Bienal do Mercosul busca diminuir a distância entre a arte e o público

Os visitantes e os mais de 1,4 milhão de habitantes da capital gaúcha vivem em clima artístico até 10 de novembro. A 9ª Bienal do Mercosul traz a Porto Alegre obras de 59 artistas de 26 países. As esculturas, fotografias, pinturas, vídeos e trabalhos dos mais diferentes estilos parecem encher os olhos e despertar a imaginação de adultos e crianças em locais como o Santander Cultural, Museu de Arte do Rio Grande do Sul (MARGS), Memorial do Rio Grande do Sul e Usina do Gasômetro. Além das exposições, durante a programação acontecem oficinas e projetos em oito pontos da cidade.

A edição da Bienal deste ano traz uma proposta diferente. Foram eliminadas as barreiras entre as pessoas e as obras. O público costumava apreciar os trabalhos a certa distância, mas agora pode e deve chegar mais perto e até se sentir parte deles. A marca do evento é a união de quatro elementos: Tecnologia, Natureza, Ciência e Arte. Todas as intervenções focam, de alguma maneira, num desses aspectos. O tema “Se o clima for favorável” traz uma reflexão econômica e política, além da sustentabilidade e questões ambientais.

Porto Alegre, 08/10/2013. Robert Rauschenberg, Port Arthur, EUA. Musa de Lama, 1969/1971. Foto: Paola Marcon.
“Musa de Lama”, obra de Robert Rauschenberg.

Uma das peças que mais chama a atenção é a Musa de Lama, exposta no primeiro piso do Santander Cultural. A união entre tecnologia e arte foi criada em 1960 por Robert Rauschenberg, precursor da arte contemporânea nos Estados Unidos e exibida apenas quatro vezes no mundo. A mediadora Carla Meyer conta que o experimento demorou cinco horas para ser acomodado no local da exposição.

Carla explica que a intenção da Bienal do Mercosul é criar um clima convidativo entre os projetos e as pessoas. “Elas não precisam gostar, não é um exercício contemplativo, mas sim reflexivo”, explica acrescentando que a pessoa não “toca” a obra, mas é “tocada” por ela. A mediadora está todos os dias no Santander Cultural, atende grupos de alunos de diversas escolas durante os dias úteis e outras pessoas nos finais de semana. Os mediadores estão disponíveis para conversas durante o horário de funcionamento nos locais de exposições.

Apesar da organização e a produção do evento, sob responsabilidade da Fundação Bienal de Artes Visuais do Mercosul (organização sem fins lucrativos), não poupar esforços para fazer a Bienal acontecer, há quem não concorde com este investimento, que totalizou R$ 12,53 milhões. Dimas Camargo, artista de rua há 43 anos, pinta e expõe seus quadros há mais de vinte na Rua dos Andradas, bem no centro de Porto Alegre, e sente-se um pouco incomodado.

Pontos de vista

Dimas acha que o governo só investe naquilo que tem interesse, deixando de lado o artista de rua. As pessoas, para ele, não enxergam nem valorizam as obras criadas por artistas desconhecidos. “A Bienal, para mim, poderia ser feita em qualquer lugar do mundo, desde que valorizasse e respeitasse o artista local”, afirma. O pintor vai ainda mais longe ao explicar por que se sente desvalorizado: “O artista de rua é tratado como marginal, um prostituto da arte, enquanto o governo investe milhões em nomes vistos como importantes.”

Cristiano Monteiro, antropólogo e professor da Universidade de Caxias do Sul, afirma que é impossível se manter indiferente a um espaço como a Bienal. Para ele, não há como não pensar e não sentir, e isso acontece até mesmo se a pessoa não tiver noção alguma de arte. Ele acredita que o contato com as obras proporciona noções não comuns no cotidiano, e que espaços como a Bienal, gratuitos e democráticos, devem ser valorizados e prestigiados: “Enquanto contemplava os trabalhos, ouvi vários sotaques e idiomas. Neste sentido, acho que o espaço artístico é um espaço de encontro, de sociabilidade, ainda que a experiência de observação seja mais do plano individual.”

O antropólogo conta ter visto um trabalho de Santa Maria e, na sala ao lado, de um inglês, e, na seguinte, de um japonês. “Os trabalhos eram de diversas partes do mundo, para um leigo — como eu — foi interessante perceber essa diversidade de olhares e nacionalidades”, explica. A experiência, para ele, foi muito significativa: “A impressão é que a gente sai de lá mais farto e ao mesmo tempo mais leve.” Conforme o antropólogo, na Bienal ele “se sentiu arte”.

Saiba mais sobre a Bienal do Mercosul deste ano

A 9ª Bienal do Mercosul começou no dia 13 de setembro e vai até 10 de novembro, com entrada gratuita. As obras podem ser encontradas no Santander Cultural, no MARGS, no Memorial do Rio Grande do Sul e na Usina do Gasômetro, de terça-feira a domingo, e a programação envolve exposições, oficinas e até mesmo palestras. Locais como Teatro Bruno Kiefer, Ilha do Presídio, Centro Cultural CEEE Érico Veríssimo e Fundação Vera Chaves Barcellos, em Viamão, também sediam projetos específicos.

O evento traz para a capital gaúcha uma série de exposições de arte contemporânea, que incluem performances, projeções de filmes, iniciativas e programas. Este ano, a Bienal procura envolver o olhar do admirador na sensação que os movimentos das obras, sobretudo das que exploram diferentes tipos de perturbações atmosféricas, provocam.

O título da Bienal deste ano é “Se o clima for favorável” (Si el tempo lo permite, em espanhol, e Weather Permitting, em inglês). O evento é um convite a todos os que quiserem refletir sobre “quando” e “como”, “por quem” e “por que” certos trabalhos de arte e ideias ganham ou perdem visibilidade num determinado momento histórico. A iniciativa visa criar laços entre pessoas e obras e fortalecer os já existentes, mesclando cultura local com a de fora.

Texto: Lívia Hoffmann (8º semestre) e Paola Marcon (6º semestre)
Fotos: Paola Marcon (6º semestre)