de obras, o resultado impressionou moradores e visitantes. O governo sul coreano mantém em seu site de turismo essas informações e a ressalva de que no início a população não foi a favorável ao projeto.

Hoje, existem espaços de lazer em suas margens, é constante o número de artistas de rua que fazem suas performances por ali e pela noite a iluminação em alguns pontos torna-se atração para turistas. A cultura de preservação ambiental é vista em livros e até mesmo em museus. O Cheonggyecheon Museum, por exemplo, tem o objetivo mostrar a história de reparação com o meio ambiente e claro, com o rio.

Ouça entrevistas com a diretora do Instituto do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais da PUCRS:

Texto: Cassiana Martins