Censurado por Bolsonaro, Juremir Machado abandona programa na Rádio Guaíba

Ao conceder entrevista para programa “Bom Dia”, nesta terça (23), candidato condicionou responder perguntas apenas do apresentador Rogério Mendelski

  • Por: Leonardo Sonda (2º semestre) | Foto: Charge: Bernardo Speck (6º semestre) | 24/10/2018 | 0

A entrevista de Jair Bolsonaro, candidato do PSL à Presidência da República, ao programa
“Bom Dia” da Rádio Guaíba, nesta terça-feira 23), provocou a desistência do jornalista
Juremir Machado da Silva de continuar participando do mesmo espaço. Há 10 anos
integrando a equipe do programa, que tem Rogério Mendelski como âncora, o jornalista e
professor da Escola de Comunicação, Artes e Design (Famecos) da PUCRS anunciou, ao final
da entrevista do candidato, sua decisão de deixar o “Bom Dia”. Antes disto, Juremir
questionou o âncora se o fato de não ter dito direito de fazer perguntar havia sido uma
exigência do candidato do PSL para conceder a entrevista.

Mais tarde, no programa “Esfera Pública”, que divide com a jornalista Taline Opiz, Juremir
evitou a polêmica e isentou a empresa Record de qualquer ato de censura. Primeiro,
esclareceu que havia se retirado apenas da participação do programa “Bom Dia”, não da
emissora, e frisou que não sofreu “nenhuma censura da empresa, nenhuma pressão da
empresa sobre mim, absolutamente nada. Não achei adequado que o candidato Bolsonaro
não quisesse falar para todas as pessoas que estavam no estúdio, na medida em que era um
horário em que eu participava diariamente”.

Além de eximir a empresa da censura sofrida no programa, o jornalista esclareceu que
continuará com o programa “Esfera Pública” e com a sua coluna no jornal Correio do Povo,
que assim como a rádio pertencem ao Grupo Record. A direção da emissora não se
pronunciou sobre o ocorrido, porém o gerente geral da Rádio Guaíba, Nando Gross, negou
censura ao jornalista em publicação no seu Twitter: “Não teve censura ao Juremir,
importante esclarecer isso. O candidato Bolsonaro queria responder apenas as perguntas
do apresentador e a produção concordou com sua exigência. Se tem algo que não temos
na Guaíba é censura. Juremir segue firme na casa”.

O fato teve grande repercussão no estado e também foi noticiado por colunistas políticos do
país. Colegas dos meios de comunicação, professores e alunos da Famecos se manifestaram
pelas redes sociais criticando o veto do presidenciável à participação do jornalista na
entrevista e prestando apoio à atitude de Juremir. Entre as manifestações de solidariedade
estão a nota dos professores da Famecos e da Associação Riograndense de Imprensa (ARI).

Nota de Famecos 
“As premissas do Jornalismo estabelecem a liberdade que o profissional tem de fazer
perguntas. Cabe, também, ao entrevistado, decidir ou não dar entrevista exclusiva a um
veículo, mas com os entrevistadores e as condições rotineiras ou propostas deste mesmo
veículo. No entanto, manter os Jornalistas participantes de um programa de rádio dentro do
estúdio, mas negar a eles a possibilidade de perguntar, é um claro caso de cerceamento do
exercício da profissão.
Nós, jornalistas e professores de jornalismo, colegas de Juremir Machado da Silva, nos
solidarizamos com ele e com a sua atitude de se retirar do programa Bom Dia da Rádio Guaíba. Reiteramos que isso não se trata de uma posição política partidária, e sim a defesa e uma profissão que a cada dia é atacada e desmoralizada”.

 Nota da ARI
“A Associação Riograndense de Imprensa (ARI) por ser contrária a qualquer tipo de
cerceamento ao exercício da profissão, se solidariza com o jornalista Juremir Machado da
Silva, no episódio ocorrido hoje pela manhã (23/10), durante entrevista do candidato Jair
Bolsonaro. Defendemos o direito de todo o jornalista de exercer sua profissão com
independência intelectual, em espaço conquistado com competência, em favor da
democracia e do debate franco”.