“Atualmente quem só lê uma fonte está mal-informado”, analisa Jorge Furtado

Debate "Mídia, Poder e as ameaças à Democracia" abriu o ciclo Conversas Cidadãs nesta terça (30), projeto do Goethe-Institut com o Sul21. Furtado foi o mediador da conversa

  • Por: Sofia Lungui (3º semestre) | Foto: Wellinton Almeida (4° semestre) | 02/06/2017 | 0

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“O jornalismo irá sobreviver? Como será a profissão daqui a alguns anos?” foram as provocações iniciais do cineasta Jorge Furtado para os jornalistas Cristina Charão e Thomas Fischermann, em debate sobre mídia e poder. Em um período de incertezas, estagnação econômica, crise da mídia e insegurança sobre o futuro do país, a discussão foi levantada no primeiro evento do ciclo Conversas Cidadãs, projeto surgido por iniciativa do Goethe-Institut em parceria com o Sul21. A conversa ocorreu nesta terça-feira (30), na escola de alemão.

Para Thomas Fischermann, correspondente do jornal alemão Die Zeit para a América do Sul no Rio de Janeiro, a falta de pluralidade é de longe a maior lacuna da mídia brasileira. “Os discursos são muito semelhantes. Há uma conexão entre os discursos jornalísticos de veículos das periferias do Rio de Janeiro, por exemplo, e os grandes veículos que atingem a maior parte da população”, analisa em entrevista exclusiva. O alemão é também cientista político.

O jornalismo brasileiro foi reprimido historicamente. Com a chegada da Família Real portuguesa no país, em 1808, surgiu o primeiro jornal brasileiro, o Correio Braziliense. Logo em seu início, o veículo teve sua sede mudada para Londres, em função da proibição de Dom Pedro VI. Segundo Cristina Charão, editora da TVE (Fundação Piratini), o Brasil não construiu a ideia do jornalista como uma figura autônoma. “Por conta disso, temos menos liberdade na profissão. Muitas vezes temos de fazer o uso de eufemismos, por exemplo”, argumenta. Para Cristina, o jornalista brasileiro está quase sempre submisso aos interesses dos grupos midiáticos.

A concentração da mídia dentro de poucos grupos também foi um ponto levantado no debate, especialmente por ser algo diretamente relacionado à falta de pluralidade. “A inexistência de um sistema público de comunicação no Brasil está na base da concentração da mídia”, afirma Cristina. Ela ressalta que percebe a ausência de uma concepção de que a comunicação, no todo, é uma função pública: os brasileiros não compreendem que o espaço da comunicação é público.

Furtado, por sua vez, destaca o avanço da circulação de notícias nas redes sociais e as consequências disso. Pelo fato de diversas pessoas compartilharem notícias de diferentes canais de informação diariamente – principalmente através do Facebook – os leitores têm dificuldade em saber em quais portais confiar. Com a polêmica ligada às fake news que circularam durante a campanha de Donald Trump, por exemplo, o tema está se tornando cada vez mais popular, especialmente no meio jornalístico. “Hoje dá muito mais trabalho estar informado, pois temos de checar as informações, conferir em outros veículos, para saber se está correto. Antes, a leitura de um jornal burguês bastava, mas atualmente quem só lê uma fonte está mal-informado”, reflete Furtado.

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O cineasta faz uma analogia, afirmando que o melhor lugar para se esconder um livro é numa biblioteca – então, se alguém quer esconder uma informação, basta jogar no meio de um monte de outras informações. Para ilustrar o assunto, ele cita uma frase popularizada pelo jornal O Pasquim: “Se você não está em dúvida, é porque está mal-informado”. Fischermann reiterou o discurso, afirmando que as pessoas se deparam com muitas informações e que ninguém sabe dizer o que é verdade ou não, embora ele considere o conceito de verdade abstrato. “Não podemos dizer exatamente o que é verdade ou não, mas há dificuldade para saber em quem podemos confiar, onde há confiabilidade”, afirma.

Furtado acredita que nos dias de hoje ocorre um fenômeno semelhante ao vividos pelos partidos políticos e seus membros: acaba-se dando mais credibilidade aos jornalistas do que aos veículos em si, assim como se confia mais em determinados políticos do que no partido a que pertencem. “O Moisés Mendes deixou a Zero Hora, mas eu continuo lendo seus textos em seu blog, assim como continuo lendo Jânio de Freitas”, revela.

Muito antes da democracia se consolidar no Brasil, o jornalista Ben Jonson escrevia a peça The Staple of News, em 1625, sobre os primórdios do jornalismo na Inglaterra – texto que inspirou o documentário O Mercado de Notícias, de Jorge Furtado. À época, os jornais ingleses eram independentes do Rei – alguns a favor e outros contra, mas tinham autonomia. Furtado sustenta no documentário que, no Brasil, até hoje não foi conquistada a liberdade de imprensa em sua totalidade. Mino Carta, consagrado jornalista, afirma em entrevista no filme que somente no Brasil temos uma imprensa tão unificada; temos a impressão de que é a mesma pessoa escrevendo as manchetes de todos os grandes veículos.

Ao fim da conversa calorosa, com o auditório lotado, o público fez perguntas aos debatedores, encerrando o evento. O ciclo de debates Conversas Cidadãs tem como objetivo debater temas que afetam a sociedade civil diretamente, como educação, mídia, violência e espaço público, contando com a presença de especialistas nos assuntos abordados. O próximo debate será na segunda quinzena de agosto, também no Goethe-Institut.