Bairro Floresta vira cenário de charme e cultura nos sábados

O Bairro Floresta é um reduto tradicional de prostituição. Paralela à Avenida Farrapos, a Rua São Carlos é um bordel a céu aberto durante a madrugada. Devido a esta tradição, o bairro, que está entre os mais antigos de Porto Alegre, não atrai a atenção dos moradores da capital e estrangeiros que procuram um bom passeio. Acreditando no potencial local, porém, moradores do bairro começaram a se reunir e deram origem ao projeto Refloresta.

De acordo com o presidente da entidade, Carlos Silveira, a ideia foi coletiva e teve origem no bar do Hostel Boutique, o qual Carlos inaugurou na Rua São Carlos em dezembro de 2011. “Com o hostel, veio a iluminação da rua. Os moradores começaram a frequentar o bar do albergue e desse encontro surgiu a ideia do Refloresta. Dentre os projetos que integram a iniciativa, está o Turismo Criativo, que consiste em uma caminhada pelo bairro, a Feira Modelo, que ocorre todas as terças-feiras, e o Brechó de Rua Solte Suas Roupas ao Vento”, explicou Carlos.

Brechó de Rua Salte Suas Roupas ao Vento.

O brechó começou em setembro de 2012, ocorre em todos os sábados do mês e conta com 43 expositores, entre artesãos, vendedores de antiguidades, roupas usadas e moradores que trocam roupas entre si. Segundo Helena Prates, a proposta de brechó na rua é pioneira em Porto Alegre. “Quando surgiu a proposta de revitalizar o bairro Floresta, cada um trouxe uma contribuição. Como tenho há 10 anos o brechó Balaio de Gatos, propus a ideia do brechó de rua. A ideia não é facilitar o comércio, mas fortalecer a noção de troca”, afirmou Helena.

O brechó é ainda pouco conhecido. Por isso, há três meses os expositores começaram a fazer um caixa comunitário, para o qual cada um doa R$ 10 por mês, a serem investidos em divulgação. “As pessoas em Porto Alegre tinham um certo preconceito com brechós, mas estão aderindo cada vez mais”, relata Jane Correia, uma das expositoras. Para Maria José, que trabalha com brechós, a proximidade com o albergue tem sido positiva: “O bom é o hostel, pois muitos estrangeiros têm vindo. O dono incentiva e deixa que as pessoas experimentem roupas lá dentro. Já atendi pessoas de vários países, inclusive uma banda da Alemanha que adorou a iniciativa e fez uma apresentação aqui na rua.”

O poeta Ricardo Silvestrin, morador da Rua São Carlos, se somou ao brechó com um sarau de poesias declamadas das quatro janelas de seu casarão antigo. No sábado, dia 23 de novembro, a ideia do poeta foi colocada em prática. A proposta fazia parte não só do projeto Refloresta, mas da proposta do Museo de la Palabra, da Espanha, para se encaminhar à ONU que o dia 23 de novembro passe a ser o Dia Internacional da Palavra.

Ricardo Silvestrin, poeta e militante do Refloresta.
Ricardo Silvestrin, Alexandre Brito, Mario Pirata e Dilan Camargo emocionaram os frequentadores do brechó, que em poucos minutos entoavam em coro os versos saídos das janelas. Para Silvestrin, a palavra é o melhor meio para se chegar à paz, à reconciliação e é um direito inalienável do homem. Ao final da apresentação, um dos poetas jogou pequenos pedaços de papel com poemas, presenteando, entre o público, a advogada Gabriela Goergen. “Ir a brechós já é um bom passatempo. No entanto, poder passear por um brechó a céu aberto, em uma antiga e charmosa rua e ao final poder escutar decamações de poesias é uma experiência incrível. Com certeza voltarei e recomendarei aos amigos”, afirma Gabriela.

Veja o endereço do Projeto Refloresta no Google Maps:

Texto e fotos: Guilherme Fernandes (8º semestre)