Adeus ao protagonista e testemunha da política rio-grandense e brasileira

Ex-prefeito de Porto Alegre Sereno Chaise morreu dia 1º de junho, aos 89 anos

  • Por: Nathália Porto (2° semestre) | 02/06/2017 | 0

O ex-prefeito de Porto Alegre Sereno Chaise que morreu dia 1º de junho, aos 89 anos, “passa para a História como protagonista e testemunha da política rio-grandense e brasileira”. A frase que sintetiza a trajetória de Chaise é do autor da sua biografia, Luciano Klöckner. Professor da Faculdade de Comunicação Social (Famecos) da PUCRS, há 29 anos, Klöckner contou como foi o processo para escrever o livro O diário político de Sereno Chaise – 60 anos de história e a relação de amizade que teve com o ex-prefeito durante a produção da obra, publicada em 2007.

Sereno Chaise foi eleito prefeito de Porto Alegre em novembro de 1963, e assumiu o cargo em 2 de janeiro de 64. Quatro meses depois, em 8 de maio, foi cassado pelo regime militar. Natural de Soledade, aos 18 anos, Chaise se mudou para Porto Alegre, época em que ingressou na Ala Moça do antigo PTB. Ao longo da vida cultivou grande amizade com Leonel Brizola, tendo sido coordenador da campanha deste quando Brizola disputou a prefeitura de Porto Alegre, antes de ser eleito governador do Estado em 1958.

Eleito deputado estadual em várias legislaturas, em 1961, quando da renúncia de Janio Quadros, Chaise era o líder do governo na Assembleia Legislativa, tendo participado ativamente do movimento da Legalidade, comandado por Brizola que defendia o cumprimento da Constituição e a posse do vice-presidente João Goulart em substituição a Janio Quadros na presidência da República.

Luciano Klöckner conta que, em 2004, quando trabalhava na Rádio Gaúcha com Armindo Antônio Ranzolin, Sereno Chaise procurava alguém que pudesse escrever o livro, mas que precisava ser uma pessoa desvinculada de partidos políticos. Ranzolin, então, indicou Luciano para o trabalho. “De cara nos afeiçoamos, eu gostei muito do estilo dele”, conta o professor, “Nós conversamos, nos acertamos e começamos as sucessões de gravação toda semana”.

Meses depois, ainda em 2004, Leonel Brizola morreu. Nessa época, Brizola e Chaise já não se falavam mais devido às divergências dentro do PDT que haviam determinado a saída do partido do ex-prefeito e de Dilma Rousseff. Os dois e outros integrantes trocaram o PDT pelo PT, em 2000. Sempre que  tocava na questão da briga entre eles, revela Klöckner, Chaise era evasivo e desviava do assunto. Certo dia, depois de muita insistência, Chaise fez uma única e pequena manifestação sobre o assunto: “Luciano, tu tens que entender uma coisa. Eu sou um homem de princípios e luto por eles. O que houve foi uma ruptura desses princípios, por isso me afastei dele (Brizola)”.

O professor afirma que achava que o próprio livro era uma resposta a Brizola e que por isso Chaise ficou tão abalado com a morte de quem foi tão importante em sua vida, a ponto de interromper as gravações feitas para a obra. Klöckner destaca que Chaise deixava claro que não desgostava de Brizola, mas que simplesmente houve um momento de “bifurcação política” entre os dois. Ainda sobre o assunto, o professor comenta que Chaise filosofou sobre a morte de Brizola, dizendo que “quando uma pessoa morre, ainda mais uma pessoa como Brizola, ficam as boas obras, enquanto os seus defeitos vão para o túmulo com ele”.

Segundo o autor do livro, durante as gravações o político contou que no golpe militar de 1964, quando era prefeito de Porto Alegre, não compreendia, nos primeiros dias, porque não o prendiam. “Ele não entendia porque não ia preso enquanto várias pessoas iam. Chegou a ligar para a polícia perguntando se não iam prendê-lo. Até que em um determinado momento a polícia recebeu uma ordem para fazer isso”.

Após 30 minutos de entrevista, fica claro o tamanho da admiração do professor por Sereno Chaise. “Ele participou dos encontros com as grandes personalidades do século XX, estava nas principais decisões e conseguiu boas façanhas eleitorais”.  Klöckner revela: “o que me dá prazer é eu ter podido fazer o livro dele, que foi meu melhor trabalho”.