Americanos reafirmam seu patriotismo nas urnas

Cerca de 120 milhões elegem futuro presidente dos EUA que toma posse em janeiro de 2017

  • Por: Júlia Marin* | 08/11/2016 | 0
Montagem sobre fotos de Michael Vadon e Gage Skidmore
Montagem sobre fotos de Michael Vadon e Gage Skidmore

Os dois principais candidatos que disputam a Casa Branca – Donald Trump, do Partido Republicano, e Hillary Clinton, do Partido Democrata –  são o reflexo da sociedade americana. Pelo olhar brasileiro, os norte-americanos têm o patriotismo que falta ao nosso país. Esse sentimento poderia ser cortado pela metade e dividido entre os dois países. Especialmente em uma cidade pequena, como aqui, em Ripon (estado de Wisconsin) de 7.500 habitantes, repleta de fazendas e local de origem do partido Republicano, a população pende mais para esse lado.

O patriotismo é tanto que fecha os olhos para o resto do mundo. Bandeiras do pais estão em todo lugar. Ina Mügge, uma intercambista da Alemanha que também chegou aqui, no início de agosto, diz que “nós não temos esse costume de usar as bandeiras, porque isso nos faz lembrar da II Guerra. E isso é mais por que não queremos que os outros países pensem que o nazismo ainda é forte lá.”

Agora, já estou mais acostumada, mas é difícil quando um aluno do ensino médio não sabe que Ásia é um continente, ou não tem interesse em outras culturas. Trump nasceu e morou em parte de sua infância em Nova York, mas tem uma visão estereotipada sobre muitos assuntos. Felizmente, nem todos são assim.

Minha host family é pró-Hillary. Meu host dad é professor de Ciências Políticas e presidente da Ripon College, uma universidade particular; minha host mom trabalha como advogada em uma universidade distante 40 minutos de Ripon. Por mais que eu tente me manter neutra nessa situação, é difícil quando os fatos estão ali. Escândalos à parte, sou tentada a permanecer no grupo que diz que Hillary é a pessoa mais qualificada para ocupar a Casa Branca pelos próximos quatro anos e não apenas por que sou mulher. O seu tempo de exercício na política está aí para provar isso.

Na segunda à noite, anterior ao dia das eleições (8/11) foi repleta de ligações de pessoas que coordenam as campanhas e possuem acesso a dados que dizem quem é eleitor regular. A votação ocorre das sete da manhã até às oito da noite no horário local e os resultados podem demorar a sair até a meia-noite. Estando em uma pequena comunidade, ir votar é como tomar café da manhã com todo mundo que se conhece e compartilha do mesmo sentimento inquietante. É preciso esperar em uma fila até ter os documentos checados e passar para uma cabine de cortina com as cores do país. O eleitor recebe uma ficha onde, além de escolher o presidente, vota também para membros do Legislativo. Então, a ficha é colocada dentro de uma máquina. Na saída, mesmo não sendo votante aqui, eu ganhei um adesivo com os dizeres: “Eu votei hoje!”.

 Nas eleições anteriores, Obama saiu vencedor em Ripon, provavelmente pela presença da universidade. Esse ano, não há tanta certeza da vitória democrata, porque há vários alunos pró-Trump. Wisconsin pode pender para qualquer um dos lados, mas o estado em que mais se espera o resultado é a Flórida, onde se Hillary Clinton ganhar, seu lugar na Casa Branca está praticamente garantido.

Quando cheguei aqui, em agosto, também percebi que, apesar do sentimento ruim pela disputa eleitoral, os americanos comuns, mesmo distantes, são educados e agradáveis. Eles respeitam o espaço do outro, têm cuidado especial com coisas que são de todos e que o sentimento de ajuda e comunidade (que devo dizer, é diferente do patriotismo exacerbado) é muito forte. Esses são valores que devem ser preservados. Hoje, o mundo inteiro espera que isso aconteça. Hoje, o mundo inteiro espera que os Estados Unidos se deem conta de quem realmente são.

Ao chegar descobri também outras coisas. Percebi que o verão pode ser – muito quente, que as tortas caseiras e mac&cheese são algumas das maravilhas da culinária e milho, muito milho. Também pude, finalmente, ver aquelas famosas casinhas iguais e, junto a isso, notei as placas declarando apoio a Donald Trump. Wisconsin não é um estado predominantemente conservador, mas posso dizer que Ripon, por sua história, é republicana.

*Universitária atualmente estudando nos EUA