Após disputa tensa, Marchezan é o novo prefeito

O candidato do PSDB venceu a disputa com 60,50% dos votos, contra 39,50% de Melo

  • Por: Italo Bertão Filho (2° sem.) | Foto: Carolina Vicari (2° sem.) | 30/10/2016 | 0

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Acabou. Nelson Marchezan Júnior será o prefeito de Porto Alegre nos próximos quatro anos. Neste domingo (30), com 100% dos votos apurados, 402.165 eleitores tinham ido às urnas para sacramentar a vitória do tucano após uma disputa tensa com o vice-prefeito Sebastião Melo (PMDB) no segundo-turno. É a estreia de Marchezan em um cargo do Poder Executivo – até então, o tucano tinha experiência apenas no Legislativo.

O candidato votou pouco antes do meio-dia na Escola Estadual Duque de Caxias, no bairro Azenha. Marchezan estava acompanhado pelo filho Nelson Marchezan Neto, pela ex-mulher Nadine Dubal e pelo vice Gustavo Paim.

Marchezan encerra um ciclo de 12 anos do atual governo, que começou com a eleição de José Fogaça, então no PPS, em 2004. Na época, Fogaça também deu fim a um ciclo de poder na Capital: o de 16 anos de gestões do PT. Em 2008, já pelo PMDB, Fogaça se reelegeu prefeito, com José Fortunati (PDT) de vice. Em 2010, o então prefeito renunciou ao cargo para concorrer a governador do Estado, deixando a vaga para Fortunati. Dois anos depois, Fortunati concorreu à reeleição e ganhou a disputa no primeiro turno, com 65% dos votos, tendo Melo como vice. No primeiro turno das eleições deste ano, Melo ficou em segundo lugar, com 25,93% do total. Ampliou seus votos no segundo turno, mas ainda assim não conseguiu reverter o quadro, obtendo, 262.601 votos.

É a primeira vez em que o PSDB chega ao Paço Municipal. O  partido fez parte das gestões Fogaça e Fortunati, mas deixou o governo em dezembro do ano passado. Marchezan concorreu à Prefeitura pela primeira vez em 2008, contra Fogaça. A candidatura, decidida na última hora para fortalecer o partido, não logrou êxito e obteve apenas 2% dos votos. Em 2012, o partido lançou-se mais uma vez na disputa municipal. Após travar uma dura disputa nas prévias com Marchezan, que perdeu por apenas três votos de diferença, o professor universitário Wambert Di Lorenzo foi o candidato do partido na ocasião. Apoiado pela ex-governadora Yeda Crusius, Wambert obteve apenas 2,46% dos votos. Hoje vereador eleito pelo PROS, apoiou Melo.

Marchezan está em conflito com setores do PSDB no Estado desde que assumiu a direção estadual após intervenção feita em junho do ano passado pelo presidente nacional da sigla, o senador Aécio Neves. Devido ao racha, alguns integrantes do partido apoiaram Melo. Yeda, uma das dissidentes, assumirá a cadeira de Marchezan na Câmara dos Deputados como suplente.

O rumo da eleição poderia ter sido diferente se o PP não tivesse apoiado a candidatura de Marchezan desde o primeiro turno. O partido demorou em se decidir entre Melo e o tucano, pois ainda participa do governo Fortunati. Após um empate nas prévias internas, em julho, os progressistas chegaram a um acordo por Marchezan, indicando seu vice na chapa, o advogado Gustavo Paim. Em seguida, duas pequenas legendas – PMB e PTC – se juntaram à coligação.

O PSDB ainda é um partido pequeno na Capital. Prova disso é que somente um candidato a vereador da legenda foi eleito: o advogado Ramiro Rosário. Da nominata de 56 candidatos a vereador pela coligação Porto Alegre Pra Frente, apenas 13 eram do PSDB. Até o momento, Marchezan tem o apoio de 11 dos 36 vereadores eleitos, representando 30% do total. “O desafio de Marchezan é compor a base na Câmara de Vereadores para passar as emendas”, afirma o cientista político Luis Eduardo Garcia. Ele também atenta para a relação entre Marchezan e os governos estadual e federal, ambos controlados pelo PMDB, partido de Melo. “É preciso observar de que maneira ele (Marchezan) irá articular com o governador do Estado e com o presidente da República”, comenta.

Apesar de crescer a cada pesquisa, o tucano permanecia empatado nas intenções de voto com a esquerda – representada pelos candidatos Luciana Genro (PSOL) e Raul Pont (PT). Liderando as pesquisas e distante dos três, estava Melo, que obteve o maior tempo de rádio e TV no horário eleitoral ao formar uma coligação de 14 partidos em torno de sua candidatura.

Quando os votos foram apurados em 2 de outubro, veio a surpresa: contrariando as pesquisas, Marchezan surgiu em primeiro lugar com 29,84% dos votos. Na semana seguinte à votação do primeiro turno, Marchezan recebeu o apoio de Maurício Dziedricki (PTB), cujo partido ainda faz parte da administração de Fortunati. Ao lado do PTB, vieram também as legendas que compuseram a coligação de Maurício: PSC, PR, SD, PRP e PT do B. O PTB está no governo municipal desde 2005, quando o falecido médico Eliseu Santos assumiu como vice-prefeito ao lado de Fogaça.

Já o vice-prefeito angariou apenas o apoio de candidatos que obtiveram baixa votação no primeiro turno como Marcello Chiodo (PV) e João Carlos Rodrigues (PMN). O apoio oficial do PC do B à Melo veio apenas na última semana antes da eleição. O partido esteve coligado com o PT no primeiro turno.

Disputa violenta

No retorno da propaganda eleitoral no rádio e TV, Melo prometeu que a campanha seria pautada pela desconstrução de Marchezan. “Vai ser um bombardeio, são 70 inserções diárias”, afirmou ao jornal Zero Hora em 11 de outubro. O tom da campanha aumentou a cada semana e teve seu clímax em 17 de outubro, quando um dos coordenadores da campanha de Melo, Plínio Zalewski, foi encontrado morto no comitê do partido.

Foi o segundo episódio controverso da eleição em menos de 24 horas. Na madrugada anterior, o comitê de Marchezan supostamente teria sofrido um atentado a tiros, o que acabou sendo descartado na semana passada, após investigação da Polícia Federal. Em entrevista à Zero Hora na manhã seguinte ao ocorrido, Marchezan classificou o episódio como um “atentado homicida”. A morte de Zalewski também gerou controvérsia. A hipótese mais provável é que o coordenador tenha se suicidado, apesar de não demonstrar motivações suicidas nos dias anteriores à morte, segundo disseram colegas e familiares à imprensa.

O Movimento Brasil Livre (MBL), um dos principais organizadores dos protestos que pediam o impeachment de Dilma Rousseff, apoiou Marchezan desde o primeiro turno. Garcia acredita que Marchezan se beneficiou da ação de grupos como o MBL: “Os partidos tradicionais não estão conseguindo captar as vozes dessa nova população que vota mais à direita, embora o Marchezan tenha o apoio de algumas novas forças políticas que têm ascendido nos últimos anos”. Com o acirramento da campanha, Melo reagiu contra a presença do MBL na campanha do tucano.

Ainda no primeiro turno, a porta-voz do movimento no Estado, Paula Cassol, entrou com uma representação contra Zalewski, que era servidor com cargo comissionado na Assembleia Legislativa, por trabalhar na campanha de Melo durante o horário de expediente da Assembleia. Um vídeo do canal “Mamãe, Falei.”, do paulista Arthur Moledo Do Val, questionava Melo sobre a contradição. No dia em que o vídeo foi publicado no YouTube, Zalewski pediu exoneração do cargo.

“Tens que parar, Marchezan. Tens que parar e explicar qual a tua relação com o Movimento Brasil Livre, o MBL, que persegue pessoas como fizeram com o nosso querido amigo Plínio, que acabou perdendo a sua vida”, afirmou Melo no horário eleitoral no dia seguinte à morte de Zalewski, que parecia incomodado com o assédio do movimento nas semanas anteriores. A vice de Melo, Juliana Brizola, também teceu críticas ao MBL após ser ameaçada por um suposto integrante do movimento. “Se alguma coisa de grave acontecer comigo ou com minha família, tem nome: MBL”, afirmou Juliana em sessão plenária na Assembleia.

O último debate, realizado na RBS TV no sexta-feira (28), resumiu os ares de guerra que a campanha ganhou. Em determinado momento, Melo se dirigiu incisivamente à Marchezan: “Para de ‘mimimi’. Quem é truculento aqui é o senhor. Sou um homem de diálogo”. O tucano retrucou: “O marqueteiro do vice-prefeito mandou falar mimimi. Pode falar que eu não vou dizer ‘me-me-Melo’.” Marchezan chamava Melo pela expressão “vice-prefeito de 12 anos” e, em resposta, Melo o classificou de “deputado que inventou um atentado para se beneficiar eleitoralmente”.

Biografia

Nelson Marchezan Júnior nasceu em Porto Alegre, no dia 30 de novembro de 1971. É filho do ex-deputado Nelson Marchezan, morto em 2002. Marchezan é formado em Direito pela Unisinos e tem pós-graduação em Gestão Empresarial pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). É presidente estadual do PSDB no Rio Grande do Sul.

Foi diretor de Desenvolvimento do Banrisul entre 2003 e 2005. Em 2006, foi eleito deputado estadual pelo PSDB. Dois anos depois, concorreu pela primeira vez à Prefeitura de Porto Alegre, sem obter êxito. Em 2010, elegeu-se deputado federal, sendo reeleito em 2014 com quase 120 mil votos. Marchezan foi um dos principais apoiadores do impeachment de Dilma Rousseff na Câmara dos Deputados e participou de protestos que pediam o afastamento da petista.

Marchezan foi casado com Nadine Dubal, vencedora do concurso Garota Verão em 1995. Com ela, teve um filho: Nelson Marchezan Neto, de 8 anos.