Com medo de taxistas, mulheres adotam táticas de proteção

  • Por: Eduarda Endler Lopes (3º sem.), Juliana Baratojo (4º sem.), Maria Antonia Fiorini (2º sem.), Vírginia Fernandes (3º sem.) | Foto: Joel Vargas/PMPA | 08/10/2015 | 0

Porto Alegre, RS - 02/05/2015 GPS nos táxis da Capital Foto: Joel Vargas/PMPA

O medo de sofrer assédio ou alguma ação violenta por parte de alguns motoristas de táxis em Porto Alegre tem provocado reações extremas em mulheres da Capital. Além do caso da estudante de Jornalismo que, na noite de 6 de outubro, resolveu se jogar do carro em movimento temendo ser atacada pelo taxista que tomou uma rota que ela não conhecia para fazer o trajeto solicitado e questionado não respondeu, outras mulheres revelam medo de usar este serviço de transporte em Porto Alegre.

O temor revelado pela estudante da PUCRS é compartilhado por diversas mulheres que relatam terem vivido situações de medo e que as desencorajam a usar o serviço de táxis. Débora Quadros, estudante de História, relata que em novembro de 2014, saiu sozinha de uma festa e pegou um táxi. No caminho, o motorista começou assediá-la e pediu seu contato. Devido ao medo de recusar, a moça pegou o número dele e disse que mandaria uma mensagem – o que nunca fez. Débora ainda lembra as características do taxista. “Essa situação me deixou muito triste, me senti invadida por não poder contratar esse serviço com segurança”, desabafa.

Além de assédios, há motoristas que ultrapassam limites. Luiza Rocha, estudante de Relações Públicas, conta que certa vez pegou um táxi até a casa de um amigo, cujo pai é general. Em frente ao prédio, o motorista avistou soldados armados e questionou a presença deles. A moça explicou e o taxista reagiu como se ela estivesse ali para fazer programa. Ele citou lugares que contratavam garotas de programa de luxo e que ele já tinha levado várias meninas.

ESTRATÉGIAS DE SEGURANÇA
Devido ao medo, algumas mulheres passaram a adotar táticas que as fazem sentir mais segurança. Anotar o prefixo do veículo, avisar que está chegando e dizer a localização, ter conhecimento do caminho antes de embarcar e enviar a alguém de confiança os dados do taxista (número de telefone, modelo de carro, placa, prefixo, etc) que aparecem em aplicativos são formas de proteção usadas.

Uma estudante universitária, que preferiu não se identificar, utiliza várias dessas estratégias para se sentir mais segura. Ela conta que sempre pede táxi por aplicativos e salva os dados do motorista. Antes de entrar no táxi, verifica se o motorista tem licença. Depois disso, manda os dados para o namorado e liga para ele, avisando onde está e quanto tempo levará para chegar no local desejado. Com spray de pimenta na mão, conversa o mínimo possível e sempre escolhe o caminho que quer fazer.

A estudante salienta que é uma grande complicação para conseguir táxi e chegar no lugar desejado e que fica chateada por ter que fazer tudo isso. Ela afirma que tem muito medo, pois já sofreu assédio, especialmente de noite e saindo de alguma festa ou bar. A jovem conta que não sai mais sem um homem para dividir táxi de noite devido à insegurança. Isto é, a jovem precisa de um homem em que confia por medo de outro homem, e ainda tem medo de que suas preocupações vão provocar no motorista.

Uma das alternativas utilizadas pelas passageiras é chamar mulheres motoristas. Agna Brzezinksi atuou como taxista por cinco anos. Há dois meses, parou de trabalhar por ter sido agredida por outros três taxistas homens em uma noite na Cidade Baixa, devido sua orientação sexual. Ela conta que já sofreu assédio por parte de motoristas homens e clientes. Agna afirma que muitas meninas ficam vulneráveis após festas e aconselha como elas podem agir. Ela orienta as meninas a não andarem sozinhas de táxi, olhar o prefixo do taxista, analisar suas características, chamar pelo rádiotaxi, verificar se dentro do veículo há cheiro de bebidas alcoólicas ou drogas e entrar em contato com alguém de confiança informando sua localização.

Um projeto foi protocolado na Câmara de Vereadores depois de um caso grave, em que um taxista tentou arrombar a porta do apartamento de uma mulher. A vereadora Fernanda Melchionna, presidente da Comissão de Direitos Humanos, explica que o projeto prevê que 20% da frota de taxistas sejam motoristas mulheres e pede por mais fiscalização. Ela afirma que sobre o caso que fez o projeto nascer, a Empresa Pública de Transporte e Circulação apenas deu uma multa ao taxista e ele segue trabalhando. “O que me choca é a falta de controle da EPTC”, desabafa. Segundo dados da empresa, o maior número de reclamações sobre o serviço é contra os motoristas, com quase 119 por mês.