Brechó em Porto Alegre atrai colecionadores de camisetas de futebol

O espaço é pequeno, a iluminação é baixa e há televisores por todos os lados. No térreo cabem pouco mais de cem pessoas. Para subir as escadas do prédio de dois andares é preciso cuidado, pois os degraus são apertados e o risco de cair é grande. Que o digam fãs eufóricos por ver as raridades encontradas na parte de cima do bar.

No fim da Rua Fernando Machado encontra-se um brique temático que proporciona a venda, troca e compra de camisetas futebolísticas. “Aqui vem todo o tipo de gente. Colecionadores, curiosos e até mesmo jogadores de futebol”, explica o vendedor Yan de Assunção, 20 anos.

O Brechó do Futebol tem mais de 2700 camisas e diversos objetos que vão desde livros e bonecos a faixas. Movimentado, o local atrai até mesmo quem não é daqui. Alejandro Diez, 21 anos, e Andres Fernandez, 22, são intercambistas e estudantes de engenharia. Vieram da Espanha há um ano e escolheram o estabelecimento como ponto de encontro para conferir partidas e conversar sobre futebol. “Não tem como definir o que mais chama a atenção aqui, tudo é futebol”, admira-se Fernandez. Torcedores do Atlético de Madrid no país de origem, aqui em Porto Alegre já optaram por seu time favorito: o Grêmio.

E para quem pensa que o foco principal é apenas em produtos da dupla Grenal, muito se engana. Não é difícil encontrar torcedores buscando camisas do São José, por exemplo, ou de grandes do Campeonato Brasileiro, como os favoritos Palmeiras e Flamengo. Clubes argentinos também estão na lista dos mais buscados e na grande maioria das ocasiões, todos são atendidos. “O que vale, tanto na hora de comprar quanto na de vender, é a raridade. Quanto mais antiga, mais rara”, define o vendedor.

Integrantes do sexo feminino são raros no local, mas a entrada é livre e todos são bem-vindos. “Trabalhamos principalmente com roupas usadas e isso geralmente não atrai as mulheres”, justifica Assunção. Para a boa conservação dos objetos antigos num local tão abafado, os responsáveis investiram em ar-condicionado e tem dado certo. O cuidado vem também no trato com os clientes, afinal, paciência é um dos itens mais importantes no negócio. “É preciso ter jogo de cintura e conhecer futebol. Tem gente que acha que todas as camisas valem cinco mil reais. Às vezes temos que explicar”, conta Assunção.

Os xodós da casa são uma camiseta da Seleção Brasileira usada pelo Pelé, estimada em mais de sete mil reais, e uma do Flamengo, adquirida recentemente, ainda sem valor. “Jogamos o preço para cima, pois são camisas que vale mais a pena ter aqui conosco do que vender. Elas têm um valor sentimental”, revela Assunção, um dos responsáveis pelas trocas e vendas. Admitem ainda ter realizado um sonho com essas duas compras, não tendo mais nenhuma outra em mente.

Aloísio, ex-jogador do Internacional é uma das personalidades do meio que já esteve no Brechó do Futebol para buscar uma lembrança de sua época dentro de campo e não saiu decepcionado. Levou para casa duas camisetas que usara nos anos oitenta e deixou por todo o local autógrafos como lembranças de sua passagem. Familiares de profissionais do futebol também frequentam o estabelecimento em busca de presentes, apesar de nem todas a vendas acontecerem de forma física. O mercado da internet é ainda mais forte e o brique está lá para facilitar compras e vendas à distância.

Mas o cliente VIP do estabelecimento é o representante comercial Valdir Lindenalli, de 46 anos. Dono de uma coleção de mais de mil camisas de futebol e colorado “de nascimento”, explica que na hora de colecionar não pode ter time. “Acho até que tenho mais camisas do Grêmio que do Inter”, brinca. Gringo começou a coleção há quatro anos e admite ser um apaixonado por acumular objetos, o que faz também com moedas e flâmulas. “Meu sonho era ser jogador de futebol. Como não consegui, me interessei muito pela área e agora faço coleções”, explica. E quando o assunto é o Brechó, não faltam elogios: “Antes comprava em lojas, não tinha um único lugar físico para adquirir camisetas. Achei minha casa aqui.”

O início de tudo

Carlos Caloghero tem 32 anos e é o proprietário do Brechó do Futebol. Gremista de carteirinha, resolveu criar o estabelecimento em 2009, quando percebeu que seu hobby poderia se tornar um negócio. “Eu estava na faculdade, tinha tempo livre e percebi que faltava um local onde as pessoas pudessem negociar camisas futebolísticas presencialmente”, relembra. O empresário, quando criança, colecionava latinhas de cerveja e, ao crescer, começou a adquirir camisetas. Comprava pela internet e realizava até viagens a Buenos Aires para diversificar a coleção. “Um dia quis experimentar vender uma camiseta que tinha e logo que anunciei consegui fechar o negócio. Vi que valia a pena”, recorda. Hoje, ele continua realizando viagens para aumentar a variedade do Brechó e divide seu tempo com outros estabelecimentos. Não é fácil encontrar o empresário na correria do dia a dia, mas, durante os jogos do Grêmio, não tenha dúvidas de onde ele estará.

Texto e fotos: Karine Flores (6º semestre)