Alagamentos são problema na região da Arena há pelo menos 20 anos, dizem moradores

Um mês após a inauguração da Arena Porto-alegrense, novo estádio do Grêmio que apresenta instalações de “padrão europeu”, os moradores da Vila Farrapos, comunidade vizinha do empreendimento, seguem convivendo com problemas antigos, típicos de periferias latino-americanas. Nesta segunda-feira, 7 de janeiro, a forte chuva que caiu sobre Porto Alegre no final da tarde e início da noite demonstrou que os alagamentos que transformam algumas ruas em verdadeiros rios se mantêm no cotidiano dos habitantes da vila.

Por volta das 19h10, com um sorriso no rosto, a aposentada Carmen Casmin comemorava junto com sua filha, a doméstica Alexsandra Casmin, a ausência de alagamentos ou qualquer incômodo na sua rua. Se antes o esgoto cloacal corria pelas sarjetas, até mesmo em dias ensolarados, agora nem mesmo a chuva parecia capaz de inundar a rua Luiz Carlos Pinheiro Cabral. “O pessoal da Prefeitura veio aqui na semana passada e, finalmente, deu um jeito na situação daqui da nossa região. Não tem mais cheiro ruim na hora do almoço, nada”, resume contente Carmen.

Realmente, entre os dias 2 e 3 de janeiro, o Departamento Municipal de Água e Esgotos (DMAE) realizou a desobstrução e adequação das redes de esgoto e do poço de chegada da Estação de Tratamento de Esgoto São João Navegantes. Segundo garantiu o próprio DMAE, “estas providências solucionaram o problema”.

Enquanto atendia aos seus clientes no armazém Luciano, a proprietária e moradora do bairro, Solange Matos, era mais uma a vibrar com a nova realidade. “A gente ligava e eles [Departamento de Esgotos Pluviais (DEP) e DMAE] prometiam que viriam fazer vistorias e nunca vinham. Ainda bem que isso mudou”, entusiasma-se.

A força da chuva também mudou. Às 19h45, o volume d’água que caía era intenso, os bueiros já não eram mais capazes de suportar a vazão recebida. Nada que surpreendesse os habitantes do local. Enquanto comentava com um freguês sobre a novela, Solange dizia não se espantar mais com tudo aquilo. “Já estou acostumada com esses alagamentos. As casas aqui dessas quadras já foram até construídas com uma altura um pouco maior, por isso. Meu imóvel tem 20 anos e já foi feito dessa forma, elevado, pois esse problema é antigo”, conta resignada.

Após 20 minutos, tentar deixar o armazém já era algo arriscado, a menos que ter água do esgoto batendo nos joelhos não fosse um problema para a pessoa. As crianças, contudo, não pareciam dar muita atenção às advertências dos adultos, que falavam em leptospirose e outras doenças infecto-contagiosas. Olhando para o lado, já era possível ver restos de alimentos boiando: uma lixeira flutuava ao lado do estabelecimento. Os relatos de moradores contribuíam para tornar o clima ainda mais assustador. “Depois, quando seca, a rua enche de ratos e baratas que saíram dos bueiros”, alertavam.

Para quem já se habituara a tudo aquilo, era possível até mesmo se divertir com a situação. “Olha aí, virou um piscinão, agora o pessoal nem vai mais precisar ir à praia”, brinca o taxista Márcio Azevedo, enquanto comprava cigarros e salgadinhos. Márcio é mais um a confirmar que o problema é antigo. “Sempre foi assim, chega a ser normal. Fico um pouco mais tranquilo porque minha casa é noutra quadra, que nunca alaga”, relata.

Já passava das 20:30 e o céu seguia desabando. A água atingia níveis impressionantes até mesmo para os “veteranos” da região. Ao telefone, Simone alertava um conhecido seu: “Não vem de Kombi até aqui. Deixa no início da rua e vem a pé, senão vai estragar o carro”. Um motorista, todavia, se atreve a cruzar o aguaceiro com sua caminhonete. Acaba conseguindo, mas as ondulações geradas pela passagem do veículo alagaram o mercado Luciano.

Antes que deixasse o estabelecimento, em meio à chuva incessante, Simone indica um caminho supostamente menos arriscado, “por onde não tem tanto buraco e não alaga tanto”. Sigo seu conselho, mas não há jeito: a água ultrapassa com folga meus joelhos.

A duas quadras dali, moradores bloqueavam o início da rua Frederico Mentz para que carros e, principalmente, ônibus não passassem e agitassem as águas. Assim, evitavam a inundação de suas residências.

Na frente do bar Santo Expedito, com a Arena diante de si, o eletricista baiano Francisco Xavier, bebia uma lata de cerveja e destilava seu ceticismo. “Olha aí, choveu bastante, mas para ter acontecido tudo isso é por falta de planejamento. Acho que essa cultura política que está por aí não muda mais, vai ser assim para sempre”, prevê Francisco. Funcionário da construtora OAS, trazido para trabalhar na Arena, ele se decepcionou com o Estado: “Pensei que no Rio Grande do Sul esses problemas de infra-estrutura fossem menores, mas vi que o descaso está em toda a parte”. E arremata com bom humor: “Se eu fosse o Boris Casoy, eu só diria uma coisa: isso é uma vergonha!”

Texto e foto: Caio Venâncio (2º semestre)