Ciclovia da José do Patrocínio complica trânsito local

Alvo de críticas não apenas dos ciclistas, a ciclovia da rua José do Patrocínio, em Porto Alegre, tem gerado discussões na comunidade da região. Antes de sua inauguração em junho do ano passado, já havia pelo menos duas divergências sobre o projeto: a falta de conexão com outra faixa especial para bicicletas no final do trajeto e o espaço estreito entre a ciclovia e as vagas de estacionamento.

Os 880 metros de extensão da ciclovia da rua José do Patrocínio, que ligam as avenidas Loureiro da Silva e Venâncio Aires, estão localizados à esquerda da via. Ao lado, os carros parados nas vagas de estacionamento preenchem o espaço do que costumava ser a terceira faixa do tráfego. Com a possibilidade de estacionar nas duas leterais da rua, restam apenas duas pistas para os motoristas que passam pela via.

Fernando Selau é sócio-proprietário de uma sorveteria em frente à ciclovia e conta que por volta das 17h às 20h o congestionamento na rua piorou em razão da redução da via de rodagem de carros. Segundo ele, não há muito movimento de ciclistas no local e a maioria não utiliza a ciclovia, optando por pedalar junto aos carros. “Quem usa mais são entregadores de água, gás e outros materiais para as lojas”, diz. Selau ainda relata que já viu acidentes ocorrerem no local, mas nenhum grave.

O presidente da Associação dos Ciclistas de Porto Alegre (ACPA), Pablo Weiss, resume alguns dos problemas da pista especial para ciclistas da José do Patrocínio, como o seu estreitamento, a presença de bueiros, a tinta vermelha escorregadia em dias de chuva, o desalinhamento do asfalto em função do sistema de escoamento de água e a demora da sinaleira para bicicletas. Weiss não vê complicação em manter o estacionamento ao lado da ciclovia, mas relata que o espaço entre ambos deveria ser maior para facilitar a abertura das portas do carro pela esquerda, sem que houvesse o risco de atingir um ciclista.

Ciclovia da José do Patrocínio possui 880 metros de extensão.

Para os carros estacionados à esquerda da via, há perigo para abrir as portas dos dois lados, tanto em função do movimento da rua (ao lado direito) quanto da ciclovia (ao lado esquerdo). Já os pedestres tiveram a travessia dificultada pela necessidade de prestar o dobro de atenção com as bicicletas que vêm em ambos os sentidos pela ciclovia ser bidirecional. Além disso, quem precisa atravessar é obrigado a parar no meio da faixa de segurança, visto que sua visão da rua é prejudicada pelas vagas de estacionamento.

O arquiteto e gerente de Projetos Especiais da Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC), Antônio Vigna, diz que a ciclovia não poderia ter sido construída à direita da via por causa dos contâiners de lixo e que as vagas de estacionamento foram mantidas para atender o comércio da região. De acordo com ele, há monitoramento constante da José do Patrocínio, assim como também são realizadas audiências com a comunidade para avaliações. Sobre a questão da tinta, o arquiteto afirma que é a mesma utilizada em demais cidades do Brasil e que, assim como um carro reduz a velocidade em dias de chuva, a bicicleta deve fazer o mesmo para evitar o efeito escorregadio.

A EPTC não possui registros de acidentes no local, mas Antônio Vigna confessa que ele mesmo tem conhecimento de acidentes de ciclistas na José do Patrocínio, mas que infelizmente nem sempre é feito o registro de ocorrência para a entidade.

Por outro lado, do ponto de vista dos ciclistas do local, a ciclovia é bem avaliada e a questão do estacionamento é vista até mesmo como uma barreira de proteção dos carros que circulam na via. Jesse Fonseca, 28 anos, pedala todos os dias para se deslocar do trabalho até a sua casa. Ele afirma que não tem o que reclamar da pista da José do Patrocínio e sua única queixa é em relação à falta de educação e respeito com quem utiliza a bicicleta como meio de transporte em Porto Alegre. Porém, o estudante Caio Grassi, 25 anos, confessa que não respeita o sinal da José do Patrocínio pela sua demora. As curvas bruscas e os trechos de cruzamento são os principais pontos negativos levantados por Caio.

Segundo Weiss, a pista de bicicletas da José do Patrocínio possui problemas de planejamento e ele ressalta a necessidade de conexão com as demais vias. A intenção de interligar as ciclovias em Porto Alegre existe, de acordo com o arquiteto Antônio Vigna, mas leva tempo. Sobre as reclamações a respeito do local, ele declara que se houve erro foi em deixar de informar mais as pessoas. “A cobrança é de todos os lados, precisamos fazer uma opção”.

Texto: Caroline Medeiros (5º semestre)
Fotos e Vídeo: Stephanie Gomes Pereira