Atos contra a ditadura criticam o governo Bolsonaro

Manifestações celebraram a memória dos mortos e desaparecidos durante o regime militar

  • Por: Felipe Lopes (7º semestre) | Foto: Nícolas Chidem (7º semestre) | 01/04/2019 | 0

Amanheceu em Porto Alegre. Quando os primeiros raios de sol tocaram os prédios, as árvores e o Lago Guaíba, já havia uma certeza de que aquele não era um dia comum. Bem diferente de 55 anos atrás, é verdade. Mas talvez com uma mesma tensão e incerteza quanto ao futuro. O Brasil de 2019 se vê no espelho da história e encontra traços de 1964. É esse o motivo pelo qual as pessoas saíram às ruas nesse domingo. Impulsionadas pelas declarações do presidente Jair Bolsonaro, que pediu as “comemorações devidas” ao Golpe Civil-militar de 1964, manifestantes de diversos grupos homenagearam os mortos, torturados e desaparecidos do regime.

Na capital, a Frente Gaúcha em Defesa da Democracia organizou atos que se estenderam durante todo o dia. Eles começaram às 10h, no monumento aos desaparecidos políticos, na Avenida Beira-Rio. Os manifestantes depositaram flores no memorial e lembraram os mortos. A cada flor depositada o nome de uma vítima era lido em voz alta acompanhada pelo coro de “presente”. Durante todo o ato, gritos de “Ditadura nunca mais” foram repetidos diversas vezes. Após esse primeiro momento os manifestantes seguiram a caminhada até o Bairro Bom Fim.

O grupo de mulheres com “Ditadura nunca mais” escrito em suas máscaras liderou a caminhada.

Por volta das 11h30, os manifestantes se reuniram na esquina das vias José Bonifácio e Osvaldo Aranha, onde iniciaram a caminhada que percorreu toda a extensão Brique da Redenção. Puxando a frente da marcha, o bloco de carnaval “Ai… Que saudade do meu ex”, formado majoritariamente por mulheres, vestiam preto e carregavam imagens de Marielle Franco, vereadora do Rio de Janeiro assassinada por milicianos em 2018, e da ex-presidente Dilma Rousseff. Seus rostos eram cobertos por panos que exibiam os dizeres “Ditadura Nunca Mais!”. Elas determinaram o ritmo da marcha puxando gritos que criticavam o regime e o presidente Bolsonaro.

As críticas ao governo foram fortes durante toda a manifestação. A deputada federal Maria do Rosário, do PT, discursou ao lado de outros nomes da política, como a também deputada federal Fernanda Melchiona, do PSOL, o deputado estadual Sebastião Melo, do MDB, o ex-deputado estadual Raul Carrion, do PCdoB, e outras lideranças de esquerda, centro-esquerda e entidades de direitos humanos. “O país permanece permeado pela violência de estado, e hoje há no poder um presidente que cumprimenta os torturadores, que abraça os facínoras e nos envergonha”, disse Rosário durante a marcha. Ainda em seu discurso, a deputada lembrou Marielle Franco, chamou de fraudulento o processo que condenou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e homenageou os mortos na Guerrilha do Araguaia “Cujo o sangue é aquele que construiu a Constituição de 1988”, definiu. Encerrou convidando todos a participar de um pacto pelos direitos humanos, pela paz, contra o fascismo e pela democracia: “Vamos derrotar Bolsonaro, vamos derrotar os fascistas”, concluiu.

Os atos contaram com participações de pessoas que sofreram com  a ditadura e alguns políticos.

O suplente do senado federal pelo PDT, Christopher Goulart, neto do ex-presidente João Goulart, destituído pelos militares em 1964, também discursou para os manifestantes. Lembrando seu avô, ele defendeu as reformas de base, não concretizadas em virtude do golpe. Citou Jango em seu famoso comício na Central do Brasil, em 13 de março de 64, questionando “Que democracia é essa que eles querem? A do anti-povo, do anti-sindicato, da anti-reforma, eles querem a democracia que representa exclusivamente os interesses das grandes corporações”. Concluiu dizendo “não” às políticas de retrocesso e confirmando sua vontade de “Lutar e eventualmente morrer pela pátria”.

As quase 2 mil pessoas, número da organização, seguiram em marcha até próximo da Avenida João Pessoa com os manifestantes cantando “Apesar de Você”, uma das canções símbolo da resistência à ditadura, composta por Chico Buarque. O ex-deputado pelo PCdoB, Raul Carrion, em entrevista para o Editorial J, lembrou da Constituição ao criticar a ordem de comemoração do golpe, feita pelo presidente Jair Bolsonaro: “É crime. Defender ditadura, rememorar ditadura, rememorar crime de ditadura é também cometer um crime de responsabilidade”. Carrion ainda avaliou as manifestações dizendo ser “um saldo extremamente positivo para a democracia e extremamente negativo para aqueles que pregam o ódio, a ditadura, o golpe e o desrespeito aos direitos humanos”.

Durante a tarde, a Tribo de Atuadores “Ói Nóis Aqui Traveiz”, que atua há 41 anos nas ruas do Rio Grande do Sul, mostrou ao público o seu espetáculo “Caliban – A tempestade”, de Augusto Boal. A peça é uma análise crítica as ondas conservadoras em toda a América Latina.

Paralelamente, iniciou-se a Marcha Antifascista, organizada via redes sociais e sem ligação direta com os organizadores dos atos da manhã. Puxando a marcha, manifestantes seguravam uma faixa com os dizeres “O fascismo não se comemora, se destrói”. Eles seguiram em direção ao Largo Glênio Peres e durante todo o trajeto protestavam com gritos de ordem contra a ditadura, o governo Bolsonaro e o fascismo. Vários grupos estiveram presente durante a marcha, como a Associação Mãe e Pais pela Democracia, representada pela diretora Aline Kerber, que disse, em entrevista ao Editorial J: “Lutamos por uma educação livre e democrática, pois o país ainda guarda resquícios da ditadura”. A marcha encerrou-se no centro da capital, dando fim aos movimentos que lembraram, mas não celebraram, o golpe de 1964.